07/10/2026
AS VIÚVAS DOS ANTIGOS COMBATENTES
“As Mulheres que também viveram a guerra”
Quando se fala da Guerra do Ultramar, fala-se naturalmente dos homens que partiram para Angola, Guiné, Moçambique, Índia ou Timor. Fala-se dos que combateram, dos que morreram, dos que regressaram feridos e dos que trouxeram consigo memórias que, para muitos, nunca deixaram de estar presentes. Mas existe uma outra história, menos conhecida e raramente contada: a das mulheres que ficaram em Portugal e que, embora não tenham estado nos teatros de operações, também viveram a guerra. Viveram-na através da ausência dos maridos, da ansiedade de cada notícia, da responsabilidade de manter a família, da preocupação constante com aqueles que estavam longe e, mais tarde, através das consequências que alguns homens trouxeram consigo quando regressaram.
Foram mulheres que viram os seus maridos partir jovens, muitas vezes sem saber quando regressariam, em que condições voltariam ou se voltariam sequer. Ficaram com filhos pequenos, com as responsabilidades da casa e da família e com uma preocupação que dificilmente se consegue explicar a quem nunca a viveu. Esperaram cartas, notícias e regressos. Aprenderam a viver com a incerteza e com o medo. E quando os seus maridos finalmente regressaram, para algumas famílias a guerra não terminou. O conflito tinha acabado, mas as suas consequências continuaram presentes dentro de casa.
Para algumas destas mulheres, o regresso do marido significou também aprender a conviver com um homem que trazia consigo experiências difíceis, memórias dolorosas e, em alguns casos, problemas psicológicos que durante muitos anos não tiveram sequer um nome. O stress pós-traumático associado à experiência de guerra só muito mais tarde passou a ser reconhecido e compreendido. Durante décadas, muitos Antigos Combatentes sofreram em silêncio e as suas famílias aprenderam a lidar, como podiam, com alterações de comportamento, isolamento, ansiedade, irritabilidade, dificuldades no relacionamento e outras manifestações de um sofrimento que nem sempre conseguiam compreender. Em algumas situações houve também recurso excessivo ao álcool, conflitos familiares e casos de violência doméstica. Não devemos generalizar nem estabelecer uma relação automática entre a guerra e estes comportamentos, mas também não devemos esconder uma realidade que existiu e que deixou marcas profundas em mulheres e filhos que, sem terem estado na frente de combate, acabaram por viver as consequências da guerra.
É por isso que estas mulheres merecem ser olhadas de uma forma diferente. Não foram combatentes no sentido militar da palavra, mas foram muitas vezes mulheres que também viveram a guerra. Viveram-na na ausência, na espera, na preocupação e, depois, nas consequências do regresso. Foram esposas, mães, cuidadoras e companheiras. Criaram filhos enquanto os maridos estavam mobilizados, trabalharam, mantiveram as famílias e acompanharam, durante décadas, homens que por vezes carregavam consigo feridas que não eram visíveis. Fizeram-no sem farda, sem medalhas e sem reconhecimento público. E, em muitos casos, fizeram-no durante toda uma vida.
Hoje, muitas dessas mulheres são também idosas. Algumas têm 70, 80 ou mais anos. Algumas vivem sozinhas; outras enfrentam doenças crónicas, limitações físicas, dificuldades económicas ou necessidades crescentes de apoio. São mulheres que envelheceram enquanto acompanhavam o envelhecimento dos seus maridos e que, depois de décadas de vida em comum, tiveram ainda de enfrentar a perda daquele que esteve no centro de uma parte importante da sua própria história. Para muitas, a condição de viúva chegou depois de uma vida inteira marcada, direta ou indiretamente, pela experiência militar do marido.
É neste contexto que devemos olhar para os direitos das viúvas dos Antigos Combatentes. A Lei n.º 46/2020, que aprovou o Estatuto do Antigo Combatente, veio reconhecer expressamente a condição das viúvas e dos viúvos e estabelecer direitos específicos, entre eles o Cartão de Viúva/o de Antigo Combatente e determinados benefícios na área da saúde. Foi um reconhecimento importante, mas a existência de direitos na lei não significa que todas as dificuldades estejam resolvidas. Há mulheres que continuam a enfrentar problemas administrativos, dificuldades na obtenção do cartão ou no exercício dos direitos que lhes são atribuídos. E quando falamos de mulheres já idosas, algumas com pouca autonomia e reduzida familiaridade com procedimentos administrativos ou meios digitais, aquilo que para a Administração pode parecer um processo simples pode transformar-se numa verdadeira barreira.
Por isso, uma pergunta merece ser feita, e é à Direção-Geral de Recursos da Defesa Nacional (DGRDN) que a dirigimos: quantas viúvas de Antigos Combatentes têm atualmente direito ao Cartão de Viúva de Antigo Combatente e continuam ainda à espera de o receber? Não conhecemos um número oficial atualizado que permita responder com rigor a esta questão, mas é legítimo admitir que serão ainda muitas as mulheres que aguardam o reconhecimento efetivo de um direito que a lei lhes atribui. Seria, por isso, importante que a DGRDN pudesse divulgar dados atualizados sobre esta realidade: quantos cartões foram emitidos, quantos processos se encontram pendentes e quantas viúvas, por dificuldades administrativas, falta de atualização dos seus dados ou outras razões, continuam sem o cartão a que têm direito. Conhecer estes números é também uma forma de conhecer a dimensão de um problema que afeta mulheres idosas, muitas delas já fragilizadas, que esperam apenas que um direito reconhecido na lei chegue efetivamente às suas mãos.
