29/05/2026
Fui durante 22 anos empresário agrícola e agricultor profissional urbano. Atualmente continuo envolvido com a agricultura enquanto consultor profissional.
Vivi a agricultura dentro da cidade, entre estufas, campos de cultivo, hortas, canteiros, mercados, visitantes, escolas, secas, ondas de calor, geadas inesperadas e a permanente tentativa de produzir alimento fresco no meio do betão.
Por isso, quando verifico que um estudo científico conclui em 2026 que a agricultura urbana poderá fornecer quase 30% das necessidades de hortícolas frescos da população das cidades europeias analisadas, não me parece uma utopia. É algo que sei há mais de duas décadas ser perfeitamente possível.
Durante muitos anos, a agricultura urbana foi encarada quase como um capricho romântico, uma atividade marginal associada a pequenos movimentos alternativos, hortas comunitárias ou iniciativas pedagógicas.
No entanto, quem trabalhou verdadeiramente no terreno percebeu cedo que o potencial era muito maior. Não apenas para produzir alimento, mas para transformar a relação das cidades com a natureza, com o clima, com a água, com os resíduos e até com a saúde pública.
O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.
Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam, segundo os autores, contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas que vivem nessas cidades, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das suas necessidades de hortícolas frescos.
O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa de implementar ou sistemas altamente industrializados.
Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.
Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.
Muitos dos alimentos frescos consumidos diariamente eram produzidos a poucos quilómetros, ou mesmo dentro da própria cidade.
O século XX alterou profundamente essa relação. A industrialização da agricultura, a expansão urbana e a obsessão pela separação entre cidade e campo afastaram progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos.
Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e transformámos milhares de hectares em superfícies incapazes de infiltrar água, reduzir temperatura ou produzir alimento.
Ao mesmo tempo, criámos sistemas alimentares extremamente dependentes de combustíveis fósseis, de transporte de longa distância e de cadeias logísticas globais. Durante décadas isto pareceu inevitável. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.
As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas, os conflitos internacionais e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.
Importa, evidentemente, evitar simplificações ingénuas. A agricultura urbana nunca substituirá a agricultura rural. Portugal continuará a precisar dos seus agricultores, das explorações familiares, dos baldios, dos montados, dos olivais, das vinhas e da gestão ativa da paisagem agrícola.
Mas as cidades podem e devem recuperar parte da sua capacidade produtiva, sobretudo ao nível dos alimentos frescos, mais perecíveis e mais adequados a circuitos de proximidade.
Produzir perto de quem consome reduz transporte, desperdício e emissões. Pode também aumentar a biodiversidade urbana, reduzir ilhas de calor e devolver matéria orgânica ao solo através da compostagem local.
Existe ainda uma dimensão menos quantificável, mas talvez mais importante. Quem cultiva alimento, mesmo em pequena escala, transforma inevitavelmente a sua relação com o tempo, com as estações, com o clima e com o próprio valor da comida.
Uma simples horta urbana pode tornar-se um espaço de aprendizagem ecológica, de saúde mental, de encontro entre gerações e de reconexão com processos naturais que a vida urbana moderna quase apagou.
Talvez seja precisamente isso que este estudo representa. Não apenas uma análise científica sobre produção alimentar, mas também um sinal de mudança cultural, uma tentativa de reconciliar cidade e natureza depois de décadas de separação artificial.
Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.
Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.
O resto depende de nós, de cidadãos, técnicos e decisores, termos a coragem de desenhar cidades onde cultivar alimento deixe de ser exceção e passe a ser parte da normalidade urbana.
O estudo encontra-se disponível nesta ligação: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2210670726003094