30/09/2026
MANUEL DOS SANTOS
Mordomo de 1962 – 1974
Manuel dos Santos, mais conhecido como Manuel “Gracioso” foi o mordomo que sucedeu ao senhor António “Papiche” no Império da Mãe de Deus, em 1962.
Manuel “Gracioso”, respeitado lavrador, possuía uma grande lavoura, terras e alguns empregados. Conversando com o seu filho, António dos Santos, mais conhecido por António “Gracioso”, o próprio testemunhou de forma minuciosa, o mandato do seu pai como mordomo. “Não era rico, mas tinha uma casa farta” e a sua casa na Rua de Santo Amaro (n.º 38) tinha as dimensões suficientes para a realização das festas do Espírito Santo. A festa acontecia na sexta, sábado e domingo. “A festa em casa de um mordomo levava quinze dias para «atimar» (1) coisas, desmanchar as mobílias para o quarto da despensa, cozer massas a semana inteira, muita revolução na casa e nos quartos. O meu pai convidava as filhas de lavradores para ajudar. O meu pai matava dois porcos, semeava tremoço para curtir na altura da festa, e muita batata para as refeições.” As cozinheiras do tempo do seu pai, para além da sua mãe, Maria dos Anjos Pereira, eram as senhoras: Maria do Carmo Ventura (Maria “Chapinha”), “Aninhas” Patrícia e a tia Carminha “Canica”. Uns dias antes, aos finais de tarde, “enfeitavam-se as ruas com varas e umas bandeirinhas. As varas eram enfincadas com picaretas e barras de ferro. Enfeitava-se as varinhas só nas ruas de Santo Amaro e Laranjeiras. Mais tarde colocaram-se os arcos. Houve anos que ia sozinho cortar a verdura para a festa e trazia nas bestas.” Quando não havia famílias depositárias, a família Santos fazia a “Dominga” na sua casa, e o quarto do Espírito Santo era montado no quarto da frente da sua casa e era ornamentado pela tia Conceição “Frutuosa”, sendo o trabalho de eletricidade realizado pelo José Ventura.
Segundo a família Santos, o programa festivo era semelhante ao mandato anterior. Na sexta-feira, logo pela manhã realizava-se a recolha do gado. Naquele tempo não haviam muitos lavradores na área da Mãe de Deus, por isso, Manuel “Gracioso” convidou alguns lavradores dos arredores, principalmente da Ribeira Seca, para criarem gado para o Império da Mãe de Deus.
Acrescentou que a recolha do gado tinha sempre uma orquestra e seu pai “pagava os dias de trabalho dos músicos” e também que nos anos em que o Império tinha menos gado ao cuidado de criadores, o seu pai “pedia gado emprestado para o desfile do gado, para ficar mais composto e depois era devolvido aos seus donos. Estas pessoas que emprestavam o gado, depois tinham uma pensão. No dia dos gueixos na ida do desfile à Ribeira Seca, cruzavam-se com o gado do Império da Ribeira Seca e havia muita zaragata entre os animais.”
No mandato de Manuel “Gracioso” depois da recolha do gado realizavam-se lindos desfiles dos animais, com passagem pela Mãe de Deus, Ribeira Seca e centro de Vila Franca do Campo. Os vitelos e novilhos geralmente eram arrematados ou entregues a criadores. Para abate no açougue, junto à praia do Corpo Santo, seguiam as vacas, algumas oriundas de criadores e as restantes eram compradas.
Manuel “Gracioso”, segundo o filho António, chegou a abater oito a dez animais, geralmente vacas. O senhor Fernando da Costa era o responsável pelo abate e organização da carne, quer para as pensões, quer das “sobras para venda”.
Carlos Saêta recorda-se que a sua mãe dava-lhe uns trocos, cerca de 2$50 (dois escudos e meio) para ir comprar “ossinhos para dar o gostinho à sopa”.
António Gracioso realçou que “naquele tempo havia muita pobreza”, só davam pensões aos criadores, a benfeitores e às pessoas que pagavam a quota durante o ano. O seu pai todos os domingos “corria a área, de porta em porta, para receber a quota de 2$50 para as pensões.” Eram poucas as pessoas que pagavam a quota.
