04/03/2026
Ontem atravessei esta passadeira que me leva a uma casa (que já foi a minha) e que guarda, em todas as suas paredes, infinitas partículas das minhas emoções — das mais alegres e luminosas às mais sombrias, feitas de desafios éticos e humanos que dariam para escrever um tratado.
E sim, atravessei esta passadeira para estar presente na inauguração de um espaço que será um verdadeiro oásis para tantos pais e crianças cujas doenças os obrigam a deslocações de muitos quilómetros, ou mesmo de um continente - a 5.ª casa da Fundação Ronald McDonald.
E sim, teria sido muito útil que este oásis existisse em 2008, quando o pai do Dominguês dormiu e viveu durante quatro meses (num cadeirão) para poder estar presente para o seu filho.
Este oásis permitirá que pequenos cuidados essenciais à recuperação do cuidador sejam possíveis: máquinas de lavar roupa (sim, onde o fariam quando Lisboa é um lugar sem amigos ou familiares por perto?), uma sala de cabeleireiro (sim, em internamentos de longa duração há necessidades que parecem básicas, mas que recarregam as energias das mães), uma sala para massagens (aliviar pesos pesados), salas com comida disponível para um sabor diferente do da cantina da Estefânia, uma sala de convívio e outra privada para “conversas difíceis”, salas de magia — e com magia — para as crianças brincarem… e dois quartos para um sono que não seja num cadeirão.
Parabéns à Fundação Ronald McDonald por esta grande dádiva — uma casa — para tantos que podem estar longe de tudo o que lhes é familiar. Pode ser muito, mas nunca deixa de ser uma casa.
A bênção do Sr. Capelão e todas as intervenções feitas nesta inauguração vieram verdadeiramente de um lugar de luz, num momento em que se proporciona uma notícia e uma intervenção positiva no contexto atual.
Parabéns a todos os que tornaram possível a criação deste “oásis”.
Um agradecimento especial à Ana Patacho e à Isabel Aragão por terem tido a amabilidade de me mostrar todos os cantinhos da casa.
Saí e atravessei novamente esta passadeira. Agora não como Pediatra Infecciologista, mas no papel de presidir a Pediatria Social da Sociedade Portuguesa de Pediatria, feliz por este avanço.
Talvez, em breve, todo o hospital possa ter, ao lado de cada cama de criança, um sofá-cama ou algo que permita aos pais recarregar as baterias durante o sono… que não seja naqueles “cadeirões” (muito muito inimigo do sono e da possibilidade de recarregar energias de todos os Pais que têm que estar disponíveis para dar o melhor aos seus filhos)!
E aos voluntários da Fundação Ronald McDonald… mantenham essa vossa entrega.