Redenção

Redenção Gosto muito de História
Mas não gosto da História que conheço
- Macedo Martins

A DUVIDA É UMA DIVIDA.. .Mas a divida mantêm-se – reconheço-o e continuo a jogara mulher cega de enormes seios e vestido...
02/08/2026

A DUVIDA É UMA DIVIDA.. .
Mas a divida mantêm-se – reconheço-o e continuo a jogar
a mulher cega de enormes seios e vestido vermelho segura-me as mãos
as minhas mãos que tremem pelo desespero
a minha ignorância aqui vale tanto como as saídas que não sei onde encontrar
as minhas mãos param de tremer ao sentir os seus lábios no meu pescoço
é agora mais fácil ganhar um único jogo que seja
os comprimidos fazem efeito
a massagem também
relaxado enfrento os oponentes desta mesa pé de galo
a minha arrogância faz-me ganhar com um jogo fraco
liberto de dividas levanto-me
cagliostro abre-me uma porta que nunca vi
e imediatamente saio
directamente para o mesmo sitio de onde saí
mas agora têm todos um aspecto medonho
procuro um balcão mas só encontro cadeiras vazias
o ar é amarelado
não se vê nem se sente o fumo dos ci****os mas sim os vapores das bebidas
com muito ou pouco álcool
muita ou pouca cafeína
muita ou pouca nicotina
as cadeiras no balcão que não existe estão ocupadas por gente que me espera
francis, merrin e damien
no tempo se que passou as garrafas de puro álcool criaram fungos
os charutos tornaram-se galhos.. e as mulheres envelheceram
sem receio sento-me agora com aquilo que sei ser o meu futuro
os três homens de hábitos pretos riem-se a contar anedotas trovadoresco satanás e todos os três exorcistas
que bebem mais álcool
como se este ainda existisse sem cogumelos
sabem todos o que querem mas não mo dizem
disse-mo uma velha que à minha frente reduziu a idade
foi depois de dela me tornar intimo
que um atrás do outro tentaram o exorcismo
no fim continuei intimo dela
e eles agnósticos
um deles, pelo menos, até ateu, atrevo-me a dizer
neste momento pacifico entram as vacas
segundo as próprias são sagradas
penso e concluo... que talvez a religião não seja aquilo que os crédulos acreditam
não com o mesmo valor
não neste salão em que a poltrona é macia
e o whisky é velho
mais velho do que eu.. .
- M'Piper SalomonConstantin

Entro num táxi, o condutor chama-se serpicosinto, de novo o destino… e a musica que vêm da cave:70-68, os ruídos do infe...
16/07/2026

Entro num táxi, o condutor chama-se serpico
sinto, de novo o destino… e a musica que vêm da cave:
70-68, os ruídos do inferno sabem a vinho-velho
70-68, o frio queima e cega
70-68, só não se sofre muito cedendo ao vício
28-0, para ultrapassar a tentação é necessário primeiro desistir
28-0, só se evita a sombra na escuridão
28-0, a morte é o destino
28-0, os mandamentos são para esquecer
68-69, eu resisto a tudo, menos as tentações
68-69, os desafios existem para serem vencidos
68-69, as provas são para ser ultrapassadas
28-0, a evidência é verdadeira até ao facto que a desmente
70-68, as leis escrevem-se para serem corrigidas
70-68, o direito nasceu para ser desafiado
70-68, se uma cortesã for roliça e bonita, por pouco dinheiro eu me vendo
70-68, só o grande engenheiro sabe mais do que o escriba, por isso dita
70-68, o grande engenheiro não lê… nem escreve…
seguro-me nestes pensamentos até que acordo para adormecer…
duas vezes, e como a he***na não perdoa; vezes dois… outra vez duas vezes… … …
uma, ou duas voltas depois… talvez duas vezes… outra vez duas vezes… … …
serpico, o condutor do táxi deixa-me numa rua iluminada de negro
pago-lhe com dinheiro que não é meu
sorrio e os meus dentes vêem-se por fora da boca, diz-me um espelho sincero.. .
- M'Piper SalomonConstantin

