01/10/2026
É com profunda tristeza que a Academia Portuguesa de Cinema manifesta o seu pesar pelo falecimento de Helena Afonso, actriz, cantora lírica e professora de Técnica Vocal, cuja longa e singular carreira atravessou a música, o teatro, o cinema e a televisão, deixando uma presença marcada pela força da sua voz e pela rara capacidade de transitar entre diferentes linguagens artísticas.
Formada em Canto pelo Conservatório Nacional de Lisboa, Helena Afonso construiu desde cedo uma relação profunda com a música. Foi uma das vozes dos Segréis de Lisboa, grupo fundamental na divulgação da música antiga em Portugal, integrando em 1979, como soprano e percussionista, o álbum A Música no Tempo de Camões, editado pela Valentim de Carvalho/EMI.
A sua relação com o cinema iniciou-se em 1981, com Conversa Acabada, de João Botelho, e Silvestre, de João César Monteiro. Neste último, interpretou a Jogralesa, participando igualmente no trabalho musical dos Segréis de Lisboa. A sua voz e presença integram uma das sequências iniciais do filme, num encontro particularmente expressivo entre a sua formação musical e o seu trabalho enquanto actriz.
Ao longo das décadas seguintes, Helena Afonso manteve uma presença regular no audiovisual português, participando em numerosas produções de televisão e cinema. Entre os seus trabalhos destaca-se ainda Comboio Noturno para Lisboa, de Bille August, filme de 2013 em que integrou um elenco internacional ao lado de Jeremy Irons, Mélanie Laurent e Christopher Lee.
Na televisão, desenvolveu um percurso de extraordinária longevidade, iniciado em 1980 com Eu Show Nico e prolongado por mais de quatro décadas. Participou em produções como Cacau da Ribeira, Grande Noite, Cabaret, Uma Aventura, Morangos com Açúcar, Ana e os Sete, Até Amanhã, Camaradas, Tempo de Viver, Conta-me Como Foi, Casos da Vida, Liberdade 21, Perfeito Coração, Voo Directo, Laços de Sangue, Destinos Cruzados, Santa Bárbara, Valor da Vida e Nazaré, entre muitas outras.
Foi também no teatro musical que a sua formação vocal encontrou uma das suas expressões mais marcantes. Em 1993, integrou Maldita Co***na, de Filipe La Féria, no papel de Arlete, espectáculo que assinalou a reabertura do Teatro Politeama após as obras de remodelação. No ano seguinte, participou na adaptação televisiva do espectáculo, levando para o audiovisual uma parte importante dessa experiência de palco.
O seu percurso teatral incluiu ainda títulos como Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro de Fleet Street, Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, O Triunfo do Inverno, Cabaret das Virgens... ou talvez não!, Guerras do Alecrim e Manjerona, Música no Coração, Pedro e Inês e Dialogues des Carmélites.
Em Música no Coração, no Teatro Politeama, partilhou o palco com Helena Vieira e Lia Altavila, reunindo três referências do canto lírico português no papel das madres do convento. Era uma expressão particularmente feliz da ligação entre a sua formação musical e a sua actividade enquanto actriz.
Paralelamente ao trabalho artístico, Helena Afonso dedicou-se ao ensino, tendo sido professora de Técnica Vocal na Escola Superior de Música de Lisboa. Ao longo dos anos, transmitiu a sua experiência e conhecimento a sucessivas gerações de intérpretes, prolongando através do ensino uma experiência artística construída ao longo de décadas.
A carreira de Helena Afonso caracteriza-se, assim, por uma rara capacidade de atravessar diferentes territórios da criação. Entre a música, o teatro, o cinema e a televisão, construiu um percurso singular, tendo na voz uma das suas ferramentas essenciais e mais distintivas.
A Academia Portuguesa de Cinema presta homenagem a Helena Afonso, recordando a actriz e intérprete que deu corpo e voz a tantas personagens e produções e reconhecendo o seu contributo para a cultura e para o cinema português.
Helena Afonso deixa-nos a 1 de Outubro de 2026, na Casa do Artista, em Lisboa.
Aos seus familiares, amigos, colegas, alunos e a todos aqueles que com ela partilharam tantos anos de trabalho e de vida artística, a Academia Portuguesa de Cinema apresenta as suas mais sentidas condolências.