03/10/2025
Instituto de Cinema convida cinema Ideal a encerrar
Ao negar – ou diminuir drasticamente - um apoio quase simbólico que lhe foi solicitado, o ICA diz tudo sobre o que (não) faz e para o que (não) serve: nada.
O Cinema Ideal (re)abriu em Lisboa em 2014, depois de uma obra de grande fôlego, que implicou um investimento de meio milhão de euros, mais cento e vinte mil em equipamento cinematográfico.
Esse investimento para a reabertura deste cinema foi feito sem quaisquer apoios públicos.
Pouco depois dessa reabertura o Ideal recebeu o Prémio AICA Arquitectura para o seu arquitecto José Neves, e uma Menção Honrosa do Prémio Vasco Vilalva de recuperação do património, da Fundação Gulbenkian.
E em 2016 o Prémio Empreendedor do Ano da associação Europa Cinemas.
O trabalho que fizemos ao longo destes onze anos é por demais conhecido, e não nos cabe a nós avaliá-lo.
Mas o Ministério da Cultura já o fez, na comemoração dos nossos primeiros dez anos, com a atribuição da Medalha de Mérito Cultural, a única até agora entregue a uma entidade da área do cinema.
Acontece que neste momento o nosso equipamento de projecção está em fim de vida útil (na verdade ao fim de dez, há um ano) e precisa de ser substituído.
Por isso, e na sequência de apoios excepcionais semelhantes anteriormente concedidos a outros cinemas (Nimas e Trindade), o Ideal apresentou uma candidatura ao Programa AdHoc do ICA.
Uma candidatura que foi avaliada, não por um Júri independente, mas pelos serviços e a Direcção do Instituto.
E cuja decisão foi um corte muitíssimo signif**ativo e um montante muito inferior ao concedido anteriormente.
E que tinha sido concedido, não para equipamento cinematográfico, mas para trabalhos de reparações e construção civil…
Isto é, o Instituto, é mais generoso com tijolo e cimento, do que com projectores de cinema.
Sendo que, quando da obra de fundo de reconstrução do Ideal foi feita (em 2014), repetimo-lo, o apoio foi zero.
O que f**a, portanto, é uma mensagem muito clara por parte do ICA: que o cinema Ideal feche as suas portas.
Parece não ser já suficiente que a sua politica de apoio aos cinemas independentes esteja totalmente obsoleta e disfuncional e baseada em princípios e critérios sem sentido e com mais de década e meia, o ICA infringe agora também e de forma clara os princípios da igualdade e transparência na atribuição dos seus apoios.
(apenas a título de exemplo, este ano o cinema Alvalade, em Lisboa, propriedade de uma cadeia multinacional, irá receber praticamente o dobro do apoio à programação e funcionamento do Ideal…).
Na mesma semana em que acabámos de receber no nosso cinema o director do Festival de Cannes, na pré-abertura da Festa do Cinema Francês.
Em que estamos a organizar sessões especiais com o filme Banzo, escolha de Portugal para os Oscars e que acabou de receber o Globo de Ouro de Melhor Filme.
Em que estreamos Lavagante de Mário Barroso.
A que, na próxima semana, se segue a estreia de Sombras de Jorge Cramez e sessões especiais de Paraíso de Daniel Mota.
Em que de seguida faremos a reposição da nova versão digital de Três Irmãos de Teresa Villaverde com Maria de Medeiros, prémio melhor actriz em Veneza.
Numa altura em que receberemos o festival Temps d’Images, com três novas curtas portuguesas e vinte e oito sessões do festival DocLisboa.
Que por sua vez precede a estreia de O Riso e a Faca de Pedro Pinho - e para falar apenas de cinema português…
… o ICA, instituto de cinema português, convida o cinema Ideal a fechar as suas portas.
Estamos conscientes que é nossa responsabilidade adquirir um novo projector, quando o que temos está em fim de vida e se pode ‘apagar’ de um dia para o outro.
Mas sabemos também que o trabalho que ao longo destes onze anos fizemos - e que mais ninguém fez - e que as condições em que apresentámos mais de um milhar de filmes e entre eles muitas centenas de filmes portugueses, deveria merecer uma mínima consideração por parte do Instituto de Cinema.
Não merece.
A única coisa que neste momento o Instituto de Cinema tem para dizer ao Cinema Ideal é: feche-se !