Na tarde de sexta-feira realizava-se a recolha do pão, a mudança da pombinha, depois a abertura do quarto com a “Coroa da Festa” do Império, seguida da bênção, pelo Prior António Jacinto de Medeiros, do pão, da massa e da carne, tudo na casa da família Santos.
De acordo com António “Gracioso”, no quintal da sua casa tinha um grande “quarto de casa” (2), onde penduravam a carne para as pensões e, durante a noite, era feita a desmancha. No dia seguinte, no mesmo lugar, faziam a tradicional “Ceia dos Criadores”. Naquele tempo não haviam muitos carros, por isso, para acompanhar o trator do senhor José da Costa, o pai alugava a “carrinha do senhor Cabralinho” para dar as pensões, dentro e fora da área.
“Naquele tempo os lavradores não tinham carros” e o seu pai depois de dar as pensões, ia com a dita carrinha buscar os criadores à Ribeira Seca e certamente a outros locais, previamente combinados.
No domingo de manhã realizava-se a missa da festa, com a presença da família depositária, do mordomo e sua família, seguindo-se de tarde a procissão da Coroação.
Em 1972 o depositário foi José Vicente. Como na altura residia na Achadinha, a “Dominga” foi realizada na casa do seu irmão António, na Rua das Laranjeiras. Anos depois, a família Vicente, já residente também na Rua das Laranjeiras, realizou a “Dominga” por diversas vezes.
Depois da Coroação, a Coroa era colocada no Império de madeira, previamente montado na Rua Visconde da Palmeira.
Durante a tarde, as pessoas levavam algumas esmolas em dinheiro, em géneros e animais vivos criados nos quintais. “Tínhamos sempre uma pinga de vinho e umas massinhas para dar às pessoas que iam ao Império”. Ao final da tarde faziam-se umas pequenas arrematações e o arraial era sempre a cargo de uma Filarmónica, num “palanco (3) montado mais abaixo do Império”. Depois dos concertos realizava-se o balanço das festas e, de seguida a mudança da coroa. “Se alguma família não subia para pegar na coroa, no ano seguinte a «Dominga» era realizada pela família Santos.”
O lugar de mordomo era sempre colocado à disposição e enquanto o povo dizia “viva ao velho!” continuava o mandato de mordomo. António “Gracioso” relatou que, por duas vezes, a Coroa, no tempo do seu pai, “saiu fora da área, uma vez para casa do João «Barbeiro» que morava junto ao Hospital e a outra vez para a casa do José Luis, na Rua da Paz. O povo criticou muito o meu pai, mas ele se impôs e autorizou”. Nos quinze anos que Manuel “Gracioso” esteve nos comandos da festa, foram poucas as vezes que famílias depositárias fizeram a “Dominga”. Para além dos dois depositários mencionados anteriormente para fora da área, fizeram também a “Dominga”: Rita de Oliveira, António Gomes, Hermínia “Clara” e o próprio Manuel “Gracioso” em 1974, por promessa do regresso do seu filho António da guerra do Ultramar. Nos sábados da quaresma, realizava-se a recitação dos terços ao Espírito Santo, na casa da família depositária.
Em 1974, Manuel “Gracioso” anunciou que não podia realizar mais a festa. Confirmou que na altura ninguém “subiu” para assumir o cargo de mordomo, tendo assumido o compromisso de “aguentar o gado vivo” e segundo o seu filho António “aguentamos o gado mais de quinze dias nas pastagens do meu pai, até que depois o Francisco Pereira quis pegar na festa”.
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in livro «IRMANDADE DO DIVINO ESPÍRITO SANTO DA MÃE DE DEUS - 25 Anos a servir», de Carlos Vieira.
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(1) “Atimar” é um termo característico de Vila Franca do Campo e significa «preparar».
(2) “Quarto de casa” era uma espécie de armazém ou anexo de despejos de uma moradia.
(3) “Palanco” é uma espécie de coreto móvel.
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Imagem: Imagem com recurso a IA, com base na foto mencionada no livro «IRMANDADE DO DIVINO ESPÍRITO SANTO DA MÃE DE DEUS - 25 Anos a servir», de Carlos Vieira, na página 90