26/03/2026
Vivemos um tempo em que a desconfiança se confunde frequentemente com lucidez.
Ao longo dos anos, muitas iniciativas nasceram de — ou foram capturadas por — interesses, agendas ou intenções pouco claras. É natural que hoje se olhe com cautela, que se questione, que se prefira até ficar de fora, para não correr o risco de ser manipulado.
Daí talvez tenha nascido a crença de que todas as manifestações são "festas das mãos": momentos em que as pessoas se juntam, partilham uma emoção, sentem que fizeram algo… mas onde, no fundo, pouco muda realmente.
E talvez haja alguma verdade nisso.
Quando a acção não nasce de uma transformação interior, quando se esgota no movimento exterior ou numa emoção fugaz, dissipa-se, como tudo o que não cria raiz.
Mas há outro extremo, igualmente perigoso: o de, pela desilusão crónica, se começar a negar valor a qualquer forma de encontro ou cooperação.
Talvez esse cepticismo seja, ele próprio, o resultado desejado por forças desarmónicas que procuram impor-se alimentando a ilusão de separação: entre mim e a minha verdadeira natureza, entre mim e o outro, entre mim e o mundo.
Nem tudo o que é colectivo é vazio. Nem tudo o que é silencioso é ineficaz.
Há iniciativas que não procuram convencer, nem impor, nem reagir: apenas alinhar.
Esta caminhada nasce desse espírito.
Não é uma manifestação. Não é um protesto. Não tem filiação política, nem ideológica, nem agenda escondida.
É algo muito simples e, por isso mesmo, talvez mais exigente:
estar presente, caminhar em silêncio, permitir que pensamento, sentimento e acção deixem de andar separados.
Num tempo de tanto ruído, isto pode parecer pouco. Mas o essencial apresenta-se, muitas vezes, assim: sem alarde, sem argumento, quase sem forma.
Cada um levará o que é, ou o que acredita ser. E encontrará apenas um convite: ao silêncio, à presença, ao que simplesmente é.
A paz não é uma palavra que se diga. É um estado que se pratica.
E quando várias pessoas se encontram nesse estado, sem slogans, sem confronto, sem necessidade de mostrar, algo acontece. Nem sempre imediato. Mas real, como tudo o que começa por dentro e só depois se revela fora.
Não é um caminho para todos. Mas não é, de forma alguma, uma "festa das mãos".
Talvez não mude o mundo de forma visível. Mas pode mudar a lente com que cada um o vê.
E é aí, muitas vezes, que o mundo começa verdadeiramente a mudar.
Porque a paz não se impõe. Reconhece-se.
Manifesto: www.portugalpelapaz.pt Ver menos
— com Vera Leal Afonso e
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