12/06/2026
Vi o Coronel Rafael Durão uma única vez na minha vida, na BOTP1 (Base Operacional de Tropas Pára-quedistas N°1), em Monsanto, algures entre 1987 e 1988, já no posto de Brigadeiro. Nunca o tinha visto antes e, em boa verdade, o único Brigadeiro paraquedista que eu conhecia na altura era o Brigadeiro Almendra, Comandante do Corpo de Tropas Pára-quedistas.
Fiquei, por isso, surpreendido com a sua presença e jamais voltei a cruzar-me com ele. Apesar de nunca ter tido a oportunidade de o conhecer verdadeiramente, a forma como dele sempre ouvi falar levou-me a guardar a imagem de um homem de dimensão quase mítica, possuidor de um carisma singular que dispensava palavras para se fazer respeitar. Era daqueles comandantes cuja mera presença preenchia o espaço, impondo-se com naturalidade e deixando, em quem com ele se cruzava, uma marca indelével de admiração e respeito.
Hoje, olhando para trás, penso que esse carisma não era exclusivo dele. Quem viveu aqueles tempos recordar-se-á certamente de oficiais, sargentos e praças, que, pela sua postura, competência e exemplo, deixaram uma marca profunda nos homens que comandaram. Eram líderes que sabiam exigir, mas também inspirar; homens cuja autoridade nascia tanto do carácter como dos galões ou das divisas que ostentavam.
Quem os conheceu nunca os esquecerá. A melhor prova disso encontra-se nos comentários que surgem nas redes sociais sempre que o Sargento-mor Serrano Rosa publica fotografias desses tempos. Bastam algumas imagens para despertar memórias, histórias e homenagens espontâneas de combatentes que, décadas depois, continuam a recordar com respeito e admiração os homens com quem serviram. Isso demonstra que a verdadeira liderança não se mede apenas pelos cargos ou pelas condecorações recebidas, mas sobretudo pela marca que se deixa na memória daqueles que tivemos a honra de acompanhar e servir.
O Coronel Rafael Durão não marcou nem impressionou apenas os paraquedistas. O respeito e a admiração que granjeou estenderam-se igualmente a militares do Exército e da Força Aérea que com ele serviram durante a Guerra do Ultramar.
Uma das características mais referidas por quem o conheceu era a sua forma muito peculiar de impor a disciplina e de fazer cumprir o Regulamento de Disciplina Militar. Não precisava de recorrer constantemente à punição ou à exibição da autoridade do posto. Fazia-se respeitar pela presença, pelo exemplo e pela coerência entre aquilo que exigia aos seus homens e aquilo que exigia a si próprio.
Os que serviram sob o seu comando sabiam que a disciplina era para cumprir, mas também sabiam que estavam perante um chefe que conhecia os seus homens, partilhava os seus riscos e assumia as suas responsabilidades. Era essa combinação de firmeza, humanidade, sentido de justiça e liderança pelo exemplo que lhe granjeava o respeito dos subordinados e a consideração dos seus pares.
Ao longo das minhas pesquisas e conversas com antigos combatentes, tive oportunidade de recolher diversos testemunhos sobre a sua personalidade, a sua coragem e a sua forma de liderar. Entre eles, recordo o do ex-soldado condutor João Fernando Cordeiro Ribeiro, natural de Peniche e sócio combatente do Núcleo de Peniche da Liga dos Combatentes que privou com o Coronel Durão na Guiné, em contexto operacional e que me relatou um episódio particularmente revelador do seu carácter.
O episódio que se segue, contado pelo combatente João Ribeiro, ilustra precisamente essa forma singular de exercer a autoridade e ajuda a compreender porque razão, tantos anos depois, o Coronel Rafael Durão continua a ser recordado e admirado por militares de diferentes gerações.
João Lopes
Foto: Sargento-mor Serrano Rosa