Para quem acredita num deus qualquer.. .,,, Para todos os crentes,,,SOU EU O PAI DE DEUSSOU EU O MEU FILHOtalvez alguém ...
06/07/2026

Para quem acredita num deus qualquer.. .
,,, Para todos os crentes,,,
SOU EU O PAI DE DEUS
SOU EU O MEU FILHO
talvez alguém acredite nos embustes do embusteiro!
as mulheres não me creem mas acreditam no batizado
como, assim, os filhos por nascer julgam sentir a união dos progenitores
o minotauro lembra-se do touro mas não sabe se ele é o pai
sabe sim que a vaca é a mãe
caminha, de quatro, no bosque
levanta-se e trepa a uma enorme macieira-carnívora para se alimentar e falecer
consegue o primeiro objetivo, e também o segundo,
adormece e perde todos os sentidos num tronco alto e enorme
… como se de um leopardo bem alimentado se tratasse…
galhos e arbustos espreguiçam-se, maçãs caem na cabeça da fera
as lianas são massagistas e as raízes calistas
a besta bovino sente-se feliz e lentamente morre
devagar a árvore alimenta-se dele…
e, parcialmente, visto-me com a pele que ele deixou
roubo-lhe também os sapatos
calçado caminho de facto descalço
sou agora um símio vestido de fato e gravata
parece-me ver fêmeas ao longe e para lá me dirijo
as mulheres estão nuas e aquecem-se numa enorme fogueira
muita gordura escorre da pele dum preguiçoso panda -gigante
alimentam-se assim as chamas como se de enormes velas se tratassem
a luz intermitente perece constante aos olhos sem lentes
as raparigas parecem dançar à espera
se o varão não existisse eu inventava-o
o couro que eu visto é vegetal, mas elas são vegetarianas
adormeço e acordo nu mas amarrado,
com meio-corpo frio e o outro muito quente
uma enorme besta-loira-platinada espalha-me unguento em todo o corpo
parte dele não necessita porque não está queimado
mas a parte que está precisa
a grande ruça-mamuda-albina unge-me agora com a boca
e eu deixo-me estar… por estar satisfeito
o meu animal-bestial não me quer deixar esquecer de mim
mas eu ignoro-o por num bazar em belazar
e os bazares em belazar são únicos
porque belazar é a única verdadeira cidade urbana que não possui motores
a energia surge do cheiro, da musica e de todas as cores que se ouvem
aqui vejo perfeitamente os sons da cave e o aroma do café-preto, belazar no bazar,
nicotina e cafeína… no bazar sinto belazar e em belazar, zanzibar… a origem do homem
aprecio os dedos finos que me ignoram a pele e tocam diretamente a minha carne
é a filha que maomé não reconhece
deus morre comigo…
porque está sozinho…
não acredito no destino… …
belazar é a filha do profeta
prostitui-se para ser aceite
… ou pelo menos reconhecida
troca a bela e seca carne por vil metal
as frutas fermentam e choram quando dela se recordam
… e as flores murcham por se lembrarem
fornico agora a filha de deus num jardim de paz
reconheço este deus como se numa sinagoga ou mesquita estivesse
porque esta divindade não têm filhos bastardos,
nem um, nem o outro
como a maria que enganou o josé
disse-lhe ser mãe virgem, e ele acreditou
a crença tornou-se um ícone
e a criança filho de deus.. .
- M'Piper SalomonConstantin

SENTIR A SOLIDÃO QUANDO SÓZINHO ESTOU SÓQuando era novo achava que estava abandonadoComo jovem sentia-me sem destinoDepo...
02/06/2026

SENTIR A SOLIDÃO QUANDO SÓZINHO ESTOU SÓ
Quando era novo achava que estava abandonado
Como jovem sentia-me sem destino
Depois como adulto aceitei a partilha
E agora percebo, como percebo o destino
M.PIPER

