05/09/2026
Com um enorme agradecimento a Sampaio, autor do texto
Foi há 27 anos. Um dos períodos mais intensos das vidas de muitos de nós. As fotos são da Sandra Vieira, no interior do então Mahkota, na noite de 04 de setembro, do Manuel Moura onde se vê Ian Martin a anunciar o resultado da votação e depois a saída dos jornalistas. E depois são minhas, da destruição do Hotel que começou horas depois de o abandonarmos. Aquela parte mais escura, no primeiro andar, à esquerda, era a redação da Lusa. Eu e a Sandra perdemos lá o que não conseguimos meter à pressa na mochila. O texto é meu.
Este texto foi uma catarse pessoal. Foi o desabafo, que peca porque não consegue traduzir tudo o que se viveu nas horas entre as 09:00 da manhã de 4 de setembro de 1999 e as 21:00 de 5 de setembro de 1999 entre o Hotel Mahkota, alguns bairros de Díli, o desespero das informações que chegavam do resto do país e o Aeroporto Nicolau Lobato. Aquela parte mais negra, do primeiro andar, do lado esquerdo, era o quarto 209. O nosso quarto, a delegação da Lusa. Está mais negro porque havia mais para queimar naquele quarto. Sobrou um agrafador queimado que ainda tenho. O texto foi escrito no dia 5 de setembro. Escrito como um grito.
Aeroporto de Díli, 05 de Setembro 1999
As horas mais longas
Saiu-se do Mahkota. De uma forma demasiado rápida, algo imprevista, caótica.
Oitenta pessoas obrigadas depois a permanecer durante mais de dez horas no aeroporto de Díli, acompanhando o agravar da situação na cidade, pelos olhos de testemunhas que traziam relatos sucessivos do que se confirmava ser um caos programado.
Com as redes telefónicas totalmente congestionadas e ordens expressas para não abandonar o interior do edifício, jornalistas portugueses aguardavam a chegada prometida de um avião fretado em Jacarta para os conduzir à capital indonésia. Um avião que tinha demorado horas a conseguir, em contactos intensos com os dois diplomatas portugueses em Jacarta, Ana Gomes e Afonso Malheiro. (Um avião que não estava preparado de antemão porque, ao contrário da recomendação destes diplomatas, em Lisboa achou-se que não se podia dar qualquer sinal aos indonésios de que não se confiava na sua capacidade para garantir a segurança em Timor-Leste durante o referendo.)
Ao lado dos jornalistas portugueses - e da única não jornalista que os acompanhava, Sandra Vieira -, colegas estrangeiros, diplomatas e observadores esperavam a saída, debatendo individual e globalmente se a decisão de partir tinha ou não sido a mais acertada. Uma decisão que só pode tomar quem a vive, naquele momento e não quem, do conforto do seu sofá, debita opiniões sobre o que faria se estivesse nesse papel.
A espera deveria ter sido mais curta. O avião só era esperado às 19:00, o que naturalmente significaria que a presença no aeroporto só seria necessária poucas horas antes.
Porém, logo pela manhã, quando os passageiros desse último voo diziam adeus aos primeiros a partir do Hotel Mahkota - na sua maioria jornalistas estrangeiros - o comandante da polícia indonésia deixava antever um cenário pessimista para quem permanecesse.
As colunas do início da manhã seriam as únicas em que o coronel Sitompul garantiria escolta policial. Não poderia garantir a segurança dos que optassem por esperar até mais tarde. Disse-mo em tom sarcástico, enquanto brincava com o anel que lhe acentuava o ar sinistro. Coitado, tinha que nos levar já porque depois ele e os seus homens tinham que ir zelar pela segurança de Díli.
Com as malas prontas desde a noite anterior, e com fúria contida perante uma passividade e uma intenção clara de "nada fazer", por parte das autoridades indonésias, a decisão de partir quase que se fez por si própria.
