13/06/2026
A Associação de História e Arqueologia de Sabrosa tem vindo a receber diversas denuncias relativas a uma obra de engenharia que está a decorrer num edifício histórico do concelho de Sabrosa, a designada “Casa do Fadista Manassés”, um edifício brasonado, com diversas fases construtivas, entre as quais predominam elementos característicos do século XIX e primeiro quartel do século XX, para além de um brasão em granito, incrustado na fachada principal do edifício.
Para este efeito, a AHAS elaborou este pequeno texto descritivo sobre o edifício: A Casa do Fadista Manassés, localizada no centro histórico de Sabrosa, constitui um relevante exemplar da arquitectura civil residencial de carácter senhorial, associada à memória de Manassés Ferreira de Lacerda Botelho (1885–1962), uma figura marcante da história do fado em Portugal. Integrada na malha urbana tradicional da vila, a edificação apresenta uma implantação contínua ao longo do arruamento, contribuindo para a definição da frente edificada e para a preservação da identidade arquitectónica do conjunto histórico.
O imóvel desenvolve-se em dois pisos acima da cota de soleira e apresenta uma volumetria longitudinal simples, coberta por telhado de duas águas revestido com telha cerâmica tradicional. A sua construção assenta em técnicas construtivas características da região duriense e transmontana, recorrendo predominantemente à alvenaria de granito, com elementos de cantaria aparelhada nas molduras dos vãos, cunhais, cornijas e restantes componentes estruturais visíveis. A robustez da pedra granítica confere ao edifício uma imagem de solidez e permanência, típica das habitações de famílias economicamente favorecidas da época.
A fachada principal destaca-se pelo extenso revestimento azulejar que cobre grande parte da superfície paramental. Trata-se de uma composição decorativa de padrão repetitivo policromado, onde predominam motivos geométricos e vegetalistas em tons de azul, ocre e castanho, característica da produção azulejar industrial amplamente utilizada na arquitectura portuguesa dos finais do século XIX e inícios do século XX. Este revestimento confere unidade estética ao conjunto e constitui um dos seus elementos patrimoniais mais significativos.
No eixo central da fachada sobressai uma elaborada pedra de armas em granito esculpido, enquadrada por moldura ornamental de inspiração barroca. Este elemento heráldico, de grande qualidade escultórica, evidencia a condição social dos antigos proprietários e assume um papel de destaque na composição arquitectónica do edifício. A presença do brasão reforça o carácter senhorial da habitação e constitui um importante testemunho da história familiar associada ao imóvel.
A organização dos vãos revela uma composição equilibrada e relativamente simétrica. As janelas de peito, enquadradas por molduras de cantaria granítica, distribuem-se regularmente ao longo da fachada, enquanto as varandas de sacada, apoiadas em consolas pétreas e protegidas por guardas metálicas em ferro forjado, introduzem um elemento de elegância e distinção arquitectónica. A varanda principal assume especial protagonismo, contribuindo para a valorização do piso nobre e para a dinamização plástica da fachada.
Do ponto de vista patrimonial, a Casa do Fadista Manassés possui um elevado valor arquitectónico, artístico, histórico e cultural. A preservação dos elementos construtivos tradicionais, da azulejaria decorativa e da heráldica pétrea faz deste edifício um testemunho representativo da arquitectura residencial abastada de Sabrosa. Simultaneamente, a sua associação ao nascimento de Manassés Ferreira de Lacerda Botelho acrescenta-lhe uma dimensão simbólica e identitária que ultrapassa o interesse meramente arquitectónico, conferindo-lhe relevância no contexto da memória cultural local e nacional.
Em síntese, trata-se de uma casa senhorial urbana de tradição transmontana, construída em alvenaria de granito e enriquecida por um notável revestimento azulejar, elementos heráldicos e varandas de ferro forjado, constituindo um dos exemplares mais significativos da arquitectura residencial histórica da vila de Sabrosa e um importante marco do património cultural associado à história do fado português.
Tendo em conta a importância histórica do edifício e a sua relação com o fadista Manassés e a sua família, a AHAS, tendo em conta as importantes denúncias realizadas por diversos sabrosenses, o que demonstra, por sua vez, o impacto relevante que o património cultural tem nas populações do concelho de Sabrosa e a preocupação que os sabrosenses sentem pelo seu património, a AHAS irá, durante a próxima semana, agendar uma reunião com o executivo camarário e com os técnicos responsáveis pela empreitada, no sentido de esclarecer o seguinte:
1. Existência ou não de condicionantes patrimoniais ou arqueológicas emitidas, seja do Património Cultural I.P. seja da CCDRN, no sentido de minimizar impactos sobre o património cultural sabrosense;
2. Determinar o fim dos diversos painéis de azulejos existentes na fachada frontal do edifício, interiores ou outros alçados;
3. Determinar a possibilidade de implementar um plano de recolha e/ou preservação dos azulejos retirados durante os trabalhos de engenharia efectuados e documentados nas diversas denuncias que recebemos;
4. Avaliar a possibilidade dos azulejos retirados poderem ser tratados, inventariados e conservados no laboratório de arqueologia de AHAS para memória futura;
5. Realizar uma observação macroscópica da estrutura exterior e interior da casa no sentido de poder localizar elementos com interesse histórico, patrimonial e arqueológico.
Após a reunião, será elaborada um novo documento, acessível a toda a comunidade, com os resultados da reunião e com diversos elementos que possibilitem a discussão pública sobre este edifício e sobre toda a problemática gerada.
Mais se informa que, como é do conhecimento geral, a obra realizada no edifício tem como objectivo, como refere a informação oficial do município “O projecto prevê a reabilitação deste imóvel e a adaptação a novas funções, preservando a traça arquitectónica do edifício, nomeadamente a vernacular existente no interior do logradouro. O espaço será transformado num equipamento multiusos de vocação cultural, aberto à população e preparado para acolher actividades ao longo do ano.
O novo Centro Cultural Casa Manassés contempla a criação da nova biblioteca municipal, que disponibilizará valências nas áreas educativa, cultural e social, afirmando-se como um espaço de encontro intergeracional, e terá ainda auditório, sala de conferências, espaços polivalentes e cafetaria. No exterior, será criada uma zona pavimentada para eventos ao ar livre e uma área de jardim público.”