08/10/2026
A Confraria de Fungalvaz
As raízes do mutualismo em Portugal
1176-2026
A Confraria de Fungalvaz, fundada em maio de 1176, na freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas, ocupa um lugar singular na história social portuguesa. Reconhecida como o berço do mutualismo em Portugal, é considerada a mais antiga organização de auxílio mútuo e solidariedade recíproca documentada no país. A sua criação ocorreu durante o reinado de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, num período em que a vida comunitária estava profundamente marcada pela religião e pelas relações de dependência.
A importância da confraria ultrapassa, contudo, a sua dimensão religiosa. Investigações recentes desenvolvidas por historiadores da Universidade Nova de Lisboa permitiram recuar para 1176 a origem documentada das práticas mutualistas em Portugal, anteriormente associadas ao ano de 1297. Esta revisão histórica baseia-se nos registos e no compromisso da irmandade, revelando que, já no século XII, existiam formas organizadas de proteção entre membros de uma comunidade.
Embora tivesse Santa Maria como padroeira e refletisse o forte cariz religioso próprio da época medieval, a Confraria de Fungalvaz apresentava uma dimensão social avançada para o seu tempo. O documento fundador estabelecia que os confrades deviam proteger-se e amparar-se mutuamente em situações de necessidade ou doença. Esta obrigação traduzia um princípio simples, mas de enorme alcance: ninguém deveria enfrentar sozinho a adversidade. A entreajuda, assente na responsabilidade partilhada, lançava assim as sementes de uma ideia que, séculos mais tarde, viria a integrar os fundamentos do moderno Estado Social.
A memória da confraria chegou aos nossos dias graças ao Tombo das Capelas de Torres Novas, valioso acervo paleográfico conservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Este património documental permite conhecer a existência da irmandade e os estatutos que regulavam a sua ação, constituindo uma fonte essencial para compreender as primeiras manifestações de solidariedade organizada em território português.
Mais do que uma recordação distante, o legado de Fungalvaz continua a ser valorizado no presente. A União das Mutualidades Portuguesas assinala a relevância de Torres Novas na génese da proteção social em Portugal e reconhece na antiga confraria uma referência maior da tradição mutualista nacional. Ao recordar a experiência dos confrades de 1176, recupera-se também uma mensagem atual: a força de uma comunidade mede-se pela capacidade de cuidar dos seus membros, sobretudo nos momentos de maior vulnerabilidade.