28/03/2024
Dia Mundial do Teatro
Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2019
Carlos Celdrán, Cuba | Diretor de teatro, dramaturgo e professor
Antes do meu despertar para o teatro, os meus mestres já lá estavam. Tinham construído as
suas casas e as suas poéticas sobre os restos das suas próprias vidas. Muitos deles não são
conhecidos ou sequer lembrados: trabalharam a partir do silêncio, a partir da humildade
das suas salas de ensaio e das suas salas cheias de espetadores e, lentamente, após anos
de trabalho e conquistas extraordinárias, foram deixando o seu sítio e desapareceram.
Quando percebi que o meu ofício e o meu destino pessoal seria seguir os passos deles,
percebi também que herdava uma tradição apaixonada e única de viver o presente
sem outra expetativa que a de alcançar a transparência de um momento irrepetível. Um
momento de encontro com o outro no escuro de um teatro, sem mais proteção do que a
verdade de um gesto, de uma palavra reveladora.
O meu país teatral é esses momentos de encontro com os espetadores que cada noite
chegam à nossa sala, vindos dos mais variados recantos da minha cidade, para nos
acompanhar e partilhar umas horas, uns minutos. Com esses momentos únicos construo
a minha vida, deixo de ser eu, de sofrer por mim e renasço e percebo o significado
do ofício de fazer teatro: viver instantes de pura verdade efémera, em que sabemos que o
que dizemos e fazemos, ali, sob a luz da cena, é verdade e reflete o mais profundo e o mais
pessoal de nós. O meu país teatral, o meu e o dos meus atores, é um país tecido por estes
momentos em que deixamos para trás as máscaras, a retórica, o medo de ser quem somos,
e damos as mãos no escuro.
A tradição do teatro é horizontal. Não se pode dizer que o teatro está nalgum
centro do mundo, nalguma cidade ou edifício privilegiado. O teatro, como eu o recebi,
estende-se por uma geografia invisível que mistura as vidas de quem o faz e o ofício
teatral num mesmo gesto unificador. Todos os mestres de teatro morrem com os seus
momentos de lucidez e de beleza irrepetíveis, todos desaparecem do mesmo modo sem
deixar outra transcendência que os ampare e os torne ilustres. Os mestres de teatro sabem-no, não vale nenhum reconhecimento perante esta certeza que é a raiz do nosso trabalho: criar momentos de verdade, de ambiguidade, de força, de liberdade na maior das precariedades. Deles não sobreviverão senão dados ou registos dos seus trabalhos em vídeos e fotos que apenas recolherão uma pálida ideia daquilo que fizeram. Mas sempre faltará nesses registos a resposta silenciosa do público que percebe num instante que o que ali se passa não pode ser traduzido nem encontrado fora, que a verdade que ali se partilha é uma experiência de vida, por segundos mais diáfana que a própria vida.
Quando percebi que o teatro é um país em si mesmo, um grande território onde cabe o mundo inteiro, nasceu em mim uma decisão que é também uma liberdade: não tens de afastar-te nem sair do lugar onde estás, não tens de correr nem deslocar-te. Aí onde existes está o público. Aí estão os companheiros que precisas a teu lado. Ali, fora de tua casa, tens toda a realidade diária, opaca e impenetrável. Trabalhas então a partir da imobilidade aparente para construir a maior das viagens, para repetir a Odisseia, a viagem dos argonautas: és um viajante imóvel que não para de acelerar a densidade e a rigidez do teu mundo real. A tua viagem é um instante, rumo ao momento, em direção ao encontro irrepetível perante os teus semelhantes. A tua viagem é até eles, até ao seu coração, até à sua subjetividade. Viajas por dentro deles, das suas emoções, das suas recordações que despertas e agitas. A tua viagem é vertiginosa e ninguém pode medir ou contar isso. Também ninguém o poderá reconhecer na sua justa medida, é uma viagem através do imaginário da tua gente, uma semente que germina na mais remota das terras: a consciência cívica, ética e humana dos teus espetadores. Por tudo isto, não me mexo, continuo em minha casa, junto dos meus próximos, em aparente quietude, trabalhando dia e noite, porque tenho o segredo da velocidade.
Tradução de Tiago Fernandes | Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana