10/03/2026
A bruxa acaricia o rosto do monarca e cospe-o
parece-me ouvir o velho comunista rir
mas os cavaleiros afogam o barulho com um barulho maior
unidos demonstram o receio uns dos outros
cada receio anula o outro
e o velho comunista continua a rir
os velhos ícones morrem
e os novos nascem para desaparecer
uma fêmea afaga-se lentamente
o s**o é feito de forma rápida
seus filhos serão novas imagens sagradas
como a santa do manto da cruz
o gatilho dispara sozinho
mas o projétil na câmara não é uma bala
é algo enorme, algo de rocha e chama-se gárgula
é a mãe do meu filho do meio
o tesouro que nunca abracei
quis fazer um boneco num papel de prata
como fazia um policia em perigo iminente
o resultado parece o gárgula depois de beber absinto
fito de novo o rei que parece mais novo mas continua morto
mesmo assim levanta-se
felizmente usa uma máscara, guinevere também
os ombros e os seios estão nus
nu também está lancelot por trás
a olhar e lamentar a carne dum cavaleiro descarnado
a ambição ilude-o enquanto guinevere me fita
ela e artur enganam-me um com o outro
ele velho e ela virgem juram pela verdade
enquanto os cavalos caçam e comem cães vadios
anjos vestem de negro para enganar a cor
um pequeno cachorro pede-me ajuda, ignoro-o
felizmente escapa às montadas carnívoras
e eis que chega linus, o plebeu
forte como um carvalho
lúcido e resistente como poucos
ignora o medo mas sabe o que teme
sofre por outros quando podia esquivar-se
agora tenta proteger os canideos que lhe agradecem fugindo
mesmo assim continua o seu combate
percebo agora que estou às portas do inferno
vou, talvez, conhecer lama e lucieus
vou agora, verdadeiramente, ler o livro
sento-me confortavelmente defronte da lareira com chamas vermelho rubro
acaricio as capas de couro do artefacto
deleito-me, de novo, com o cheiro acre do perfume que me cerca
guinevere, que é sambala, senta-se no meu colo
o enorme peito nu perturba-me a leitura
aliás perturba-me completamente
e sem beber saboreio o hálito inexistente do vodka
sinto a rigidez de suas nádegas e coxas
sinto o amor que ela reserva a artur e lancelot
paixão é prazer e traição
as chamas da lareira alcançam o tapete
toda a sala arde e a chuva entra pelas janelas
a corte reúne-se numa távola angulada
observo mais e mais bobos dirigirem nobres a posar
as damas da corte são simples prostitutas que se exibem
e para isso pagam parte do dinheiro que recebem dos clientes...
tão ricos como estúpidos...
clérigos brincam...
e mentem para poderem continuar a brincar
uns e todos os outros afastam linus que resiste
sempre sozinho com ele próprio e um punhado de amigos
sempre só com a força que nasce da vontade e da honestidade
a chuva não é suficiente, as chamas propagam-se
toda camelot arde
sambala empurra-me e obriga-me a escapar
faz-me correr também sozinho
um corredor, portas atrás de portas
dentro de jaulas estão celas
e no interior estou só eu a fugir
e é lasabam que me faz parar
sento-me defronte de uma lareira com chamas violetas e azuis
abro o livro dos mortos, necronomicon
e vejo lucieus que se avizinha
“- lês-te as ultimas páginas?”- pergunta-me
“- não”- respondo-lhe
“- então continua”- grita-me com voz necrosada,
enquanto se enterra no solo em direção ao paraíso
perdura o seu cheiro e o perfume torna-se mais acre
lasabam agita-me e aponta para o chão manchado de sangue
deita-se e rebola-se no mesmo
e assim, estranhamente bela, levanta-se
sorri-me e caminha para fora do alcance da minha visão
e surge do livro um profeta empunhando uma espada com que escreve:
eu vários deuses adorei
e foi sempre esta lamina que ditou as suas leis
tenho a obediência do lama, a obediência que a força impõe
o respeito de lucieus
um respeito desconfiado, mas mesmo assim respeito
atravesso uma ponte totalmente inútil... para depois voltar para trás
os pregos das sandálias estão espetados nos meus pés
mas não sangro e sofro em silêncio
por isso desprezo os gritos e os lamentos dos que se queixam
assim ignoro-os como os ignoram as leis e as profecias que escrevo:
« se um recém-nascido chora de fome, é porque a mãe não lhe dá leite »
« uma mãe que não alimenta o filho, é porque não o ama... será castigada »
« se um não nascido não chora, é porque não têm motivo...
não haverá castigo nem absolvição »
« as terras secas terão água quando esta chegar »
« a acalmia depois duma catástrofe será seguida de outra »...
“- são estas as leis e profecias que os deuses me ditam e eu escrevo”- lamenta-se
a plateia veste de vermelho e branco
aplaudem o som alto do que escrevo... porque sou obrigado
os membros da galeria são zombies,
comem a carne dos vizinhos, mastigam os ossos
e regurgitam os cabelos loiros e rubros engolindo os pretos e cinza
a cortiça que é pele descasca-se da carne podre como se cozinhada estivesse
um homem, uma cabala, todos juntos numa cábula
cinco mortos fazem um pentagrama, os corpos encaixam
as bruxas existem, a de camelot beija artur e lancelot
os mitos estão vivos nos vossos sonhos
obedeço às leis, acredito nas profecias e nos espíritos sinistros das trevas
estes oferecem uma dor lenta e um paladar continuo do sofrimento eterno
um e outro corpo se levanta
e morgana ergue mais mortos com promessas de redenção
persival também se lhe recusa a taça
os corpos mortos levantam-se com fome
um a um a boca da irmã de artur alimenta
cada beijo de morgana é um bocado de língua mordida e mastigada
é uma seara que arde
é uma pagina perdida e tinta que se esfumou
“- sim conheço-os. por isso talho as profecias e leis com esta espada da lenda”
- baba-se com sangue, o profeta exibindo excalibur.
fecho com força o livro dos mortos e volto a recusar acreditar
viro uma página que não consigo rasgar
não posso devolver o cilindro porque aqui ninguém o aceita
o artefacto puxou a minha realidade para dentro e para fora das capas...
do livro da maldição
maldição porque infinita
infinita porque eterna
eterna porque é uma maldição...
e é uma maldição que está num livro
deito-me de novo
e de novo não adormeço.. .
- M'Piper SalomonConstantin