02/06/2026
Na zamyslenie
Havia algo curioso em Baden-Powell.
Um militar inglês, protestante anglicano, homem do Império Britânico, acostumado a mapas, estratégias e acampamentos… mas que encontrou inspiração em um jovem italiano do século XIII que abandonou riquezas para conversar com pássaros, cuidar de leprosos e caminhar descalço pelas estradas da Itália.
Talvez alguém esperasse que Baden-Powell escolhesse como símbolo dos escoteiros um grande general, um explorador famoso ou algum herói de guerra. Mas não. Entre homens de espada e medalhas, seus olhos pararam em .
E isso diz muito sobre o Escotismo.
Porque compreendia algo que às vezes os adultos esquecem: caráter vale mais do que títulos. Bondade vale mais do que poder. E servir é muito maior do que mandar.
São Francisco não fundou exércitos. Não conquistou territórios. Não escreveu tratados militares. O que ele fez foi mais difícil: escolheu viver com simplicidade em um mundo apaixonado pela riqueza. Escolheu a paz em tempos violentos. Escolheu amar pessoas esquecidas por todos.
E havia ainda outro detalhe improvável naquela escolha.
Baden-Powell era protestante. São Francisco, um santo católico.
Num mundo onde tantas pessoas levantavam muros entre religiões, Baden-Powell parecia olhar para além das placas das igrejas. Ele não via primeiro o “católico”. Via o homem. Via o exemplo. Via alguém capaz de ensinar aos jovens valores universais: humildade, fraternidade, respeito à natureza e serviço ao próximo.
Talvez por isso São Francisco tenha feito tanto sentido para o Escotismo.
Porque um escoteiro aprende cedo que a floresta não pergunta qual é sua religião antes de oferecer sombra. O rio não escolhe quem pode beber sua água. O fogo de conselho ilumina todos ao redor da mesma forma.
Na visão de Baden-Powell, Deus também podia ser encontrado ali: no vento da madrugada do acampamento, no silêncio das montanhas, na boa ação feita sem aplausos e no companheiro ajudando outro a carregar a mochila.
São Francisco entendia isso séculos antes dos lenços escoteiros existirem.
Ele chamava o sol de irmão. A lua de irmã. Conversava com a criação como quem conversa com a própria família. E talvez seja exatamente por isso que tantos escoteiros sentem algo diferente quando caminham por uma trilha, observam uma fogueira acesa ou dormem sob um céu cheio de estrelas.
Não é apenas aventura.
É pertencimento.
No fundo, Baden-Powell sabia que o Escotismo nunca sobreviveria apenas de nós, barracas e técnicas mateiras. O movimento precisaria de alma. Precisaria ensinar os jovens a serem úteis, gentis, corajosos e humanos.
E encontrou em São Francisco de Assis um retrato vivo desse ideal.
Por isso a escolha nunca foi sobre religião.
Foi sobre exemplo.