Vendados pelas ordens expressas da polícia, que claramente afirmava não ser capaz – ou não pretender – cumprir as responsabilidades que lhes cabem na manutenção da segurança em Timor-Leste, os jornalistas são forçados a uma nova e difícil escolha.
Debatendo-se entre moral e segurança, riscos com vantagens, promessas feitas depois de chegar e a ânsia das famílias que ficaram em casa, tenta-se manter a calma, guardando as lágrimas para o período de descompressão que, a seu tempo, cada um fará.
Admitir o medo ocorrerá nessa altura ou posteriormente. Ou nunca, se ainda existissem heróis.
Quatro optam por ficar, seguindo para o outro único local "duvidosamente" seguro, a sede da UNAMET. Há alguns estrangeiros que tomam a mesma decisão, permanecendo no hotel, onde ainda estavam alojados.
Outros, menos heróis, menos dedicados, menos capazes – escolha-se o comentário que se preferir, feito por quem, à distância, não teve que escolher – partem.
Tão rapidamente quanto o permitia carregar dezenas de caixas de equipamento, a maioria decide partir, subindo a dois camiões da polícia, com militares montados na caixa, num adeus sem sons ou gestos, ao Mahkota, a Díli, e a Timor-Leste.
No aeroporto em si, ainda mais longe de onde vinham os relatos do terror e da violência, a ânsia saltava em ondas emotivas, por entre fúria, impotência, cansaço e ansiedade.
Quando os telefones funcionavam, as notícias eram aterradoras. Indícios de um largo número de vítimas, de uma onda de violência em proporções indescritíveis e de repetidas acusações e críticas, contra a incapacidade, ou falta de vontade, das forças de segurança.
Deitados no chão, espalhados sobre malas, telefones nas mãos, procuravam agarrar ou espantar o sono, numa tentativa frustrada de fazer as horas passar mais depressa.
Um timorense, olhos carregados de lágrimas, chegava com mais um relato. O Hotel Mahkota, de onde tínhamos saído há apenas algumas horas, estava em chamas, as milícias tinham atacado.
Havia notícias de vítimas, mas eram informações passadas, de boca em boca, impossíveis de confirmar. A única confirmação parecia ser a de que Sitompul não nos tinha dado um conselho, mas sim feito uma ameaça velada.
No hotel, tinham ficado alguns funcionários, optando por não seguir o exemplo de outros que desapareceram, minutos depois do anúncio da vitória esmagadora da independência, às 09:00 da manhã de sábado. Com eles, alguns estrangeiros.
O chefe dos comissários eleitorais da ONU foi tirado do hotel pela polícia, à força, e levado para o aeroporto, quando ainda tinha trabalho a fazer em Díli e não tinha sequer ordens para seguir.
Num dos quartos, o 209, tinham ficado quase todos os bens pessoais do casal que o ocupou durante meses. Como delegação da Agência Lusa, tornou-se, nos últimos dias, quase um centro de apoio à imprensa onde rivalidades e concorrências desapareceram, onde se partilhou tudo - e acima de tudo informação - e onde as únicas "cachas" eram as de comida e água.
No aeroporto, os movimentos ocorriam, paralelamente, nos acessos às salas VIP, onde se aguardava a chegada de uma comitiva ministerial indonésia, e na porta de embarque, onde centenas de malas se misturavam, antes de serem distribuídas pelos quatro voos fretados.
Uma espera, que cedo se confirmou seria longa, por entre a presença notada de milícias, e que se evidenciou, quando cerca de uma dezena de membros da Aitarak, incluindo o número dois de Eurico Guterres, convergiu ao local.
Sabendo da inactividade das autoridades, que foi possível presenciar no Mahkota e confirmar com os relatos que continuavam a chegar, a vinda dos membros da Aitarak, alguns armados, causou ainda mais ansiedade entre os passageiros.
A presença visível de polícias era mínima e ainda que não o fosse, o que ficou claro é que no caso da polícia indonésia, "tamanho não é documento".
