18/10/2026
Em dia de aniversário de José Marques da Silva: da monarquia à república, os Monumentos ao Infante D. Henrique
Existe no acervo de José Marques da Silva uma curiosa fotografia, inserida no processo do Concurso para o 𝐌𝐨𝐧𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐚𝐨 𝐈𝐧𝐟𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐃. 𝐇𝐞𝐧𝐫𝐢𝐪𝐮𝐞, com Marques da Silva e a sua filha, Maria José na frente de uma carrinha de transporte, a assistir (ou coordenar) uma operação de recolha (ou descarregamento) de telas de grande dimensão, consonantes aliás com os requisitos do programa e a monumentalidade da obra que o Estado Novo se propunha construir no mítico promontório em Sagres. As restantes fotografias associadas a este projeto apresentado a concurso sob a divisa «novos mundos ao mundo», em 1934, captam apenas espaços interiores (do atelier de arquitetura e do atelier de escultura), sendo inclusivamente possível, numa delas, identificar David Moreira da Silva.
A fotografia em si não tem uma data ou local inscritos, porém, é certo que Marques da Silva se candidatou ao primeiro concurso lançado pela Presidência do Conselho em 1933 (apenas executado em 1934) daquela que viria a ser conhecida como a «saga de Sagres», com o lançamento de novos concursos (1936, 1954, 1988) sem qualquer tradução material. Como certo é que as telas finais, maquetas e gessos, dos projetos concorrentes, deveriam ser expostos no Pavilhão do Parque Eduardo VII, em Lisboa, o que explica o recurso a um veículo da transportadora Costa Ramos, a única concessionária da carreira de transportes rodoviários entre Porto e Lisboa.
Não era, contudo, nem a primeira vez que Marques da Silva se dedicava a esta tipologia projetual específica nem a primeira vez que se dedicava a esta temática ligada ao ciclo de expansão marítima de Portugal e ao desejo de homenagear o Infante, cujas comemorações do V centenário do nascimento tinham sido centradas no Porto, a sua cidade natal, em 1894.
É durante o seu período de formação em Paris, em finais do século XIX, que José Marques da Silva, em parceria com o escultor António Teixeira Lopes, começou a projetar monumentos. Apresentou-se então a dois concursos: em 1893, sob a divisa «Portugal», ao 𝐌𝐨𝐧𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐚 𝐀𝐟𝐨𝐧𝐬𝐨 𝐝𝐞 𝐀𝐥𝐛𝐮𝐪𝐮𝐞𝐫𝐪𝐮𝐞, a construir em Lisboa; em 1894, sob a divisa «Lusitânia», ao 𝐌𝐨𝐧𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐚𝐨 𝐈𝐧𝐟𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐃. 𝐇𝐞𝐧𝐫𝐢𝐪𝐮𝐞, a construir no Porto, no antigo Largo da Ribeira, depois rebatizado Praça do Infante D. Henrique, no âmbito das já referidas celebrações henriquinas. Em nenhum deles se sagrou vencedor, mas com eles terá certamente adquirido uma experiência que viria a tornar-se essencial para os que, regressado a Portugal e na qualidade de arquiteto diplomado pelo governo francês, posteriormente viria a projetar, cerca de uma dezena entre Porto, Lisboa, Barcelos, Guimarães, Mesão Frio e Sagres, maioritariamente construídos.
Merecem especial destaque três destes projetos, por terem tido a sua génese em concursos públicos e pelas repercussões públicas que desencadearam: em 1909, o 𝐌𝐨𝐧𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐚𝐨𝐬 𝐇𝐞𝐫ó𝐢𝐬 𝐝𝐚 𝐆𝐮𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐏𝐞𝐧𝐢𝐧𝐬𝐮𝐥𝐚𝐫, desenvolvido com o escultor Alves de Sousa, ostentando a divisa «Povo e Tropa» (projeto vencedor e uma referência urbana da cidade do Porto, finalizado somente em 1952); em 1914, o 𝐌𝐨𝐧𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐚𝐨 𝐌𝐚𝐫𝐪𝐮ê𝐬 𝐝𝐞 𝐏𝐨𝐦𝐛𝐚𝐥, também com Alves de Sousa, para Lisboa, sob a divisa «Cuidar dos Vivos» (o Júri, presidido por José Luís Monteiro, numa decisão altamente contestada por várias figuras públicas que defendiam a superioridade do seu projeto, entre elas António Arroyo, atribuiu-lhe o 2.º lugar); e em 1934 o já referido 𝐌𝐨𝐧𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐒𝐚𝐠𝐫𝐞𝐬, para o concurso que elegeria como vencedor o projeto do arquiteto Carlos Rebelo de Andrade e do escultor Rui Gameiro, e cujas peças das projetos concorrentes seguiram, em 1940, por decisão da Direção Geral da Fazenda Pública, para o Museu da Marinha, então em organização, o que também ajuda a explicar a ausência de maquetas, contrariamente aos anteriores projetos, no acervo hoje preservado na Fundação, com a exceção de uma pequena estatueta a figurar o Infante.
Quarenta anos distam entre as duas abordagens de Marques da Silva à figura do Infante D. Henrique. Ficaram ambas no papel, mas vale a pena confrontar o monumento proposto pelo jovem de 25 anos, destinado a um território urbano, e aquele que vai desenvolver enquanto arquiteto experiente de 65 anos, para ser perspetivado a partir do mar. Há evidentes diferenças que não decorrem somente do facto de obedecerem a propósitos e circunstâncias distintas. Percebe-se a passagem do tempo, mesmo sem apagar o gesto autoral. No entanto, um e outro, enquanto «monumentos escultóricos», tentam cumprir esse desejo de glorificação de uma memória coletivamente partilhada, que de acordo com os respetivos regimes políticos se pretendia firmar e deixar como legado para a posteridade através de uma grande edificação; e ambos foram pensados por Marques da Silva para além da sua função simbólica e metafórica, como «âncoras» visuais e físicas, catalisadoras e ordenadoras de novas centralidades no território a que se destinavam.
José Marques da Silva nasceu no Porto a 18 de outubro de 1869.
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