02/10/2026
Há frases que, pela sua simplicidade, explicam realidades complexas. É o caso de uma reflexão escrita por um colega de profissão e de posto: “Comunicação = emissor + mensagem + recetor. Se retirarmos o recetor da equação, porque não existe, não está disponível ou não quer ouvir, deixa de haver comunicação.” Esta frase leva-me a refletir sobre o que está a acontecer entre a Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP) e o Ministério da Administração Interna (MAI). A questão é simples: as polícias estão a falar, mas estará alguém a ouvir?
Quando as mesmas preocupações voltam à agenda e as posições continuam distantes, é legítimo perguntar se estamos perante diálogo ou apenas perante dois lados que falam sem conseguirem escutar-se. Quando a ASPP aponta problemas nas carreiras, na remuneração, nos suplementos ou nas condições de trabalho, a mensagem merece ser ouvida. Ouvir não significa concordar, mas negociar implica reconhecer que o outro lado tem algo para dizer.
Talvez o problema não esteja na inexistência de comunicação, mas na ausência de escuta. O Governo tem legitimidade para defender as suas soluções, enquanto a ASPP, enquanto estrutura sindical mais representativa, tem legitimidade para contestá-las, apresentar alternativas e defender os interesses daqueles que representa. Mas, no meio de reuniões, propostas e números, há uma realidade que não pode ser esquecida: as polícias são feitas de pessoas. Por detrás de cada efetivo existe uma história profissional, anos de serviço e experiência acumulada.
Na Madeira, essa realidade tornou-se ainda mais evidente com a perda de dois colegas: Maria José Cardoso e Emídio Abreu. A primeira, reconhecida como a primeira mulher polícia da Madeira e a primeira mulher com autoridade policial a prestar serviço no Comando Regional, deixou-nos já na aposentação. Abriu caminho e deixou o seu nome na história da Polícia na Região. O segundo partiu quando estava próximo da pré-aposentação, depois de uma vida dedicada à profissão.
Duas vidas. Duas histórias. Duas gerações de polícias. Dois colegas que deixaram de estar entre nós. E há uma consequência: o Comando Regional ficou ainda mais desfalcado. Não se trata apenas de dois números a menos numa escala. Perder profissionais significa perder capacidade operacional, experiência e memória institucional. Por detrás de cada lugar numa escala existe uma pessoa e, quando deixa de estar disponível, alguém terá de assegurar o serviço.
Conhece-se essa realidade quando é necessário fazer mais uma escala, quando uma folga é adiada, quando uma equipa trabalha com menos elementos ou quando se pede mais a quem já deu muito. É por isso que a mensagem da ASPP deve ser escutada, porque quem está diariamente no terreno possui uma perspetiva que não pode ser ignorada por quem toma decisões.
Maria José Cardoso e Emídio Abreu deixam também essa responsabilidade: a de não transformar os profissionais em números. Uma polícia forte não se constrói apenas com legislação ou equipamentos. Constrói-se, sobretudo, com pessoas que envelhecem na profissão, chegam à aposentação e, infelizmente, partem antes de dizer: “missão cumprida”.
É tempo de voltar à frase que deu origem a esta reflexão: Emissor + mensagem + recetor. Parece simples, mas é mais simples: se quem recebe a mensagem não quiser ouvir, não há comunicação. E sem comunicação não haverá entendimento. A ASPP não pede aceitação. Pede que as suas reivindicações sejam ouvidas, discutidas e ponderadas.
Não estamos apenas a falar de salários, suplementos ou carreiras. Estamos a falar de pessoas, de condições para cumprir uma missão e da capacidade do Estado para garantir aquilo que esperamos de uma polícia: estar lá quando é preciso. Na Madeira, essa capacidade tornou-se mais difícil. Por Maria José. Por Emídio. E por todos os que continuam a servir. Por isso, no dia 20 de outubro, os polícias da Madeira vão para a rua: não para deixar de dialogar, mas para mostrar que, quando a voz não é ouvida à mesa, se faz ouvir na rua.
Ouvir as polícias não é um favor. É uma obrigação de quem quer que a comunicação se transforme em diálogo.
Adelino Camacho
O1.10.2026