18/08/2026
https://www.facebook.com/share/p/19LFWEGL5h/
𝗘𝘀𝘁𝘂𝗱𝗼 𝗱𝗼 𝗙𝗠𝗜 𝗾𝘂𝗲𝘀𝘁𝗶𝗼𝗻𝗮 𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗲𝗻𝗲𝗿𝗴𝗲́𝘁𝗶𝗰𝗮: 𝗮𝘀 𝗻𝗼𝘃𝗮𝘀 𝗲𝗻𝗲𝗿𝗴𝗶𝗮𝘀 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗿𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗿 𝗮 𝘀𝗼𝗺𝗮𝗿-𝘀𝗲, 𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗮 𝘀𝘂𝗯𝘀𝘁𝗶𝘁𝘂𝗶𝗿, 𝗮̀𝘀 𝗮𝗻𝘁𝗶𝗴𝗮𝘀
Um novo estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) está a lançar um olhar crítico sobre a chamada transição energética e sobre a ideia de que as novas fontes de energia estão simplesmente a substituir as anteriores.
O trabalho, intitulado “The Generalized Jevons Paradox and the Future of Energy”, foi publicado a 24 de julho de 2026 e é assinado pelos investigadores William Oman, Etienne Espagne e pelo historiador francês Jean-Baptiste Fressoz.
A análise sustenta que, à escala mundial, a evolução histórica do sistema energético tem sido marcada mais pela adição do que pela substituição. Ou seja, o aparecimento de novas fontes de energia não levou necessariamente ao desaparecimento das anteriores. Pelo contrário, diferentes formas de energia continuam profundamente interligadas e, historicamente, foram sendo acumuladas.
Um dos pontos centrais do estudo é a chamada Paradoxo de Jevons generalizado. Os investigadores identificam uma forte correlação histórica entre o aumento da eficiência na utilização dos recursos e o crescimento do consumo total desses mesmos recursos. Na prática, ganhos de eficiência podem contribuir para aumentar a procura e permitir uma expansão da atividade económica.
O resultado é particularmente relevante quando aplicado aos combustíveis fósseis. Segundo os autores, é possível que a sua participação percentual no consumo energético mundial diminua, enquanto o consumo absoluto de combustíveis fósseis continua a aumentar. O estudo afirma que este fenómeno tem sido observado desde 2012.
A conclusão não significa, contudo, que os investigadores considerem impossível uma transição energética. O próprio documento alerta que os cenários futuros podem divergir da evolução histórica. O argumento central é antes o de que os dados históricos exigem cautela na forma como são projetadas as futuras transformações do sistema energético.
A publicação do trabalho pelo FMI ganha ainda maior relevância devido à presença de Jean-Baptiste Fressoz entre os autores. O historiador já havia desenvolvido argumentos semelhantes no seu livro Sans transition, defendendo que a história energética é marcada sobretudo pela acumulação das diferentes fontes de energia.
Os dados apresentados pelo Fórum Económico Mundial no Energy Transition Index 2026 também apontam para uma realidade semelhante. O organismo afirma que o sistema energético mundial se encontra atualmente numa dinâmica de “adição em vez de substituição”, com a procura de combustíveis fósseis próxima de níveis recorde apesar da expansão das fontes de energia limpa. O relatório refere ainda que, em 2025, as fontes renováveis e a energia nuclear representaram 42% da produção mundial de eletricidade, enquanto as emissões de CO₂ relacionadas com a energia permaneceram em níveis recorde.
Esta realidade coloca em causa uma das premissas frequentemente associadas à transição energética: a ideia de que o crescimento das energias renováveis conduzirá automaticamente a uma redução equivalente do consumo absoluto de carvão, petróleo e gás.
A questão torna-se particularmente importante num contexto de crescimento contínuo da procura mundial de energia. Mesmo com enormes investimentos em tecnologias de baixo carbono, o aumento da procura pode fazer com que novas fontes de energia sejam utilizadas em complemento das existentes, em vez de as substituir completamente.
O texto publicado pelo France-Soir, que chamou a atenção para o estudo, interpreta estas conclusões como um forte questionamento de décadas de políticas energéticas baseadas na expectativa de substituição progressiva dos combustíveis fósseis. O jornal considera que o trabalho poderá obrigar a repensar algumas das premissas utilizadas nas políticas públicas de descarbonização.
É importante, contudo, distinguir a interpretação jornalística das conclusões efetivamente apresentadas no estudo: trata-se de um working paper, e não de uma posição oficial do FMI sobre a política energética mundial. O próprio documento apresenta os seus resultados como uma análise das tendências históricas e como um alerta para as limitações de determinados pressupostos, não como uma declaração de que a transição energética seja impossível.
Ainda assim, o estudo coloca uma questão difícil de ignorar: se a nova energia se soma à antiga em vez de a substituir, será suficiente aumentar a produção de energias renováveis para reduzir o consumo global de combustíveis fósseis?
É precisamente neste ponto que o chamado Paradoxo de Jevons ganha nova importância no debate energético. A eficiência tecnológica pode reduzir o consumo de recursos por unidade de produção, mas, se essa eficiência estimular simultaneamente mais produção, mais consumo e mais atividade económica, o consumo total poderá continuar a aumentar.
O estudo do FMI não encerra o debate sobre a transição energética. Pelo contrário, coloca-o num patamar diferente: para além de discutir apenas qual a fonte de energia utilizada, será necessário analisar também quanto de energia é consumido, como é utilizada e que efeitos indiretos provoca o aumento da eficiência.
Fonte: France-Soir | Estudo: Fundo Monetário Internacional (FMI)