19/06/2026
Espaços verdes do Porto: o debate que junta ciência, memória e esperança
No dia 15 de Junho, cerca de 30 pessoas reuniram-se para discutir a evolução dos espaços verdes do Porto, num encontro promovido pela associação Campo Aberto que cruzou mais de quatro décadas de dados científicos e imagens de satélite com a experiência de quem trabalha todos os dias pela arborização da cidade.
A sessão abriu com a apresentação [nos próximos dias partilharemos os links para as apresentações] de Filipa Guilherme, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Baseando-se na sua tese de doutoramento, a investigadora trouxe ao debate a relação intrínseca entre a biodiversidade urbana e a evolução da cobertura do solo, cruzando fotografias e dados de satélite de um período de 72 anos (entre 1947 e 2019).
Os seus dados deixaram claro que não basta existirem áreas verdes isoladas: é a continuidade e a estabilidade desses espaços ao longo do tempo — os chamados habitats persistentes — que criam condições favoráveis para sustentar ecossistemas mais ricos e resilientes. Filipa Guilherme alertou que a destruição provocada pela urbanização causa frequentemente um "efeito retardado," o que signif**a que o declínio das espécies e as extinções locais ocorrem com uma latência temporal, não sendo imediatamente visíveis após a perda do habitat.
Seguiu-se a intervenção de Nuno Quental, voluntário da Campo Aberto e da GARRA, que apresentou uma análise da acessibilidade dos portuenses a espaços verdes. A cidade tem conhecido múltiplos atentados ao verde urbano, nomeadamente devido à ocupação de logradouros e de mau planeamento urbano. Contudo, uma análise cuidada revelou a existência de pelo menos 46 áreas que poderiam ser convertidas em verde público, o que melhoria drasticamente o panorama. O recente site Porto Verde (https://coolio1.github.io/porto_areas_verdes_mudanca/), ainda em melhoria, já contem uma grande quantidade de mapas detalhados.
Pedro Pardinhas encerrou o painel apresentando o trabalho de identif**ação de espaços que, sem grande investimento, poderiam ser facilmente arborizados. Estas ideias aparentam bom acolhimento pela Câmara Municipal do Porto. Ficou no ar a ideia de que existe vontade política para avançar, mas que essa vontade precisará de se traduzir em acções concretas e mensuráveis nos próximos anos, designadamente na concretização do Plano de Arborização do Porto. O sítio do GARRA (https://www.garraporto.org/arborizacao) contem mais informações.
O encontro confirmou aquilo que os dados já indicavam à partida: o desafio dos espaços verdes no Porto não é apenas técnico ou científico, é também uma questão de decisão colectiva sobre o tipo de cidade que se quer construir. A Campo Aberto deixa o convite em aberto para continuar a acompanhar de perto os próximos passos do Plano de Arborização, e para manter este diálogo entre ciência, associativismo e poder local.
Se quiser colaborar, contacte a Campo Aberto ([email protected]) ou o GARRA ([email protected]).