03/06/2026
Declaração de Orlando Gonçalves, coordenador do STFPSN, na sequência das observações do Primeiro-Ministro sobre a greve geral:
Governo deve refletir sobre as razões da greve, não atacar quem luta
As declarações do Primeiro-Ministro sobre a Greve Geral de 3 de junho revelam, uma vez mais, a dificuldade do Governo em ouvir os trabalhadores e compreender as razões do seu descontentamento.
Depois de uma jornada de luta que mobilizou milhares de trabalhadores em todo o país, o Primeiro-Ministro apressa-se a afirmar que a maioria dos portugueses foi trabalhar e que os sindicatos devem refletir sobre os efeitos da greve. A questão que se impõe é outra: não será o próprio Governo que deve refletir sobre as razões que levam tantos trabalhadores a recorrer à greve para fazer ouvir a sua voz?
Ao longo dos últimos dois anos, o Executivo tem procurado desvalorizar a adesão às greves, minimizar a contestação social e ignorar os alertas vindos dos locais de trabalho. Quando lhe convém, porém, reconhece os impactos da paralisação para atacar os sindicatos e tentar descredibilizar as reivindicações dos trabalhadores.
Os trabalhadores não fizeram greve por capricho. Fizeram greve porque estão cansados de ver os seus direitos ameaçados, os seus salários perderem poder de compra e as suas preocupações sistematicamente ignoradas. Fizeram greve porque entendem que as alterações à legislação laboral representam um retrocesso social e porque recusam aceitar mudanças profundas nas suas condições de trabalho sem debate democrático e sem legitimidade política expressa.
O direito à greve é uma conquista fundamental da democracia. Não necessita da aprovação do Governo, nem do Sr. Primeiro-Ministro, para ser exercido. Os sindicatos não têm de pedir desculpa por organizar a luta dos trabalhadores nem por dar voz a quem diariamente produz a riqueza do país.
Quem deve refletir é o Governo. Deve refletir sobre a crescente contestação social às suas políticas. Deve refletir sobre as medidas que dificultam a conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar. Deve refletir sobre a distância que o separa da realidade vivida por milhares de trabalhadores. E deve refletir sobre a insistência em avançar com medidas que nunca foram apresentadas aos portugueses como compromisso eleitoral e que estão a merecer uma forte rejeição social.
A Greve Geral demonstrou que existe descontentamento, resistência e determinação. Demonstrou igualmente que os trabalhadores não aceitam ser afastados das decisões que afetam as suas vidas e os seus direitos.
Demonstrou ainda que a tentativa do Governo de excluir a CGTP-IN dos processos de negociação não diminuiu a confiança dos trabalhadores naquela que continua a ser a principal central sindical de classe do país. Milhares de trabalhadores voltaram a reconhecer na CGTP-IN a organização que melhor representa os seus interesses e aspirações.
Em vez de atacar os sindicatos, o Governo deveria escutar os trabalhadores. Em vez de procurar desvalorizar a luta, deveria procurar resolver os problemas que lhe dão origem.
A luta continuará enquanto persistirem políticas que coloquem em causa os direitos, a dignidade e as condições de vida de quem trabalha.
Uma calorosa saudação a todos os trabalhadores que ajudaram a fazer esta grande greve geral.
Orlando Gonçalves
Porto, 3 de junho de 2026