19/06/2026
Texto 100% real, 100% desolador... porque um dia esse "alguém" não vai conseguir tratar, não vai conseguir salvar.
ALGUÉM HÁ DE TRATAR
Existe uma expressão que aparece com frequência sempre que surge um animal em dificuldades: “alguém há de tratar”.
É uma frase confortável. Permite reconhecer que existe um problema sem sentir a obrigação de lhe pegar. Permite acreditar que, algures, existirá uma pessoa ou uma associação com mais tempo, mais recursos ou mais disponibilidade para resolver aquilo que acabámos de ver.
Tanto pode aplicar-se a um gato abandonado que começa a aparecer diariamente à procura de comida, como a uma ninhada nascida num terreno baldio, a um cão que continua a ser visto sozinho semana após semana ou a um animal que necessita de cuidados veterinários. O raciocínio é quase sempre o mesmo: alguém haverá de resolver.
Ao longo dos anos fomos percebendo que uma parte significativa do trabalho das associações consiste precisamente em recolher os problemas que foram ficando para trás. Não porque ninguém os tenha visto, mas porque muita gente acreditou que outra pessoa acabaria por resolver a situação.
Os animais, porém, não desaparecem só porque deixamos de olhar para eles. Continuam no mesmo lugar, com as mesmas necessidades e, muitas vezes, em condições progressivamente piores.
A diferença é que, se tiverem sorte, mais cedo ou mais tarde, acabam por cruzar-se com uma pessoa ou uma associação que decide assumir uma responsabilidade que outros preferiram atribuir a terceiros.
É também por isso que existe uma ideia profundamente errada sobre o funcionamento das associações. Muitas pessoas imaginam estruturas organizadas, com recursos, capacidade de resposta e disponibilidade para acudir a tudo o que surge. A realidade costuma ser bastante menos confortável. Na maioria dos casos, estamos a falar de voluntários que já estão sobrecarregados, que já têm mais responsabilidades do que aquelas que conseguem gerir tranquilamente, que já estão a fazer contas às próximas despesas veterinárias e que, apesar disso, continuam a responder quando surge mais um pedido de ajuda.
Talvez por isso uma das frases mais perigosas na proteção animal seja precisamente esta: “alguém há de tratar”.
Não porque seja dita por pessoas que se assumem indiferentes ao sofrimento animal. Pelo contrário. Muitas vezes é dita por pessoas que se descrevem como grandes amantes de animais, desde que a responsabilidade continue a pertencer a terceiros.
O problema é que os animais não vivem de intenções. Vivem das ações concretas de quem decide assumir uma responsabilidade.
E é precisamente aí que a expressão falha.
Porque cada pessoa que acredita que alguém resolverá o problema está, muitas vezes, a contribuir para que esse problema permaneça sem solução durante mais algum tempo. E quando finalmente alguém intervém, nem sempre chega a tempo de evitar o agravamento da situação.
Quem anda nisto há muito tempo conhece bem outro fenómeno. O entusiasmo inicial de quem diz “apanhe o animal”, “leve-o ao veterinário”, “depois ajudamos”. A ajuda chega muitas vezes sob a forma de promessas. O problema é que as promessas raramente pagam consultas, internamentos, cirurgias ou tratamentos. E quando chega o momento de transformar palavras em responsabilidade, instala-se frequentemente o silêncio.
Talvez por isso tantas associações e voluntários vivam permanentemente no limite. Não porque faltem pessoas preocupadas com os animais. Mas porque entre a preocupação e a responsabilidade existe uma distância considerável.
E são quase sempre os mesmos a percorrê-la.