10/06/2026
FALTA CUMPRIR-SE PORTUGAL
Perante os sinais de desnorte nacional e os crescentes ataques à identidade histórica, cultural e linguística de Portugal, torna-se urgente reflectir sobre o rumo do País e sobre o legado que deixaremos às gerações futuras. Neste Dia de Portugal, o desafio não é apenas recordar o passado, mas reencontrar a vontade colectiva necessária para defender a Nação e cumprir o seu destino.
No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, neste ano de 2026, perante os sinais de desolação, desnorte, abandono e resignada passividade que se vão abatendo sobre a Nação, face aos reiterados ataques à nossa identidade nacional, cultural, linguística e histórica — não apenas oriundos do exterior, mas, mais dolorosamente ainda, nascidos no próprio seio Lusitano — impõe-se uma hora de grave reflexão e de consciência.
É tempo de deter a marcha irreflectida dos dias e perscrutar o rumo desgovernado desta antiga Pátria, deste vetusto reino espiritual que, outrora, «deu novos mundos ao mundo» e levou o nome de Portugal aos confins da Terra. É tempo de interrogar o passado, compreender o presente e preparar o futuro; de ponderar o que devemos fazer, quem devemos escolher e por que caminhos devemos seguir, para melhor servir Portugal e os Portugueses.
Porque as nações não perecem apenas pela força dos seus inimigos; perecem, sobretudo, quando esquecem a sua alma, renegam a sua memória e deixam de acreditar no seu destino. E Portugal, cuja História foi escrita com sacrifício, coragem e fé, não pode resignar-se ao declínio nem aceitar como inevitável a perda daquilo que o define e o distingue.
Que este Dia de Portugal seja, pois, mais do que uma simples efeméride assinalada no calendário das gerações; que seja um chamamento solene à consciência nacional, um toque de alvorada para um povo que não nasceu para a resignação nem para o esquecimento. Que seja a hora de despertar da indiferença, de romper com a apatia que corrói as vontades e de reencontrar o sentido profundo da nossa existência colectiva enquanto Nação livre, soberana e fiel à sua História.
Que cada Português, dentro e fora da Pátria, sinta sobre os seus ombros o peso honroso da responsabilidade que lhe foi legada pelos séculos. Porque herdámos mais do que um território; herdámos uma civilização, uma língua, uma memória, uma forma singular de estar no mundo, edificada pelo esforço, pelo génio e pelo sacrifício de incontáveis gerações que nos precederam. E aquilo que recebemos não nos pertence apenas a nós: pertence igualmente aos que hão-de vir depois de nós, e perante eles responderemos pelo que preservarmos, pelo que destruirmos ou pelo que abandonarmos.
Que este seja o momento de restaurar a consciência do dever cívico, de compreender que a Pátria não é uma abstracção distante nem um conceito vazio, mas uma realidade viva que exige vigilância, dedicação e coragem. Porque nenhuma nação se mantém por inércia, nenhuma cultura subsiste sem defensores, nenhuma liberdade perdura sem quem a honre e a proteja.
Que reencontremos a vontade nacional, não como nostalgia estéril de grandezas passadas, mas como força criadora voltada para o futuro. Que voltemos a acreditar que Portugal não é um acidente da História nem uma relíquia condenada ao declínio, mas uma comunidade de destino, forjada por séculos de provação e de glória, chamada ainda a cumprir uma missão que transcende os limites do seu território e do seu tempo.
Que recuperemos a consciência da nossa missão colectiva: preservar a herança recebida, fortalecer os alicerces da Nação, defender a língua que nos une, honrar a memória dos nossos maiores e transmitir aos vindouros um Portugal mais forte, mais digno e mais fiel a si próprio. Porque um povo que esquece quem é perde também a capacidade de decidir para onde vai.
E que, acima de tudo, reencontremos a confiança no futuro. Não uma confiança ingénua ou acomodada, mas aquela que nasce da determinação, da perseverança e da fé no destino nacional. A confiança dos povos que, mesmo cercados pela adversidade, recusam abdicar daquilo que são. A confiança dos portugueses que, ao longo dos séculos, souberam enfrentar o impossível e transformá-lo em realidade.
Se assim procedermos, este Dia de Portugal não será apenas uma celebração da memória, mas o início de uma renovação moral e espiritual da Nação. E então, iluminados pelo exemplo dos que nos precederam e fortalecidos pelo dever para com aqueles que nos sucederão, poderemos erguer-nos à altura da nossa História e caminhar, uma vez mais, ao encontro do destino que Portugal ainda guarda em si. Porque as nações vivem enquanto acreditam na sua alma; e Portugal, enquanto conservar a sua, jamais deixará de ser Portugal.
Só então poderemos responder dignamente ao apelo de Fernando Pessoa, ecoado no poema «O Infante», quando escreveu: «Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!». E só então poderemos, finalmente, cumprir Portugal.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Mensagem - Mar Português, O Infante, Fernando Pessoa
João Micael
Presidente da Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento
Director da Academia de Protocolo