13/06/2024
13 de Junho de 2024
O que é o tempo?- perguntam as minhas netas. Pode medir-se, pode contar-se, podemos ir ter com ele, podemos apagar o tempo, podemos levar o tempo para a praia, avó? Tantas perguntas por responder... O tempo que vos responda - digo-lhes a rir. Elas f**am a olhar para mim sem compreender. Diz lá, avó, o que é o tempo?
O que é o tempo?- pergunto eu. Só as memórias individuais e colectivas podem dar alguma medida ao tempo. As memórias…
Já passaram 7 anos. E tu foste para a constelação da Utopia que o Tita te apontou 80 anos antes, numa conversa, num desses serões quentes e mágicos que só muito antigamente aconteciam no campo. “Estou a ver-vos”, sentados num degrau de pedra, na escada da varanda da quinta do avô, a olhar fascinados o céu pejado de estrelas. A luz eléctrica era escassa e não afectava o esplendor desses céus antigos. O tempo tudo mudou. Já não há estrelas no céu, diria não o Rui mas o Tita a brincar....E também passaram 50 anos de um 25 de Abril que não pudeste viver, porque a ditadura cruel a que foste sujeito te impediu de viver. Tiraram-te a liberdade e também essa alegria infinda que apesar de tudo, mesmo prisioneiro torturado, prestes a ser atirado ao mar na Baia de Guanabara, ainda pudeste sentir sem a poder exprimir. Ficou toda na tua cabeça e no teu coração. Mas acalentou a tua esperança: ”quem sabe pedem a minha extradição e volto a ser livre?”. Quanto, desejo, quanta esperança vã. Não fizeram nada. Nem uma carta/ grito enviada clandestinamente para Portugal, encontrou nos revolucionários qualquer eco. A humanidade não despertou neles. Apenas o Zeca ouviu esse grito e compôs uma canção “Alípio de Freitas” que foi espalhando por todo o lado , até no estrangeiro, o que poderá ter contribuído para que não te atirassem ao mar da bela Baia de Guanabara.
É sempre importante trazer a memória até nós, para que a História não se apague, porque o 25 de Abril e as suas conquistas não podem nunca perder-se porque tu, Alípio, também lutaste e sofreste pela mesma causa, noutras geografias, mas sempre a mesma Utopia e porque tu também és História, também és o 25 de Abril.