13/08/2026
CASA DO ARTISTA
Irene Sousa, produtora de teatro - Metida num buraco
Mesmo aos 78 anos, continuo a ser uma pessoa bastante determinada. Nunca me deixei definir pelas doenças e, mesmo quando alguma tragédia acontece, a minha primeira reação é pensar no que há para fazer, não na tragédia. Fui sempre assim e não iria ser diferente quando, há 3 anos, caí num alçapão de 3 metros de fundo e 30 cm de largo, durante uma inspeção ao subpalco do teatro Politeama, onde eu trabalhava.
Eu estava comprimida, sem me conseguir mexer, em posição vertical, quase sem luz, e só queria saber se estava viva. Percebi que sim, quando as mãos mexeram um pouco. Comecei a gritar, esperando que algum técnico de palco me ouvisse. Tinha dores, não sabia o que estava partido e só pedia que me tirassem dali.
Demoraram três horas até os bombeiros conseguirem tirar-me daquele buraco. No São José diagnosticaram fratura numa perna e num braço e, mais tarde, lesão na quarta e na quinta vértebra. Passei horas intermináveis nas urgências, depois anos em fisioterapia, mas no ano passado percebi que não evoluía: continuava com dores na cervical, ouvindo dos médicos que não havia nada a fazer, que era perigoso operar.
Nessa altura ainda vivia em minha casa e, apesar das dificuldades, continuava a trabalhar, mas não queria continuar corcunda nem acabar numa cadeira de rodas.
Acabei por descobrir um ortopedista que me disse o que eu queria ouvir: era possível operar, seria uma operação difícil, de alto risco, mas se eu quisesse, ele avançava. Respondi no segundo seguinte: “Quero e quero já!”. Se havia de morrer um dia sem qualidade de vida, melhor morrer na operação tentando uma vida de qualidade.
Entrei no hospital em Novembro passado, muito tranquila. Os meus dois filhos estavam muito mais preocupados do que eu. Quando o cirurgião apareceu, sorriu-me e disse: “Vamos a isto!”
Acordei da cirurgia, insistindo que eu não tinha sido operada nem sequer chegara a adormecer, tão bem me sentia.
Em boa hora decidi pela cirurgia. É que a decisão certa é sempre aquela que nos permite viver com alegria, não apenas o prolongar uma difícil existência. E tudo tem um risco, afinal!
MHB