Sentado sozinho no deserto, saboreio o vazio da vidabebo água-ardente gelada, servida por criado fantasma.. .Sobrevoam-m...
21/05/2026

Sentado sozinho no deserto, saboreio o vazio da vida
bebo água-ardente gelada, servida por criado fantasma.. .
Sobrevoam-me anjos pálidos
perturbados pelo cheiro acre que exalo
observo o fumo do meu cigarro
observo o lagarto que se aproxima
para e canta a musica de uma balada antiga
rasga as paginas de uma revista e afasta-se
o calor incomoda-me, peço mais cerveja
interrompo a refeição do mudo criado fantasma
que me diz tudo o que quero ouvir
a acender outro cigarro deixo cair os fósforos
ao apanhá-los engasgo-me com o fumo
mas apanho-os na mesma e não deixo de fumar
nem de beber
nem de estar só, a fartar-me da solidão
penso na minha incompetência e gracejo comigo sobre ela
observo páginas soltas da revista rasgada
são nus de lagartos-fêmeas
levanto-me
monto o dromedário que me empresta o cheiro
que perturba os anjos
que assim não se aproximam
não lhes distingo credo nem s**o
nem me interesso
concentro-me no caminho
que reconheço sem nunca o ter percorrido
chego à povoação
vejo crianças a brincar
fazem uma roda
masturbam-se com o símbolo fétido dum deus
saltam e gritam como doidos
doidos em que se tornaram quando nasceram
procuram as vísceras que só existem nas mentes
adoram os apêndices podres que saem dos ícones sagrados
os anjos olham fixamente as crianças a brincar
não se aproximam apesar delas não terem cheiro
nem nada que as distinga das outras
concluo que os anjos não se aproximam de crianças
arranco pelo ao dromedário que me transporta
e assim faço-o seguir o meu caminho, que ele escolheu
entro de novo sem saber no deserto que nunca acaba
lamentarei até ao fim do trilho, desde que este seja curto
o velho que falava da força da terra já não sabe do que fala
nada, nem ninguém, explica o que se passa
o rio corre até à barragem
apraz-me a musica que ouço, mas não a escrevi
os anjos seguem-lhe o ritmo, apesar de não a ouvirem
tudo é tão efémero que qualquer realidade é duvidosa
eternamente é éter na mente
passadas uma ou duas horas, um ou dois dias, dez ou vinte anos
o dromedário pára perante fêmeas nuas
mulheres que param de fazer o que faziam...
ao avistar-nos sorriem e formam uma fila
a primeira é muito bela, por isso ignoro-a
a ultima é feia, faz-me lembrar um amigo morto,
por isso forço a montada a seguir o meu caminho
caminho que desconheço, desprezo e sigo
os anjos seguem-me, bastava só isso para os detestar
sigo o caminho do dromedário morto
a pensar que muitos já imaginaram qual é o termino do trilho que percorremos
continuámos,
eu e a minha montada sentimos a carne a afastar-se dos ossos
continuamos a sentir a revolta duma criança com fome
continuámos
pensámos num órfão que se alimentou dos pais, e perdoámos
continuámos
os anjos riem-se da carne que apodreceu e do sangue que gelou
afastam de mim e do dromedário a água e a ilusão
querem-nos ver continuar o caminho paralelo aquele que...
todos os que se dizem humanos... percorrem
tento recuar perante a força do destino
sinto sorrir todos os que sucumbiram
forço a montada a seguir o meu caminho
espanto-me quando ela segue o atalho já traçado e discretamente acentuado
aponta para o vórtice, que intimamente desejo, para que tudo acabe
imagens de velhos, cegos e simples cérebros misturam-se
as formas mesclam-se em seios, ombros e lábios
quero que parem
e param quando menos desejo
já aceitava o fim
quando me encontro de novo nas costas da minha montada.. .
- M'Piper SalomonConstantin

Desejo o grande continente do sul.. mas quando angola não chega é como a américa que sonhoum desejo de muito tempoque ap...
01/04/2026

