28/11/2024
Atendendo a que a atual direção da OPP, nas palavras de Miguel Ricou, se coloca numa posição vitimizada face ao que chama um fenómeno de desinformação cumpre-nos dizer o seguinte:
1) Desinformação é afirmar que a atual direção da OPP valoriza e respeita as organizações que formam profissionais na área da psicoterapia:
a. Não as respeita porque faz aprovar legislação regulamentar sem as consultar, apresentando-a como um facto consumado – aliás sem consultar os próprios especialistas em psicoterapia dentro da Ordem, decidindo autocraticamente a direção a seguir;
b. Não as respeita porque ignora e desvaloriza o seu know how, adquirido ao longo de décadas, conhecimento que recua ao tempo em que não havia formação em psicologia. A maioria das organizações que ensinam psicoterapia dentro dos cânones internacionais deu formação e validou profissionalmente formandos provenientes de áreas do saber distintas da psicologia e psiquiatria. Ao considerar que só psicólogos e psiquiatras podem ter formação em psicoterapia e exercer psicoterapia profissionalmente está a invalidar o conhecimento técnico-científico e a ética destas organizações que, contudo, considerou idóneas para formar psicólogos especialistas em psicoterapia.
2) Desinformação é igualmente esconder aos psicólogos e às psicólogas portugueses o que se faz a este nível em algumas das maiores capitais da psicoterapia na Europa. A atual direção da OPP presta um péssimo serviço à sociedade portuguesa, e um péssimo serviço à verdade – o que é um problema ético da maior relevância sobre o qual Miguel Ricou se deveria debruçar - , ao esconder aos psicólogos, às psicólogas e aos responsáveis políticos, que a Áustria valida a profissão de psicoterapeuta independentemente da formação de base em Psicologia e Psiquiatria, o mesmo o fazendo a Alemanha, e o Reino Unido, entre outros. Podemos ler no site da entidade reguladora da psicoterapia no Reino Unido: “What experience do I need? Psychotherapy attracts people from all walks of life, from teachers, nurses and social workers to (…)lawyers and business leaders. Often, they’re looking for a more purposeful second career.”
Áustria, Alemanha e Reino Unido são pioneiros e bastiões da psicoterapia na Europa e no mundo, quer a nível da investigação e formação, quer a nível do maciço apoio governamental à sua implementação através dos serviços nacionais de saúde que empregam tantos psicólogos como psicoterapeutas.
3) Desinformação é igualmente esconder à sociedade portuguesa que há investigação que mostra idêntica eficácia terapêutica na comparação de práticas de psicólogos psicoterapeutas com a prática de psicoterapeutas não psicólogos. Como é óbvio para todos, um psicólogo psicoterapeuta tem mais competências técnicas que um psicoterapeuta, porque sabe fazer investigação, aplicar te**es psicológicos, elaborar relatórios aceites em tribunal, etc. Contudo, a psicoterapia, como aplicação de um modelo dentro de um processo terapêutico não requer esse tipo de competências, requer competências que são desenvolvidas durante um mínimo de quatro anos de formação teórico-prática, um processo de desenvolvimento pessoal de 4 ou mais anos, e de experiência clínica supervisionada.
4) Desinformação, e uma ofensa à honra e dignidade pessoal de centenas de portugueses e portuguesas que cumprem as suas obrigações fiscais e legais como psicoterapeutas, e que ajudaram milhares de utentes e suas famílias ao longo da sua carreira, é afirmar que os psicoterapeutas não psicólogos e não psiquiatras que fizeram formações dentro dos standarts internacionais como os acima referidos, são um perigo para a saúde pública. Durante décadas, homens e mulheres em todos os pontos da Europa e da América do Norte, com origem noutras áreas do saber, trabalharam com sucesso, qualidade e idoneidade na área da saúde mental, construindo carreiras frutuosas reconhecidas pela sociedade civil. Quem veicula esta desinformação esquece que muitos decisores políticos da nossa praça passaram pelos gabinetes destes psicoterapeutas, ou os seus familiares, amigos ou conhecidos, que conhecem a qualidade dos psicoterapeutas certif**ados e que percebem a desinformação e o espírito corporativo que lhe subjaz, espírito corporativo nada original, pois esta direção da OPP, para vergonha de muitos, repete o erro de outras organizações profissionais que sem se ater ao espírito da verdade defendem os interesses de alguns contra os interesses da sociedade como um todo. Este é também um problema ético sobre o qual Miguel Ricou se deveria debruçar.
5) Desinformação é igualmente esconder da sociedade portuguesa como um todo o facto de que muitos dos criadores de modelos de psicoterapia, e de muitos daqueles que posteriormente os implementaram e expandiram, vinham de outras áreas de formação que não a psicologia ou a medicina. O estudo da história da psicoterapia demonstra-o à exaustão.
6) Desinformação, e de palmatória, é o ainda bastonário da OPP, vir afirmar no semanário Expresso que a formação em psicoterapia não prepara os seus formandos porque não ensina psicopatologia. É fonte de vergonha alheia e de indignação observar tão crassa ignorância, quando as organizações que ensinam psicoterapia dentro dos cânones internacionais acima referidos ensinam psicopatologia no contexto do seu modelo de intervenção e, muitas delas, ensinam psicopatologia geral, via DSM ou ICD10.
7) Desinformação é ainda esconder da sociedade portuguesa que o problema de saúde pública a nível da psicoterapia não reside nas organizações que a veiculam dentro dos cânones internacionais e dentro de modelos internacionalmente reconhecidos, mas sim naqueles e naquelas que se auto-intitulam de psicoterapeutas ou que são certif**ados como tal após formação deficiente de alguns meses ou de um ou dois anos, sem supervisão signif**ativa e sem processo pessoal. Desinformação, neste nível, é querer fazer querer que todos os que exercem psicoterapia e não têm formação de base em psicologia ou psiquiatria, estão ao mesmo nível, como se se tratasse de um grupo homogéneo. E este é outro problema ético sobre o qual Miguel Ricou também deveria refletir, pois é altamente duvidosa a benevolência de quem veicula tal desinformação já que é conhecedor da área, conhece a realidade da prática da psicoterapia, conhece a diferença substancial entre aqueles que têm formação adequada e aqueles que não a têm, conhece a diferença na qualidade do serviço prestado, conhece o bom nome que tantos psicoterapeutas não psicólogos e não psiquiatras têm, mas optou-se por o esconder, por o negar, por o difamar como perigo para a saúde pública. É uma vergonha que afeta toda uma classe cuja base deveria ser a ética pois sem ela a relação de ajuda, que define a essência da profissão de psicólogo, f**a manchada.
A Direção da Federação Portuguesa de Psicoerapia (FEPPSI).