19/04/2026
VIAGENS PELA TOPONÍMIA, 11.ª jornada
Da Rua Madame Brouillard a Vila Nova, pela estrada medieval
19 de abril de 2026
Às 10 horas da manhã, os participantes reuniram-se junto ao edifício da Biblioteca Municipal de Vila Real, para mais um passeio pela História de Vila Real.
Começou por se estabelecer um breve contexto da evolução da área envolvente, desde a Idade Média até à atualidade. Uma área onde, ao longo dos tempos, se foram fixando topónimos como Vilalva, Tourinhas ou Três Lagares. A Rua Madame Brouillard (assim chamada mais recentemente para evocar o nome da benemérita que a partir de 1909 construiu neste sítio as casas hoje pertencentes à Misericórdia de Vila Real) corresponde a um troço da estrada medieval que se dirigia para Vila Nova e, a partir daí, para o Douro, com variantes através de Sabroso e de Nogueira. No princípio do século XX, com a abertura da via-férrea, surgiram as grandes alterações urbanísticas em torno da Estação e, ao mesmo tempo, a primeira zona industrial vila-realense. Tirando também partido do fornecimento de energia elétrica, de que Vila Real dispunha desde 1894, por aqui se foram instalando empreendimentos como a Fábrica de Cerâmica (em 1910), a Adega Regional (onde a partir de 1942 viria a nascer o célebre vinho Mateus Rosé), o Matadouro Municipal (a partir de 1945) e, já na década de 1960, duas indústrias panificadoras e uma fábrica de produtos óticos (a Pólo, que ainda hoje funciona).
Avançando-se pela Rua Madame Brouillard, falou-se da travessia do Ribeiro de Tourinhas, feita sobretudo a vau, na Idade Média, e com recurso a pontes rudimentares em madeira até à construção de uma primeira ponte em cantaria, obra adjudicada em 1772 ao mestre pedreiro Matias Lourenço de Matos, o mesmo que, por exemplo, construiu a Capela da Senhora da Pena ou a monumental Fonte da Carreira, na Avenida Almeida Lucena. Aquela estrutura setecentista viria a ser substituída pelos chamados Pontões de Tourinhas, construídos a partir de 1942, juntamente com o troço da estrada nacional hoje designada 313. Foi a abertura deste troço, dividindo em duas partes a Quinta de Vilalva, que em grande medida veio tornar obsoleta a estrada de origem medieval que fazia a ligação a Vila Nova. A Quinta de Vilalva, ainda hoje em pleno funcionamento agrícola, foi adquirida em 1920 por Jerónimo Caetano Ribeiro, escritor, jornalista e um dos fundadores da Sociedade Vegetariana de Portugal. Sendo abstémio, como a generalidade dos indivíduos que integravam o primeiro movimento organizado do vegetarianismo em Portugal, Jerónimo Caetano Ribeiro produziu também na propriedade vinho sem álcool, bebida que divulgou num dos livros por si publicados. Esta Quinta de Vilalva (que se manteve na posse da mesma família até ao século XXI e a que em décadas mais recentes se chamava popularmente Quinta do Charlot) não deve ser confundida com uma outra Quinta de Vilalva, situada mais a nascente, já perto de Torneiros, e ligada secularmente à família Lucena.
Continuando a percorrer a velha estrada, o grupo foi subindo pela antigamente chamada Costa do Pombo, no cimo da qual se inaugurou em 1909 o Monumento a Nossa Senhora de Lourdes, em terreno que Monsenhor Jerónimo Amaral doou para o efeito e com base numa estátua paga e mandada executar por um padre de nome José Luís Zamith, um capelão militar que então vivia em Vila Real. A partir de 1922, inicia-se a construção de um templo naquele santuário. Embora aberto ao culto em 1924, nunca viria a ser concluído, ficando-se pela parte correspondente à capela-mor do projeto inicial.
Deixando à mão direita a variante da estrada que segue para Folhadela, o grupo prosseguiu na direção de Vila Nova por um troço em terra batida que ainda hoje conserva em grande medida a sua morfologia medieval, o tal troço que se tornou obsoleto há apenas oito décadas, quando a Estrada Nacional 313 foi aberta. É em simultâneo um caminho capaz de fazer sentir a quem o trilha como era viajar na Idade Média, quando as deslocações se faziam quase exclusivamente a pé ou a cavalo.