Há igualmente questões na área da saúde que merecem reflexão. As viúvas beneficiam de determinados direitos enquanto titulares dessa condição, mas não lhes são automaticamente transmitidos todos os benefícios de que o marido poderia usufruir enquanto Antigo Combatente. É particularmente relevante a questão dos medicamentos, numa fase da vida em que as necessidades de saúde tendem a aumentar e em que as despesas com tratamentos e medicação podem representar um peso significativo. Não se trata simplesmente de defender que todos os direitos do marido devam passar automaticamente para a viúva. Trata-se de perguntar se o atual modelo responde de forma suficiente à realidade de mulheres que envelheceram depois de uma vida inteira marcada pelas consequências do serviço militar dos seus maridos e que hoje, muitas vezes sozinhas, enfrentam as suas próprias fragilidades.
Mas há uma questão ainda mais difícil de medir: quantas destas mulheres precisam também de apoio psicológico? Quantas passaram décadas a viver com as consequências do trauma dos seus maridos? Quantas foram cuidadoras sem nunca terem sido reconhecidas como tal? Quantas viveram situações familiares difíceis e nunca tiveram oportunidade de falar sobre elas? Quantas, depois da morte do marido, ficaram sozinhas com memórias que durante décadas permaneceram guardadas? Não temos um número que permita responder a estas perguntas. Mas a ausência de estatísticas não significa ausência de sofrimento.
Quando falamos das consequências da Guerra do Ultramar, temos tendência para contar os homens que partiram, os que morreram, os que regressaram e os que ficaram marcados pela guerra. É necessário, porém, olhar também para as famílias e perceber que o impacto de um conflito armado não termina necessariamente quando termina a comissão militar. Em muitos casos, a guerra entrou na vida familiar através das memórias, dos comportamentos, das dificuldades psicológicas e das relações. Estas mulheres não estiveram nos teatros de operações, mas viveram a guerra à distância, viveram a ansiedade da espera e, em alguns casos, viveram durante décadas as consequências do trauma dos seus maridos.
Por isso, falar das viúvas dos Antigos Combatentes não é retirar importância aos combatentes. É, pelo contrário, alargar a nossa compreensão sobre aquilo que foi a guerra e sobre as suas consequências. A história de um homem que partiu para África não começa apenas quando embarcou nem termina necessariamente quando regressou. Existe uma história antes, durante e depois da guerra. E nessa história estão as mulheres que ficaram em Portugal, os filhos que cresceram sem os pais durante longos períodos e as esposas que acompanharam durante décadas as consequências de uma experiência que também marcou profundamente as suas próprias vidas.
O APOIO DA LIGA DOS COMBATENTES
Existe, felizmente, uma resposta que importa divulgar. A Liga dos Combatentes, através dos CAMPS — Centros de Apoio Médico, Psicológico e Social, disponibiliza apoio aos Antigos Combatentes e às suas famílias, incluindo situações relacionadas com sofrimento psicológico e stress pós-traumático. Este trabalho assume particular importância porque permite acompanhar não apenas o antigo combatente, mas também a realidade familiar que esteve presente durante todo o percurso do sofrimento, da doença ou das dificuldades resultantes da experiência de guerra.
Neste processo, os Núcleos da Liga dos Combatentes desempenham um papel fundamental. Pela proximidade que mantêm com os associados e pelas relações humanas que estabelecem com as famílias, são muitas vezes o primeiro local onde uma situação é percebida ou comunicada. Um Antigo Combatente que procura ajuda, uma esposa que manifesta preocupação ou uma família que reconhece que determinada situação já ultrapassou aquilo que consegue resolver sozinha podem encontrar no Núcleo a primeira porta para uma resposta especializada. O Núcleo pode sinalizar a situação e encaminhar o Antigo Combatente ou a família para os CAMPS, onde existe capacidade de acompanhamento médico, psicológico e social.
Este trabalho demonstra que a Liga dos Combatentes não se limita a defender direitos ou a preservar a memória daqueles que serviram o País. Existe também uma dimensão humana e social, muitas vezes silenciosa, que procura responder às consequências que a guerra deixou na vida dos combatentes e das suas famílias.
Mas talvez seja necessário dar mais um passo: olhar também para as viúvas.
Porque algumas destas mulheres passaram mais de cinquenta anos a viver com as consequências de uma guerra que não escolheram. Foram esposas, mães, cuidadoras e companheiras. Muitas estiveram ao lado dos seus maridos quando eles mais precisaram. E hoje, quando elas próprias envelhecem e precisam de apoio, não podemos permitir que sejam apenas lembradas como “viúvas de Antigos Combatentes”.
São mulheres com uma história própria.
Uma história que merece ser ouvida, estudada e reconhecida.
Uma história que também faz parte da história da Guerra do Ultramar.
Porque a guerra não foi vivida apenas por quem esteve nos teatros de operações. Foi também vivida, de outra forma, por quem ficou à espera e por quem, durante décadas, viveu com as consequências do regresso.
Núcleo de Peniche da Liga dos Combatentes
Nota: A Imagem foi criada com recurso à IA