05/11/2023
PARA APRENDER UMBANDA É NECESSÁRIO CONHECER UMBANDA.
Por Pai Jordam de Oxóssi.
Já escrevi neste espaço sobre a Umbanda, já expliquei sobre ritos, mas nestes dias resolvi fazer diferente, vou começar uma série de textos de reflexões e ensinamentos sobre a religião, com foco em conhecer e falar sobre ela antes de praticar, pois não existe prática sem conhecimento, e o que vão ler aqui são estudos feitos por mim, e uma visão daquilo em que eu acredito como religião e vertente a qual professo minha fé.
Iniciando nossa caminhada, existem vários estudiosos, pesquisadores, sacerdotes escrevendo e falando sobre Umbanda, a literatura é vasta, mas sempre com foco na vertente as quais cada um pertence, mas existem várias visões sobre a Umbanda, principalmente no sentido em que ela começou antes mesmo da sua criação, e aqui neste espaço você vai ver um texto meu falando do surgimento da Umbanda Traçada antes mesmo do seu anuncio.
Entendemos que o tema é polêmico, pois se trata da institucionalização da Umbanda por Zélio de Moraes, porém práticas semelhantes já existiam antes de 1908, um desses exemplos é o CALUNDU, no período colonial escravagista, que em seu culto observamos elementos do sincretismo culto africano, indígena, e espiritismo europeu.
Apesar de parecer sem cabimento, os relatos dos cultos similares ao de Umbanda, estão registrados e pesquisados, devemos ter essa percepção de que desprezar os fatos históricos dessas práticas e não associar a religião deixa uma grande lacuna aberta, e também abre um campo desconsiderando tudo o que foi feito antes no período exploratório, colonial e escravagista, e posteriormente com a catequização impositiva dos senhores sobre os escravos, assim se já no período de 1720 aqui no Brasil havia culto com elementos negros, indígenas e portugueses, e que esses cultos eram voltados para todas as pessoas, onde se realizava curas, limpezas espirituais, danças, e manifestações de espíritos ancestrais, assim não poderíamos afirmar que a Umbanda nasceu em 1908.
Zélio Fernandino de Moraes tem papel fundamental para Umbanda, mesmo com todos indícios históricos, devemos enxergar que os cultos sincréticos, não tinham uma sistematização, nem mesmo era definido como uma religião, assim entendo que o enunciado do Caboclo da Sete Encruzilhadas, vem organizando esse sincretismo em uma religião, não embranquecendo mas onde nela caberia tudo dentro, e aceitando desde as divindades, quanto os espíritos que vinham com a missão de ajudar as pessoas necessitadas indistintamente. Assim como Zélio está totalmente vinculado à história da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e da Umbanda. Passando pela sua doença aos 17 anos até a manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas e a fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade que estão devidamente registrados em quase toda literatura que trata da Umbanda.
Em sua atividade religiosa, ele fundou: Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e as Tendas de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Guia, Santa Bárbara, São Pedro, São Jorge, São Jerônimo e Oxalá, e teve papel fundamental na fundação da Federação Espiritista de Umbanda, hoje União Espiritista de Umbanda do Brasil, onde trabalhou duro para a implantação e aceitação dos trabalhos dos Caboclos e Pretos Velhos na sociedade do início do século XX, por isso não devemos desmerecer os feitos dele, e muito menos contestar que foi a partir dele e não de outros que vieram antes, que nasceu uma religião onde cabia e vem cabendo um conjunto de práticas religiosas sincréticas que chamamos de Umbanda.
Com seus feitos e sua história f**a muito difícil não preterir a ele o patronato da nossa religião e dar a merecida importância, como também não podemos desmerecer todas práticas religiosas anteriores a fundação da Umbanda. Contudo, o próprio Zélio de Moraes dizia dos através dos ensinamentos trazidos do Caboclo das Sete Encruzilhadas, tais feitos não são importantes em sua passagem pela Terra. Mas que todos entendessem, que a Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade e que a humildade é a forma mais sublime da prática do Evangelho do Cristo e, portanto, para praticar ao amor ao próximo.
Por outro lado, Zélio de Moraes vem sendo revisto e criticado por pesquisadores contemporâneos da Umbanda. Por atribuir a ele ser o precursor da Umbanda e por trazer como resultado um processo de embranquecimento religioso negando que a umbanda já vinha sendo praticada por negros escravizados da África e seus descendentes nas senzalas e posteriormente nas regiões do Brasil, consequentemente entregando primazia da religião afrobrasileira a um homem branco.