Para a senhora escondida junto da porta de embarque, sentada numa pequena mala que transportava consigo, enquanto segurava pela mão uma criança endiabrada, o medo confundia a razão. "Quero ir com o senhor António. Mas tenho medo de Jacarta", dizia a D. Lurdes, rosto alarmado. Falava com voz assustada, desconhecendo outras opções.
"Mas a UNAMET ainda cá está? Então se está cá, quero ir para a UNAMET", dizia ainda nervosa. Depois, aceita a vinda ao aeroporto de um carro das Nações Unidas, para a transportar para a sede.
Resolveu-se quase com "uma troca". Um funcionário brasileiro da UNAMET deixa connosco a sua mulher e filho de 11 meses, que pelas regras da ONU não podem viajar em veículos das Nações Unidas, e leva consigo Dona Lurdes e a sua filha. "E quando o senhor volta? Eu tenho medo senhor. Eles andam a disparar muito". Com esforço, aceita sentar-se no banco de trás do carro branco da ONU, iniciando uma viagem para um futuro incerto. F**a apenas com a minha promessa de um regresso rápido.
Dentro e fora, continuavam a chegar relatos. Um contacto telefónico com um padre confirmava o ataque à Câmara Eclesiástica de Díli, ao lado do Mahkota, outro dos principais alvos das milícias.
O número de vítimas continuava por confirmar, mas qualquer telefonema para Díli era pautado pelo som de disparos e de rajadas de tiros.
Novos passageiros chegavam, com relatos cada vez mais pessimistas. Díli estava a arder. As autoridades, cúmplices pelo silêncio e inactividade, confirmavam pelos rádios comunicadores o ataque ao Hotel Mahkota e à Câmara Eclesiástica.
Dois observadores do Carter Centre, chegavam ofegantes e banhados em lágrimas, recordando os apedrejamentos que receberam de milícias escondidos atrás de carros da polícia, na estrada de acesso ao aeroporto.
"Os nossos funcionários locais estão a ser perseguidos. Estão a ser levados para o porto. Já perdemos três carros, hoje, para as milícias. Deixamos tudo e eu nem sequer tenho o meu passaporte", conta, entre soluços, um dos observadores. "Pedimos ajuda à polícia e, como ainda só eram três da tarde, disseram que só poderíamos ter garantias de segurança depois das cinco".
O primeiro secretário da embaixada americana admitia ser "duvidosa" a existência em Díli de um local seguro, incluindo a sede da UNAMET, já com milhares de pessoas no seu interior, e com escassez de bens alimentares.
Jornalistas espanhóis afirmavam que a cidade estava totalmente controlada pelas milícias que, impunemente, marchavam dominando tudo e todos, sem que polícia ou militares interviessem.
E o avião que tarda!
Dez minutos antes de partir, longe dos olhos dos jornalistas, duas mil pessoas eram travadas por dezenas de militares, impedidas de seguir para o aeroporto e para o voo "de Portugal", para a salvação imediata.
Na base da força aérea, estavam mais 500.
A UNAMET vivia um caos total.
Os passageiros do voo de evacuação da Merpati para Jacarta continuavam a ver aterrar aviões, todos eles para descarregar mais militares, para as ruas de Díli. O "de Portugal", fretado em Jacarta, aterra finalmente, permitindo uma partida, quando ainda passavam poucos minutos, depois da hora programada, 19:00 locais.
Sobe-se as escadas e, pouco depois, mesmo antes da decolagem, há ordens para apagar as luzes da cabina. É na escuridão que poderemos ver mais um sinal de Díli.
E Díli passa, tão rapidamente que quase nem se dá por isso.
Pelo menos até Bali, onde os telefones já funcionam. Exceto os começados por 0390, o código de Díli, que há horas que dão a mesma mensagem: “este telefone está a ser reparado”.
E o pior é a espera. Ou, se calhar, o medo de se esperar de olhos vendados