Desejo o grande continente do sul.. mas quando angola não chega
é como a américa que sonho
um desejo de muito tempo
que apenas consigo iludir e não esquecer
para lá do oceano da morte imagino-te
rasgo o meu intimo
a tentar descobrir onde estás
que é aonde quero existir
e de onde quero fugir
américa, no intimo da minha mente
és e sempre serás a ultima imagem da solidão
américa desejo-te sem me cansar
exausto com o sonho de a ti chegar
podia trocar áfrica por ásia se as conhecesse
mas se na europa está o berço da minha civilização
a américa é a minha ultima tentação
vou morrer pobre e só
preocupa-me a solidão não a pobreza
detestava a ansiedade
agora odeio a angustia
e é assim que me entretenho
passo o tempo a traçar linhas de países e continentes
os que conheço e os que imagino
sem conhecer o que o tempo me reserva
a minha ultima ilusão deseja-te
nada troque aquela imagem
que a morte de mim espera
com o que por ti anseio.. .
- M'Piper SalomonConstantin

A DESCIDA AO INFERNOContinuo a viajar pelo espaço e pelo tempojá cansado, retiro a seringa e a borracha do braço e deixo...
25/03/2026

A DESCIDA AO INFERNO
Continuo a viajar pelo espaço e pelo tempo
já cansado, retiro a seringa e a borracha do braço e deixo-me adormecer
acordo num absoluto deserto de areia vermelha, debaixo de um sol abrasador
devagar levanto-me, visto-me, calço-me, coloco os óculos de sol e ajusto o relógio ao pulso
estou pronto para percorrer os túneis basálticos que me esperam sob a areia vermelha
sinto a florescência a aumentar… ao avançar…
a temperatura desce…
mais luz e menos calor perturba-me os sentidos
sento-me numa poltrona de pedra preta
duas sereias aproximam-se para me satisfazerem desejos íntimos
secretos segredos que possuo há muito…
uma acende-me o cohiba e a outra gela-me o vodka…
muitos séculos depois ergo-me, para me voltar a sentar e agora disposto a ouvir conselhos
mas só sinto um cobertor, um cachecol e um empurrão para baixo
assim desço por lisas escadas de pedra… até ao inferno…
aqui o café é sempre quente e os ci****os não se pagam nem se apagam
as doenças venéreas não são sexualmente transmissíveis,
aqui não se vêm crianças com fome ou velhos sem teto,
nem sequer animais abandonados…
é só o frio…
só o frio…
por isso, as sereias, antes de me empurrarem cobriram-me com um cobertor e ofereceram-me um cachecol
sou um só espírito, mas muitos pecados acompanham-me
o purgatório era uma macia poltrona de basalto,
aonde eu fumava e bebia, com sereias
mas o inferno não é, nem escuro nem quente
é tão claro que cega todos os sentidos
totalmente branco e completamente gelado…
o vazio é tão grande que só recordo o desejo de esquecer
e jamais me lembro de o fazer.. .
- M'Piper SalomonConstantin

A bruxa acaricia o rosto do monarca e cospe-oparece-me ouvir o velho comunista rirmas os cavaleiros afogam o barulho com...
10/03/2026