Faço aqui uma observação importante, os escravos não praticavam Umbanda e sim culto aos orixás, divindades que com a imposição de Portugal, catequizavam esses escravos, que passaram a sincretizar os orixás para que não sofressem punições dos senhores de escravos, à partir das formações dos quilombos e da fuga dos escravos para outras regiões, a mistura religiosa passa ganhar formas parecidas com a Umbanda.
Não podemos desconsiderar a história antes de Zélio, mas não podemos negar que todos os cultos surgidos depois da criação do Candomblé nas senzalas, nada foi sistematizado e organizado como religião, o que incomoda muitos pesquisadores hoje, e eu mesmo defendo que a Umbanda começou antes de Zélio, porém entendo também que eram cultos com muito mais mescla entre o índio e os cultos de orixá, do que com o que vemos como religião, tirando certas particularidades regionais, mas hoje defendem que Zélio como fundador da umbanda é questionável.
O embranquecimento da umbanda atribuído a ele, é uma forma de não aceitar que mesmo sincretizada a religião que podemos chamar de nossa ou genuinamente brasileira tem uma mistura indígena, negra, católica, kardecista, e com o passar dos tempos esotérica até com exageros. Ele é importante para umbanda independente do contexto histórico, e vou além independente de ter atribuído a ele a fundação da nossa religião, haja visto que todas as religiões de ligação espiritualista tiveram mais registros entre os séculos XIV e XX.
Temos que ter clareza que Zélio é a representação de uma construção histórica religiosa, e não pode ser tratado como uma fraude, e muito menos como o embranquecedor de uma religião que até então nem existia nos moldes de como ela se deu e segue aos dias de hoje. A Umbanda não tem cor, ela tem uma identidade, que contempla múltiplas religiosidades, ritos e fundamentos dentro dela, porém antes dele ninguém se pronunciou dizendo que ela tem que ser preta, amarela, indígena enfim não houve ninguém para dar um rumo para essa grande colcha de retalhos.
A Umbanda que tem Zélio como fundador, tem entre os pesquisadores uma conotação sócio-política entrelaçando ela ao espiritismo, o que não é uma verdade, pois o fato das linhas e entidades diversas, as práticas com ervas, rezas, os sistemas naturais onde são feitos os trabalhos, vem desta descendência religiosa africana. Mas há diversos autores não se sentem contemplados, pois precisam de uma narrativa de resistência das etinias africanas dentro da Umbanda, mas são muitos desses mesmos autores que deturparam os orixás na religião como se fossem uns na religião africana e outros na Umbanda.
A maioria dos pesquisadores, buscam descontruir a imagem de Zélio, buscando na etimologia da própria palavra umbanda, que tem origem no dialeto da África Central quimbundo ou umbundo que signif**a: “arte ou maneira de curar".
Mesmo existindo há muito tempo e sendo uma prática medicinal e espiritual feita por um sacerdote tribal, não signif**a que era uma prática religiosa, mesmo praticado por centro-africanos desde muito tempo atrás.
A Umbanda como conhecemos é questionada para se reparar um período histórico deste país querendo justif**ar dentro de uma religião sincrética os problemas do país e suas relações sociais, o que não é verdade, pois esses problemas nos acompanham desde nossa colonização.
Não se pode atribuir à Zélio ter usado como privilégio a religião como democracia racial, e consolidando a descaracterização das divindades, dos orixás, dos espíritos.
Por que um caboclo, não pode ser um branco? O que justif**a uma pessoa desencarnar e escolher uma nova roupagem fluídica para cumprir sua missão? Onde está escrito que um preto-velho não pode ter sido uma pessoa estudada, ou um índio ou até mesmo um carrasco?.
Em um período da nossa história, os cultos eram difundidos apenas aos oprimidos pela escravatura, depois aos alforriados, aos esquecidos socialmente ou aos que vivam e regiões longes dos centros povoados, depois do advento da Umbanda todos cabiam dentro dela indistintamente, isso não é fazer reparo nenhum na história, mas sim colocar dentro de uma religião elementos onde as pessoas se identif**assem. Por outro lado, ninguém pode apagar e a cultura dos africanos pois o culto de orixá permanece vivo com o Candomblé, da mesma forma que o Tambor, a Cabula, Jurema, o Xangô, a Macumba carioca, que parte delas ou se fundiram ou agregaram a religião chamada Umbanda.
Aqui dou início como primeira parte do nosso estudo e na próxima semana postarei a continuação deste estudo.
Abraços Fraternais.