01/06/2026
A crónica da nossa psicóloga Maria Bagorro
A Infância Que Não Merece Ser Esquecida
No dia 1 de junho comemora-se o Dia Mundial da Criança. Um dia que, para muitos, f**a marcado por brincadeiras, sorrisos e muitas gargalhadas (e ainda bem!). Um dia que nos relembra também o que idealmente a infância deveria ser: um espaço seguro onde existe tempo para crescer sem pressas e com liberdade.
No entanto, existem outras realidades. Existem crianças cuja infância se desenvolve entre corredores de hospitais, tratamentos, cirurgias e dores que ultrapassam a dor física mas acabam por permanecer silenciadas.
O cancro entra na vida de uma criança de forma abrupta. Rapidamente, surgem novos conceitos, novas rotinas (desconhecidas até então) e um corpo que deixa de ser tão responsivo como pudera ser anteriormente. O hospital torna-se um dos protagonistas principais no dia-a-dia da criança e a sua infância passa a coexistir com exames, internamentos, medicação e tratamentos.
E é neste ritmo que emerge um dos desafios que eu considero dos mais marcantes no cancro pediátrico: olhar para a criança para além da doença, preservar a sua infância. Porque, para além do diagnóstico, continuam a existir fantasias, brincadeiras, desejos, sonhos, imaginação, receios, birras que merecem ser acolhidos.
Embora o diagnóstico, muitas das vezes, ocupe maior parte do espaço, fazendo parecer que tudo à volta desaparece, é de extrema importância olharmos para a criança para além da doença. Escutá-la para além dos sintomas. Questionar-lhe não apenas onde dói mas como se está a sentir num todo, o que gosta de fazer, que sonhos gostaria de realizar, o que a faz rir, o que gosta de ouvir, ver, ler… No fundo, importa fazê-la sentir-se segura, confortável e reconhecê-la para além do diagnóstico, dar-lhe um espaço onde possa ser vista para além da paciente.
E o Dia da Criança também se torna importante para nos (re)lembrar disto: existem crianças em contextos desafiantes mas que merecem continuar a ser vistas como tal com o seu devido espaço, tempo, dignidade e humanidade.
Cuidar de uma criança com cancro não é apenas tratar a doença. É garantir que, mesmo no meio dela, a infância não merece (nem devia poder) ser esquecida.
Maria Bagorro - Psicóloga