13/09/2026
Minha cara mãe,
meu caro pai:
o teu filho ficou em último: abraça-o.
Por favor, não o ames menos. Ninguém admite amar menos um filho porque ele perdeu uma corrida, teve a pior nota da turma, ficou no banco, não passou à final, não entrou na faculdade que queria, não foi escolhido, não conseguiu, mas às vezes há um silêncio, um olhar, um "podias ter feito melhor", um suspiro dentro do carro.
Não tenhas ilusões: as crianças percebem tudo, o teu filho percebe tudo, até (sobretudo) o que tentamos esconder.
O teu filho ficou em último: abraça-o.
Não precisas de fazer uma análise técnica à derrota, não precisas de lhe ensinar que a vida é difícil naquele momento. Ele acabou de aprender; a cabra da vida encarregou-se disso.
Tu tens outra função.
A mais linda de todas: dizer-lhe no meio do abraço, olhos nos olhos: f**aste em último e continuas a ser o meu filho amado, o mais amado do mundo, de todos os mundos.
Não o coloques no meio de um ranking, p***a.
Há rankings de escolas, de empresas, de universidades, de jogadores, de livros, de restaurantes, de pessoas bonitas, de pessoas ricas, de pessoas influentes. Dizemos com orgulho que o importante é participar, mas depois fotografamos só o vencedor.
Não sejas assim.
Às vezes, uma criança, e um adulto (porque não?), precisa apenas de um penso, de um colo.
O teu filho ficou em último: abraça-o.
Não queiras que ela faça a si mesmo a mais dolorosa das perguntas: será que ele ainda me ama quando eu não sou aquilo que ele esperava? Há adultos que passam cinquenta anos à procura da resposta, outros passam a vida toda.
O amor não é um salário.
Não digo que não devas exigir, que não devas ensinar disciplina, esforço, responsabilidade, coragem. Deves. E eles devem sentir que nem tudo o que fazem é maravilhoso. Não é, nunca será. Deves apontar para isso. mas não digas "tu não és suficiente".
O teu filho não tem obrigação de ser extraordinário.
Se ele está sentado sozinho num banco porque todos os outros foram melhores, vai lá, senta-te. Não tens de dizer grande coisa. Basta isto: "Vamos para casa?"
E vão, e vão.
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BENJAMIM
e os dias cheios de nada
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