A bruxa acaricia o rosto do monarca e cospe-o
parece-me ouvir o velho comunista rir
mas os cavaleiros afogam o barulho com um barulho maior
unidos demonstram o receio uns dos outros
cada receio anula o outro
e o velho comunista continua a rir
os velhos ícones morrem
e os novos nascem para desaparecer
uma fêmea afaga-se lentamente
o s**o é feito de forma rápida
seus filhos serão novas imagens sagradas
como a santa do manto da cruz
o gatilho dispara sozinho
mas o projétil na câmara não é uma bala
é algo enorme, algo de rocha e chama-se gárgula
é a mãe do meu filho do meio
o tesouro que nunca abracei
quis fazer um boneco num papel de prata
como fazia um policia em perigo iminente
o resultado parece o gárgula depois de beber absinto
fito de novo o rei que parece mais novo mas continua morto
mesmo assim levanta-se
felizmente usa uma máscara, guinevere também
os ombros e os seios estão nus
nu também está lancelot por trás
a olhar e lamentar a carne dum cavaleiro descarnado
a ambição ilude-o enquanto guinevere me fita
ela e artur enganam-me um com o outro
ele velho e ela virgem juram pela verdade
enquanto os cavalos caçam e comem cães vadios
anjos vestem de negro para enganar a cor
um pequeno cachorro pede-me ajuda, ignoro-o
felizmente escapa às montadas carnívoras
e eis que chega linus, o plebeu
forte como um carvalho
lúcido e resistente como poucos
ignora o medo mas sabe o que teme
sofre por outros quando podia esquivar-se
agora tenta proteger os canideos que lhe agradecem fugindo
mesmo assim continua o seu combate
percebo agora que estou às portas do inferno
vou, talvez, conhecer lama e lucieus
vou agora, verdadeiramente, ler o livro
sento-me confortavelmente defronte da lareira com chamas vermelho rubro
acaricio as capas de couro do artefacto
deleito-me, de novo, com o cheiro acre do perfume que me cerca
guinevere, que é sambala, senta-se no meu colo
o enorme peito nu perturba-me a leitura
aliás perturba-me completamente
e sem beber saboreio o hálito inexistente do vodka
sinto a rigidez de suas nádegas e coxas
sinto o amor que ela reserva a artur e lancelot
paixão é prazer e traição
as chamas da lareira alcançam o tapete
toda a sala arde e a chuva entra pelas janelas
a corte reúne-se numa távola angulada
observo mais e mais bobos dirigirem nobres a posar
as damas da corte são simples prostitutas que se exibem
e para isso pagam parte do dinheiro que recebem dos clientes...
tão ricos como estúpidos...
clérigos brincam...
e mentem para poderem continuar a brincar
uns e todos os outros afastam linus que resiste
sempre sozinho com ele próprio e um punhado de amigos
sempre só com a força que nasce da vontade e da honestidade
a chuva não é suficiente, as chamas propagam-se
toda camelot arde
sambala empurra-me e obriga-me a escapar
faz-me correr também sozinho
um corredor, portas atrás de portas
dentro de jaulas estão celas
e no interior estou só eu a fugir
e é lasabam que me faz parar
sento-me defronte de uma lareira com chamas violetas e azuis
abro o livro dos mortos, necronomicon
e vejo lucieus que se avizinha
“- lês-te as ultimas páginas?”- pergunta-me
“- não”- respondo-lhe
“- então continua”- grita-me com voz necrosada,
enquanto se enterra no solo em direção ao paraíso
perdura o seu cheiro e o perfume torna-se mais acre
lasabam agita-me e aponta para o chão manchado de sangue
deita-se e rebola-se no mesmo
e assim, estranhamente bela, levanta-se
sorri-me e caminha para fora do alcance da minha visão
e surge do livro um profeta empunhando uma espada com que escreve:
eu vários deuses adorei
e foi sempre esta lamina que ditou as suas leis
tenho a obediência do lama, a obediência que a força impõe
o respeito de lucieus
um respeito desconfiado, mas mesmo assim respeito
atravesso uma ponte totalmente inútil... para depois voltar para trás
os pregos das sandálias estão espetados nos meus pés
mas não sangro e sofro em silêncio
por isso desprezo os gritos e os lamentos dos que se queixam
assim ignoro-os como os ignoram as leis e as profecias que escrevo:
« se um recém-nascido chora de fome, é porque a mãe não lhe dá leite »
« uma mãe que não alimenta o filho, é porque não o ama... será castigada »
« se um não nascido não chora, é porque não têm motivo...
não haverá castigo nem absolvição »
« as terras secas terão água quando esta chegar »
« a acalmia depois duma catástrofe será seguida de outra »...
“- são estas as leis e profecias que os deuses me ditam e eu escrevo”- lamenta-se
a plateia veste de vermelho e branco
aplaudem o som alto do que escrevo... porque sou obrigado
os membros da galeria são zombies,
comem a carne dos vizinhos, mastigam os ossos
e regurgitam os cabelos loiros e rubros engolindo os pretos e cinza
a cortiça que é pele descasca-se da carne podre como se cozinhada estivesse
um homem, uma cabala, todos juntos numa cábula
cinco mortos fazem um pentagrama, os corpos encaixam
as bruxas existem, a de camelot beija artur e lancelot
os mitos estão vivos nos vossos sonhos
obedeço às leis, acredito nas profecias e nos espíritos sinistros das trevas
estes oferecem uma dor lenta e um paladar continuo do sofrimento eterno
um e outro corpo se levanta
e morgana ergue mais mortos com promessas de redenção
persival também se lhe recusa a taça
os corpos mortos levantam-se com fome
um a um a boca da irmã de artur alimenta
cada beijo de morgana é um bocado de língua mordida e mastigada
é uma seara que arde
é uma pagina perdida e tinta que se esfumou
“- sim conheço-os. por isso talho as profecias e leis com esta espada da lenda”
- baba-se com sangue, o profeta exibindo excalibur.
fecho com força o livro dos mortos e volto a recusar acreditar
viro uma página que não consigo rasgar
não posso devolver o cilindro porque aqui ninguém o aceita
o artefacto puxou a minha realidade para dentro e para fora das capas...
do livro da maldição
maldição porque infinita
infinita porque eterna
eterna porque é uma maldição...
e é uma maldição que está num livro
deito-me de novo
e de novo não adormeço.. .
- M'Piper SalomonConstantin

