artivício - Grupo de Teatro

artivício - Grupo de Teatro Grupo de teatro amador, cinco atrizes, três atores, vontade de experimentar e criar e provocar e emocionar. Apresentamo-nos assim, aqui, agora.

O artivício nasce em 2011, filho da vontade de oito jovens atrizes e atores que se conheceram no grupo de teatro académico Ultimacto, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Neste grupo, entre 2004 e 2011, levámos a cena textos de autores tão diversos quanto Daniel Filipe, Albert Camus, António Lobo Antunes, Luigi Pirandello, Jacinto Lucas Pires, Sarah Kane

e Adília Lopes. O processo de criação teatral era, na boa tradição do teatro académico, experimental até ao tutano. Refletimos sobre o amor, o devir da vida, a autoanálise, a força dos manifestos pessoais. Participámos no Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa (FATAL) por seis vezes, com peças ou performances em bares de Lisboa. Acabámos por dizer adeus à casa dos pais que foi o Ultimacto. Queremos dar lugar aos mais novos e aos projetos que queiram realizar e queremos ter a oportunidade de evoluir, aprendendo com outras pessoas, e dando vida a projetos que só podem nascer no seio de um grupo de pessoas que já se conhecem há algum tempo, gostam de trabalhar juntas e estão inquestionavelmente motivadas e comprometidas com a sua visão. Acreditamos ter adquirido as ferramentas necessárias que nos permitirão dar continuidade a este projeto e adquirir a nossa autonomia enquanto grupo de teatro.

Dia Mundial do Teatro
28/03/2024

Dia Mundial do Teatro

Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2019

Carlos Celdrán, Cuba | Diretor de teatro, dramaturgo e professor



Antes do meu despertar para o teatro, os meus mestres já lá estavam. Tinham construído as 
suas casas e as suas poéticas sobre os restos das suas próprias vidas. Muitos deles não são 
conhecidos ou sequer lembrados: trabalharam a partir do silêncio, a partir da humildade 
das suas salas de ensaio e das suas salas cheias de espetadores e, lentamente, após anos 
de trabalho e conquistas extraordinárias, foram deixando o seu sítio e desapareceram. 
Quando percebi que o meu ofício e o meu destino pessoal seria seguir os passos deles, 
percebi também que herdava uma tradição apaixonada e única de viver o presente 
sem outra expetativa que a de alcançar a transparência de um momento irrepetível. Um 
momento de encontro com o outro no escuro de um teatro, sem mais proteção do que a 
verdade de um gesto, de uma palavra reveladora.

O meu país teatral é esses momentos de encontro com os espetadores que cada noite 
chegam à nossa sala, vindos dos mais variados recantos da minha cidade, para nos 
acompanhar e partilhar umas horas, uns minutos. Com esses momentos únicos construo 
a minha vida, deixo de ser eu, de sofrer por mim e renasço e percebo o significado 
do ofício de fazer teatro: viver instantes de pura verdade efémera, em que sabemos que o 
que dizemos e fazemos, ali, sob a luz da cena, é verdade e reflete o mais profundo e o mais 
pessoal de nós. O meu país teatral, o meu e o dos meus atores, é um país tecido por estes 
momentos em que deixamos para trás as máscaras, a retórica, o medo de ser quem somos, 
e damos as mãos no escuro.

A tradição do teatro é horizontal. Não se pode dizer que o teatro está nalgum 
centro do mundo, nalguma cidade ou edifício privilegiado. O teatro, como eu o recebi, 
estende-se por uma geografia invisível que mistura as vidas de quem o faz e o ofício 
teatral num mesmo gesto unificador. Todos os mestres de teatro morrem com os seus 
momentos de lucidez e de beleza irrepetíveis, todos desaparecem do mesmo modo sem

deixar outra transcendência que os ampare e os torne ilustres. Os mestres de teatro sabem-no, não vale nenhum reconhecimento perante esta certeza que é a raiz do nosso trabalho: criar momentos de verdade, de ambiguidade, de força, de liberdade na maior das precariedades. Deles não sobreviverão senão dados ou registos dos seus trabalhos em vídeos e fotos que apenas recolherão uma pálida ideia daquilo que fizeram. Mas sempre faltará nesses registos a resposta silenciosa do público que percebe num instante que o que ali se passa não pode ser traduzido nem encontrado fora, que a verdade que ali se partilha é uma experiência de vida, por segundos mais diáfana que a própria vida.

Quando percebi que o teatro é um país em si mesmo, um grande território onde cabe o mundo inteiro, nasceu em mim uma decisão que é também uma liberdade: não tens de afastar-te nem sair do lugar onde estás, não tens de correr nem deslocar-te. Aí onde existes está o público. Aí estão os companheiros que precisas a teu lado. Ali, fora de tua casa, tens toda a realidade diária, opaca e impenetrável. Trabalhas então a partir da imobilidade aparente para construir a maior das viagens, para repetir a Odisseia, a viagem dos argonautas: és um viajante imóvel que não para de acelerar a densidade e a rigidez do teu mundo real. A tua viagem é um instante, rumo ao momento, em direção ao encontro irrepetível perante os teus semelhantes. A tua viagem é até eles, até ao seu coração, até à sua subjetividade. Viajas por dentro deles, das suas emoções, das suas recordações que despertas e agitas. A tua viagem é vertiginosa e ninguém pode medir ou contar isso. Também ninguém o poderá reconhecer na sua justa medida, é uma viagem através do imaginário da tua gente, uma semente que germina na mais remota das terras: a consciência cívica, ética e humana dos teus espetadores. Por tudo isto, não me mexo, continuo em minha casa, junto dos meus próximos, em aparente quietude, trabalhando dia e noite, porque tenho o segredo da velocidade.

Tradução de Tiago Fernandes | Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana

Endereço

Lisbon

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