17/12/2025
É sempre com um misto de grandes memórias de um ser muito especial e a falta que ele faz a nós todos, uma energia de vida positiva e de viver a sério a vida...
Este ano com muito prazer publicamos uma revisão que o Sérgio Rodrigues fez de vários textos, de vários anos e momentos de encontro neste dia que julgamos honrar a memória e o trabalho do Vítor (Mony), quando alargamos esta memória A TODAS AS PESSOAS QUE VIRAM AS SUAS VIDAS AFETADAS NEGATIVAMENTE PELA DIITA GUERRA ÀS DR**AS QUE É DE FACTO UMA GUERRA QUE PROTEGE O MERCADO DA DROGA E TOTALMENTE INUSTA COM A COMUNIDADE DE PESSOAS QUE USA DR**AS E QUE VIU A SUA VIDA AFETADA PELO ESTIGMA, DISCRIMINAÇOES VÁRIAS, ETC..
De seguida o texto do amigo Sérgio Rodrigues:
"Dia Nacional das Pessoas que Morreram na chamada “Guerra às Dr**as”
A chamada “guerra às dr**as” não foi um erro inocente. Foi — e continua a ser — uma política consciente que produziu morte, estigma, discriminação, exclusão e marginalização. Um modelo repressivo que colocou em causa direitos humanos fundamentais e que, direta ou indiretamente, causou a morte de milhões de pessoas em todo o mundo.
Os movimentos proibicionistas, alimentados pelo preconceito, pela ignorância e por décadas de campanhas de desinformação, transformaram‑se numa guerra contra pessoas reais. Pessoas com nomes, histórias, famílias e direitos. A chamada “guerra contra as dr**as” nunca foi sobre substâncias — sempre foi sobre controlo social.
É por isso que a CASO – Consumidores Associados Sobrevivem Organizados convida toda a comunidade a assinalar este dia de memória, reflexão e afirmação política. Um dia para lembrar todas as pessoas que, de diferentes formas, foram vítimas da “guerra às dr**as”.
Entre elas, o nosso amigo Vítor (MONY).
O Vítor foi vice‑presidente da CASO e um Educador de Pares exemplar. Um homem de enorme humanidade, generosidade e entrega ao outro. Lutou, todos os dias, pela saúde e dignidade dos seus pares — pessoas que usam dr**as — através da distribuição de material de consumo, do aconselhamento informado, do encaminhamento responsável e do acompanhamento próximo.
Lutou com a mesma convicção pelos direitos de outras populações excluídas, nomeadamente das pessoas que exercem trabalho sexual. Construiu a sua humanidade na luta pela liberdade e pelos direitos dos outros, para que todos fossem — e sejam — cidadãos de primeira.
Por isso, neste dia, não relembramos a sua morte. Celebramos a sua vida.
Em todo o mundo, as pessoas que usam dr**as continuam a ser alvo de preconceito sistemático. São rotuladas como doentes, perigosas, incapazes, irresponsáveis ou imorais. Estes estigmas legitimam a discriminação, a exclusão social e a negação de direitos básicos, com impactos profundos na saúde, no bem‑estar e na dignidade humana.
O estigma e os estereótipos são a base ideológica da chamada “guerra às dr**as”. Uma guerra que conduz, todos os dias, a violações graves dos direitos humanos — violações que, na maioria dos casos, permanecem normalizadas, invisibilizadas e não contestadas.
Em muitos países, pessoas que usam dr**as são detidas arbitrariamente, encarceradas sem devido processo legal, sujeitas a campos de trabalho forçado, tortura e, em alguns contextos, execução. Em inúmeras regiões do mundo, é‑lhes negado o acesso a cuidados de saúde, a serviços essenciais e a medidas de redução de riscos e danos.
Em Portugal, algo mudou. E é importante dizê‑lo. Mas seria irresponsável fingir que o trabalho está feito. Ainda há exclusão, ainda há silenciamento, ainda há estigma institucional.
A verdade é simples e incómoda: a “guerra às dr**as” falhou. Falhou em reduzir o consumo, falhou em proteger a saúde pública e falhou em garantir segurança. O que conseguiu, com enorme eficiência, foi aprofundar desigualdades, alimentar mercados ilegais violentos e transformar utilizadores em alvos.
Por isso, afirmamos sem rodeios: a guerra às dr**as tem de acabar.
As pessoas que usam ou usaram dr**as têm de ser parte ativa — e não figurativa — do debate e das decisões que afetam as suas vidas. Defendemos o direito de adultos informados, com consentimento, poderem utilizar as substâncias que escolhem: por prazer, por automedicação, por melhoria de desempenho, por exploração da consciência ou como forma de aliviar vidas duras.
Defendemos o direito a utilizar e escolher dr**as em contexto privado, sem causar dano a terceiros, e o direito a transportá‑las no espaço público sem medo de perseguição policial, abuso ou intimidação.
Neste dia, reafirmamos que acabar com a guerra às dr**as implica rejeitar frontalmente o proibicionismo, a criminalização e a linguagem desumanizante. Rejeitamos a ideia de que quem usa dr**as é fraco, perigoso, incapaz ou moralmente inferior.
Chegou o tempo de abandonar rótulos cruéis. Chegou o tempo de desmontar generalizações fáceis. Chegou o tempo de reconhecer a diversidade, a força e o saber da nossa comunidade.
As pessoas que usam dr**as existem em todas as áreas da sociedade. Usam‑nas por razões diferentes, de formas diferentes e em contextos distintos. Somos diversos, competentes e plenamente capazes de autodeterminação.
Reivindicamos o direito a sermos respeitados como peritos das nossas próprias vidas, experiências e motivações. Não aceitaremos decisões tomadas sobre nós sem nós.
Nada Sobre Nós Sem Nós não é um slogan — é uma exigência democrática.
Neste Dia Nacional das Pessoas que Morreram na “Guerra às Dr**as”, honramos quem morreu desnecessariamente às mãos de políticas falhadas e afirmamos o nosso compromisso coletivo: lutar pelos direitos humanos, pela saúde, pela dignidade e pelo fim do proibicionismo.
Em solidariedade, reconhecemos que a luta de cada par é a luta de todos.
Em 2026, não queremos apenas memória. Queremos mudança.
(Neste mesmo dia, a comunidade internacional assinala também o Dia Internacional Contra a Violência sobre as Pessoas que Fazem Trabalho Sexual.)
Obrigado.
Estamos juntos.
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