Perdi toda a sensibilidadeQuando fui batizado.Todo o meu corpo ardeuNo contacto coma a água bentaA igreja incendiouTodos...
05/03/2026

Perdi toda a sensibilidade
Quando fui batizado.
Todo o meu corpo ardeu
No contacto coma a água benta
A igreja incendiou
Todos os presentes incineraram
E eu saí pelo meu pé.. .
- M'Piper SalomonConstantin

Interlúdio.Começo a suspeitar que desejo a mortee receio a ideiamas não existem muitas saídasvivo no espaço vazio que me...
19/02/2026

Interlúdio.
Começo a suspeitar que desejo a morte
e receio a ideia
mas não existem muitas saídas
vivo no espaço vazio que me preenche
encontro-me do outro lado da satisfação
é impossível uma certeza maior que o fim
o meu objetivo pode-me dar tudo
mas este, receio eu, é incansável
pelo menos para mim
e eu não me contento com menos
vivo no receio de dizer disparates, provocar acidentes, fazer o mal
odeio-me pela indecisão que me torna ambíguo mesmo perante mim
e riu-me da insegurança que me deixa parecer calmo,
forte e correto
nas atitudes e decisões que nem sei como se tomam
como decidir se tomar toda a caixa de comprimidos
ou cortar os pulsos na banheira cheia de água quente
vou para casa tomar um comprimido e amanhã banho-me na água quente
todo o poder da destruição total manifesta-se até ao fim dos nossos dias
um cão moribundo pede-me de comer, forço-me a ignorá-lo
como desconheço as crianças que imploram o que necessitam
a carne preta dos mortos incomoda-me
porque não tem o direito de reclamar o que originalmente lhe pertenceu
todas as alunas se perdem, uma a uma se perdem
entre mesquinha imagem de pureza qualquer aluna se suja e se vende
todos nós nos rendemos ao ritmo da moda
a desgraça diverte-se ao vencer-nos
uma a uma todas as almas se perdem
todas as depressões se reestruturam com os remédios certos
e os mortos aliam-se aos não nascidos
os golfinhos continuam a transportar grifos
o desespero continua a chamar a morte.. .
- M'Piper SalomonConstantin

Endereço

Rua De Pinto Bessa
Porto
4300-427PORTO

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