22/04/2026
Maria – Uma vida dedicada ao Rancho
“Tinha onze anos quando fui para o rancho…”
Há histórias que começam assim. A história de vida da Maria deixou de ser apenas sua, pois nela vivia o grupo desde que lá entrou. Para cantar o Fado com o padrinho Zé Coelho.
Para muitos de nós, que conhecemos a palavra “folclore” no seu âmago, da parte de dentro - a do coração, entrar na casa da Maria era um privilégio. Recebiam-nos primeiro as suas roseiras e depois o seu saber espetado em almofadinhas de alfinetes, espraiado na mesa onde tecidos se desdobravam, medido pelas suas mãos. As máquinas de costura, à janela, cujos pedais e cujas correias fizeram com ela os caminhos do trajar. Os seus dedos, habituados à urdideira na fábrica, percorriam com precisão métrica o algodão dos saiotes, o linho das camisas. Mãos que caseavam, que franziam, que faziam cós e presilhas, que tocavam nas rendas brancas com o carinho de quem embrulha um filho nos braços.
Tinha onze anos quando foi para o rancho. Cantou. Foi porta-bandeira. Como quem tem a voz afinada e acompanha a tocata, fez-se acompanhar do filho e depois viu com orgulho as netas na roda, com os últimos trajes que saíram da sua sabedoria. Guardou memórias, queijadas em cestas e histórias de um tempo em que a palavra família e a palavra rancho se misturavam numa moda mandada. A sua preferida era a “Farrapeira”.
Maria, “toma lá, leva mais trapos”, quiçá cantará ela agora junto do seu Mendes, de quem sempre a acompanhou. Entre nós, enquanto houver memória, estará sempre viva. Porque o seu legado não morre, só ela parte fisicamente para outro lugar.