01/09/2026
Recebi hoje, por amável oferta, este livro da amiga e colega Sara Cura, livro que acaba de estar à disposição do público.
É um livro de uma nova geração de arqueólogos/pré-historiadores, que já se distingue nitidamente da minha, anterior, à qual coube fazer a transição de uma arqueologia amadora, para uma arqueologia ensinada nas Universidades (com a honrosa excepção da arqueologia da época romana feita em Coimbra-Conimbriga, com tradições anteriores...).
De facto, antes do 25 de abril, praticamente o que predominava neste campo de estudos, tão vasto, fascinante, e fundamental à formação cultural de todas as pessoas, eram essencialmente amadores (praticamente com a excepção do casal Jorge e Adília Alarcão em Coimbra). Ser amador (=o que ama uma atividade) é bom, mas não chega, e em arqueologia pode até ser negativo, porque ela é uma atividade científ**a exigente, e que implica, cada vez mais, especialização numa das suas facetas, por um lado, e colaboração com todos os outros campos do saber, por outro.
É um livro, este agora publicado, da Doutora Sara Cura, inovador. É claro que tendo tido só a primeira parte da tarde para o desfolhar, não vou aqui fazer a "recensão crítica" do que ainda não tive tempo de ler.
Mas vou aqui fazer o seu mais que justo, obrigatório elogio, porque pelo que já li o livro é original e extremamente útil para todas as pessoas que queiram conhecer este mais antigo período da "aventura humana" sobre a Terra que designamos em geral, por tradição, Paleolítico, ou Pré-história antiga.
Por isso é devida uma palavra grata de parabéns à autora, e um conselho, se me é permitido, ao público em geral: comprem e leiam este livro.
Qual a originalidade básica da motivação e orientação da obra, sempre dirigida por uma perspetiva materialista? Numa primeira parte, apresentam-se as grandes transformações dos complexos técnicos da Pré-história antiga (Paleolítico), modif**ações climáticas, que foram de extremo a extremo conforme as épocas, e a evolução, em traços largos, dos aspetos biológico-anatómicos e comportamentais do género Homo. Numa segunda parte, a mais importante do livro, a autora foca-se nas inovações técnicas (que não tecnológicas, o que já reportaria para uma época muito mais recente da história) que foram sendo introduzidas pela nossa espécie (Homo sapiens), e que, como o título do livro refere, "mudaram o mundo", permitindo ao mesmo tempo a nossa sobrevivência. Sara Cura mostra a importância (funcional e cognitiva, claro) da invenção do chamado biface (poderoso utensílio multifuncional), da lança, para o caçador poder atingir a presa a distância, dos métodos de colagem dos vários elementos que faziam parte de utensílios compósitos, da preparação e uso de fios e cordas, da inovação radical do arco e flecha, da preparação da roupa para proteger o corpo de forma mais confortável, do calçado que permitiu uma muito maior facilidade de deslocação, e do anzol para a pesca.
Em todos estes aspetos não se f**a apenas por ideias gerais, mas dá exemplos, por vezes mesmo concentrados em casos concretos, e no fim apresenta uma copiosa bibliografia, que será tão importante para o público que realmente queira pegar nas obras mais gerais aí citadas, como para outros colegas arqueólogos como eu, que já se não dedicam ao estudo destes períodos mais remotos há um certo tempo.
Uma obra bonita, na apresentação gráf**a, e na excelente forma de expor, que a autora tem vindo a adquirir pela sua experiência na utilização de vários métodos de comunicação de ciência.
Está de parabéns a Doutora Sara, e é uma alegria poder ter o seu livro ao dispor, quiçá inspirador de outras aventuras semelhantes para épocas mais recentes, de que bem precisa a nossa pré-história, cada vez mais entranhada no grande público, que é o destinatário último dos esforços dos cientistas, e aquele a quem compete, nas suas áreas de residência, acautelar um património que, sendo remoto, está sempre a revelar-nos novas facetas do humano, dispersas por todo o território.
Vítor Oliveira Jorge
1.9.2026