28/09/2024
Vou tentar ser objectivo nas palavras. A elas junto as fotos com as respectivas legendas. Cada um tire as suas conclusões.
Trata-se da Igreja de Santiago, em Torres Vedras, classificada como Monumento de Interesse Público, em 2012.
Bem sabemos que não está ao culto, há muitos anos, mas continua a ser uma Igreja. Um templo católico, propriedade da Igreja católica. Também sabemos que está a ser utilizado por algumas entidades, que não vou nomear aqui, elas sabem. Mas parece que nenhuma delas acha que tem de cuidar do seu arranjo e limpeza.
Foi uma das quatro Igrejas matrizes de Torres Vedras, bem no Centro Histórico da então Vila Medieval. Sabemos da sua existência já em 1248 / séc. XIII.
O actual templo resulta da reconstrução da antiga ermida, feita entre os séculos XVI e XVII, a que se juntou a torre do século XVII
Do séc. XVI temos três relíquias:
O portal principal, de estilo manuelino, que o tempo e a poluição têm vindo a degradar inexoravelmente; a pia baptismal, numa capela cujo desleixo e indiferença dos responsáveis religiosos tornam indigna desta peça preciosa, onde foram baptizados milhares de antepassados nossos; uma escada de pedra, em caracol, igualmente vítima de grande desleixo, que dá acesso ao coro alto, onde restam os vestígios de um cadeiral, datado de 1634, infelizmente em ruínas. Este coro é de grande monumentalidade, assente em três arcos, dos quais o do meio é abatido, com elegante desenho.
A abóbada, em forma de berço, de grandes caixotões, sobreviveu ao terramoto de 1755, ao contrário das outras igrejas de Torres Vedras. Ela cobre uma nave muito ampla, onde existiam seis altares, três de cada lado. Estão hoje completamente desfigurados, pois este templo foi retirado do culto em meados do séc. XX. Destaca-se, no corpo da Igreja, o belíssimo púlpito, todo em mármore, do século XVII. Está hoje quase ao nível dos nossos olhos pois o chão da Igreja sofreu múltiplos alteamentos, devido às frequentes cheias do Sizandro, que inundavam o interior.
Na parede onde se abre o arco triunfal, foram descobertas, durante umas obras de restauro, há cerca de quarenta anos, pinturas murais que estavam cobertas por estuque, provavelmente do século XVIII, época da última grande reconstrução da Igreja, em que terá sido erguida a actual fachada, com a torre sineira.
A maior riqueza decorativa deste templo está na capela mor. Vejam-se os dois silhares de azulejos figurativos, do século XVIII, atribuídos ao Mestre PMP, que representam os atributos de Santiago: a cruz e os apetrechos do peregrino. Sobre estes azulejos, há quatro telas, recentemente restauradas, representando quatro doutores da Igreja: do lado esquerdo (Evangelho), S. Jerónimo e Santo Agostinho; do lado direito (Epístola), Santo Ambrózio e S. Gregória Magno.
O retábulo, que seria em talha dourada, característica do estilo barroco, está reduzido à estrutura base, mas mantém no alto uma cartela com as insígnias de Santiago. E assenta num friso de mármores embutidos. No teto, há belos ornatos que preenchem o espaço entre os arcos de sustentação.
De referir ainda, na sacristia, o monumental lavabo, também de mármores embutidos e o grande arcaz com ferragens do séc. XVIII.
Lida esta descrição, convido-vos a observarem as fotos com as respectivas legendas. Depois tirem as vossas conclusões. A minha está tirada há muito tempo, e foi reforçada com estas fotos, tiradas no passado dia 27. Nem fui à tal escada nem ao coro, para não piorar o meu estado de espírito e a sensação de enorme VERGONHA que tudo isto me causa. Vergonha que os párocos de Torres Vedras não sentem, eles que são os representantes máximos da entidade proprietária deste templo – apesar de já os termos alertado pessoalmente há muito tempo.
( Acrescento que a igreja está diariamente aberta ao público, excepto às Segundas, com acompanhamento do programa municipal ISA PATRIMÓNIO. Durante a meia hora em que lá estivemos, da parte da manhã, entraram duas famílias de turistas estrangeiros).