14/02/2026
Cagliostro oferece-me um charuto, que eu acendo
desconheço de onde surgiu um ou outro, mas não quero saber
para acompanhar o tabaco peço café quente a Perséfone,
também não sei de onde ela surgiu, mas também não quero saber
levanto-me e com eles percorro o caminho destinado
cafeína numa mão, nicotina na outra
ando muito devagar para os acompanhar
Perséfone não é nova e Cagliostro é velho
os trevos desapareceram e agora caminhamos na areia, num mundo de cimento
a água é escassa mas os ácidos abundam
há falta de um, consumimos os dois... com limão
erguem-se agora as trevas para iluminar de preto roxo um mundo já escuro
este espaço é tão negro que cega com um raio de luz quem tem olhos
este espaço é tão vazio que esmaga quem tem sentidos
felizmente que o tempo parou há muitos dias, ou poucos minutos atrás
sei que tudo isto é verdade ao levantar-me
dos corpos caídos de Perséfone e Cagliostro...
um sob o outro e o outro sobre o primeiro
tento não os acordar da morte e afasto-me deles
penso no que perdi porque não vou mais ter,
recordo o que esqueci porque já não me lembro das memórias que tive,
ou das experiencias que vivi,
de novo concentro-me no fim do caminho
e não no caminho para o fim
como outros o fizeram,
talvez não percorressem este trilho...
e se o fizeram morreram.
espero que sós, que não tenham assassinado ninguém
passou o efeito do acido, Perséfone acorda-me outra vez
e outra vez jovem, com poucos séculos
diz-me que Cagliostro se foi embora
dá-me café quente, ovos escalfados e faz s**o comigo
toda a roupa da cama, o meu pijama e a lingerie que enverga é branco pérola
os lençóis que tapam todas as sete paredes são tão pretos como a pérola negra
vou incendiar tudo quando me for embora...
mas entretanto aprecio o s**o com Perséfone que ainda não terminou...
no fim mais café e ci****os, o ultimo uso para acender todo o linho e seda que encontro
detesto o preto e o branco e ainda mais desbotados os dois...
tudo arde, arde tudo, quando eu por fim caminho, sozinho, em direção ao meu, e todo o destino
segues-me até me abandonares, como sempre será...
não foi um momento, que já esqueci,
e tu não mo recordas, com razão para isso não o fazes
porque sabes que não receio mais do que o desconhecer o que fiz...
quando depois de me levantar da tua cama, me tento recordar...
se fiz s**o ou amor?
contigo nunca retenho lembranças, nem memórias
descanso no colo de uma mulher tão fria como se um réptil fosse.
e é... mesmo assim aquece-me,
seu corpo gelado é mais quente que o meu
o frio que quis esquecer não pára de me perturbar,
mas também não me deixa enlouquecer...
mais...
porque mais doido não posso ser
uma camisa enorme amarra-me à cama
duas mulheres, uma com duas cabeças, alimentam-me
mas a carne de porco está quase crua, e a de vaca demasiado passada...
não fosse o gin, os antieméticos, os diuréticos, os laxantes...eu não digeria carne crua
os legumes: moem-nos e secam-nos, depois dão-nos a fumar
inebriado pelo tabaco deixo que uma delas me toque o s**o
mastigo grãos de café e custo-os...
peço água a ferver para os aquecer
sexuo com duas mulheres, uma delas excecional
qual é delas não sei, mas também não quero abrir os olhos
nem elas, porque são cegas
um pássaro bate no vidro da janela, que está aberta...
a lamentar vem, para morrer no meu colo
o estupido pássaro ferido esqueceu o ninho onde nasceu
esborrachasse-se num vidro que não existe
e deita-se em mim para eu o eutanasiar
para David Hume o suicídio era uma solução válida
para mim a eutanásia é uma opção cientifica, e mais humana
se não for usada desumanamente por estados totalitários,
pela banca capitalista,
ou por companhias de seguros...
o derradeiro objetivo da vida é morrer
e que os que ficam saibam assistir
se chorarem lamentam-se a si e não derramam sucos por aquele que partiu para o Oriente Eterno
quando a água escassear ninguém: vai mais; mais vai, desperdiçar líquidos pelos que faleceram...
porque se o fizerem os mortos: despertam, levantam-se e perseguem-nos até os descarnarem
para aproveitarem o sangue da carne...
e a água do sangue...
para se purificarem...
para mitigar a dor de estar morto
estado irrevogável...
expecto no caso do ministro que como lázaros julgava estar morto e não estava
tão irrevogável como o corpo que se levantou ao terceiro dia e desapareceu,
mas este continuou, um patamar acima...
e palmilhou por cima do destino daqueles que nele acreditaram,
e nas esperanças de todos os que o, irrevogavelmente mentiroso, enganou de novo
... de novo, porque não foi a primeira, nem segunda vez.
... ...
- M'Piper SalomonConstantin