20/03/2026
Entre o gesto mínimo e a metamorfose incessante, o ciclo OS RITUAIS DO CINEMA III propõe um encontro entre dois filmes que, à primeira vista, parecem habitar extremos opostos — A Dupla Vida de Véronique (1991), de Krzysztof Kieślowski, e Holy Motors (2012), de Leos Carax — mas que, na sua essência, interrogam a mesma condição: o humano como ser ritualizado, atravessado por formas visíveis e invisíveis de repetição, de encarnação e de relação com o outro.
Entre estes dois polos, desenha-se uma tensão que dialoga diretamente com uma questão central do pensamento contemporâneo: o ritual ainda nos funda, ou tornou-se uma forma esvaziada de repetição? Em Kieślowski, o ritual quotidiano abre o sujeito ao invisível, criando uma disponibilidade para o mistério e para a alteridade. Em Carax, o ritual aproxima-se da exaustão, de uma circulação infinita de formas que já não garantem sentido, mas apenas sobrevivência simbólica. Um trabalha a contenção, o outro o excesso. Um afina, o outro fragmenta.
E, no entanto, ambos convergem num ponto essencial: o cinema não é apenas representação de rituais — é, ele próprio, um dispositivo ritual. Entramos na sala, suspendemos o tempo, entregamo-nos a imagens que nos convocam para uma experiência partilhada, mas profundamente interior. Tal como Véronique, somos atravessados por intuições que não sabemos explicar. Tal como Oscar, habitamos, por instantes, vidas que não são nossas. O espectador torna-se, assim, participante de um processo que oscila entre a revelação e a perda, entre a construção de sentido e a sua dissipação.
Este ciclo convida-nos, portanto, a uma pergunta que permanece em aberto: o que ainda pode o ritual fazer por nós — e o que fazemos nós, hoje, com os rituais que herdámos ou reinventámos? Talvez a resposta não esteja em escolher entre silêncio e excesso, entre interioridade e performance, mas em reconhecer que, mesmo na fragmentação contemporânea, algo insiste em repetir-se. Um gesto. Um olhar. Um corpo que tenta, ainda, encontrar forma no mundo.
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