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Supervisão policial (enfraquecida) – parte 2As Forças Armadas têm, num universo de 32 mil militares, por comparação com ...
20/10/2026

Supervisão policial (enfraquecida) – parte 2

As Forças Armadas têm, num universo de 32 mil militares, por comparação com os 44 mil da PSP e GNR, mais de cinco vezes o número de oficiais destas duas. Algo não vai bem quando o desnível é este.

Há uns meses, decidi trazer-vos uma análise [1] sobre a supervisão e os níveis de enquadramento nas forças de segurança, acompanhada de um pequeno périplo de comparação com realidades lá fora, e a conclusão foi, indesmentivelmente, uma: quer a Polícia de Segurança Pública (PSP), quer a Guarda Nacional Republicana (GNR), de forma mais assinalável na primeira, padecem de graves problemas de supervisão, com quadros de liderança superiores e intermédios enfraquecidos.

Relembro, para efeitos de contextualização (dados de 2025), que, na PSP, o rácio de oficiais por polícia é de um para 26, e de chefes por polícia de um para nove, com especial agravo nos comandos de Lisboa e Porto, com rácios bem mais expressivos, de um oficial para 51 polícias e um chefe para 11 polícias no primeiro, e um oficial para 30 polícias e um chefe para nove polícias no segundo; já na GNR, não sendo a diferença particularmente expressiva (dados de 2025), encontramos rácios de um oficial para 26 militares e um sargento para nove militares. Poderemos dizer que os níveis de supervisão estão, grosso modo, equiparados.

Fez-me, então, sentido fazer uma comparação doméstica com estruturas organicamente próximas, ainda que com naturezas distintas, para retratar um fosso tremendo que existe entre as forças de segurança e as Forças Armadas a este nível. Desde já assinalo que este exercício em nada belisca ou interfere com a importância vital das Forças Armadas no nosso modelo de Estado; antes visa trazer a nu a forma como, a este nível, umas e outras estão mais ou menos sedimentadas e enquadradas no plano dos recursos humanos.

E a conclusão, como iremos ver, é por demais grotesca e dá robustez à evidência fáctica, bastas vezes recenseada pelo Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia, de que a PSP tem uma elevada carência de lideranças, quer intermédias (chefes), quer superiores (oficiais), que são, sabemo-lo bem, essenciais para a regulação e controlo do trabalho que é realizado no dia a dia, em milhões de intervenções anuais com os cidadãos, das mais diversas naturezas.

Obviamente que ela não explica, em toda a amplitude, a existência de irregularidades e desvios evitáveis, sobretudo no emprego de meios coercivos e/ou na aplicação de medidas intrusivas, administrativas ou penais, mas que concorre para a sua mitigação, disso não tenhamos dúvidas.

A análise que realizei teve por base os dados contidos no decreto-lei n.º 142/2026, de 14 de julho, que dá exequibilidade a um imperativo inscrito na Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas — Lei Orgânica n.º 2/2021, de 9 de agosto —, que exige a fixação trienal dos efetivos militares das Forças Armadas, já contendo o reforço progressivo anunciado pelo sr. ministro da Defesa, que pretende ir além dos 30 mil militares, entre quadros permanentes e contratados. Para facilitar a comparação, recorri apenas aos números projetados para 2026, sendo os de 2027 e 2028 ligeiramente superiores.

Antes de qualquer reflexão, deixo aqui o quadro comparativo [2] entre as Forças Armadas e as forças de segurança (com os dados já reproduzidos no artigo anterior), que, por si só, seria já autoexplicativo das diferenças que sinalizei. Mas vamos com algum detalhe, desde logo quanto à assimetria que existe, mesmo com militares contratados — que incidem sobretudo na base da estrutura, na carreira de praças —, entre as carreiras de graduados, oficiais e sargentos, e praças, que já tinha, aliás, e não há muito tempo, sido sinalizada pelos órgãos de comunicação social, aludindo a organizações verticalmente invertidas — citando o título, "Da pirâmide ao cilindro" [3].

Estes dois universos representam cerca de 54% de todo o universo militar, com apenas 46% para a carreira de praças. Já na PSP, a comparação é de 13% para 87%, enquanto na GNR a primeira cresce para 14%. Veja-se bem a diferença abismal entre as duas. Necessariamente que isso se repercute, está bem de ver, em dois planos: (1) dos custos, com maior peso relativo nas Forças Armadas face ao universo alargado de oficiais e sargentos; e (2) dos níveis de supervisão, muito mais robustos nas Forças Armadas, que chegam a ser, risivelmente, de 1 oficial para 1,25 sargentos e de 1 sargento para 1,5 praças (isto com os militares contratados), ou seja, quase que o enquadramento é nominal, isto é, pessoa a pessoa. Na doutrina, esta macrocefalia organizacional é designada por "estrutura em chaminé" ou “gargalo hierárquico”, com níveis de controlo e validação de tal forma apertados que chegam a anular a autonomia dos “supervisionados” e a alimentar uma espécie de confusão de esferas entre núcleos de conteúdo funcional.

As Forças Armadas têm, num universo de 32 mil militares, por comparação com os quase 44 mil da PSP e GNR, mais de cinco vezes o número de oficiais destas duas e mais do dobro de sargentos/chefes. Se fizermos a comparação com o número de altos dirigentes (generais), então a diferença é ainda maior. Na PSP, existem atualmente 15 cargos ocupados por superintendentes-chefes, o que traduz um rácio de 1 para 1310 polícias, ao invés dos 125 nas Forças Armadas, cujo rácio é de 1 para 256, portanto, cerca de cinco vezes menos.

Alguma coisa não vai bem quando o desnível é desta ordem de grandeza. Não são as Forças Armadas que estão mal; diria até que estão excessivamente bem (o que pode, como referi, produzir um efeito contraproducente de termos toda e qualquer pequena decisão a ser escrutinada por um superior hierárquico). Por outro lado, e no que toca às forças de segurança, que lidam com a segurança interna do país, todos os dias em “guerra”, na linha da frente, o apoio dos superiores é, como vimos, difícil de assegurar face ao número de pessoas sob o seu comando e chefia, exigindo-se-lhes capacidades extra-humanas de desdobramento e responsabilidade.

Sabemos bem que, quando queremos estar em todo o lado, não estamos verdadeiramente em lado nenhum, e quem perde é a qualidade do serviço que prestamos. Não é, por isso, desrazoável nem obsceno que teimemos, obstinadamente, em exigir melhores condições de trabalho, mais investimento e mais prioridade para estas duas organizações.

Elas precisam disso, e a segurança do país assim o exige.

[1] Artigo no PÚBLICO, de 14 de junho de 2026.
[2] O quadro faz um desdobramento entre quadros permanentes das Forças Armadas, com e sem os recursos que integram o Estado-Maior General das Forças Armadas, e destes com o universo de militares contratados.
[3] Artigo da jornalista Valentina Marcelino, no Diário de Notícias, de 19 de fevereiro de 2022.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

Subintendente Bruno Pereira, Presidente do SNOP, in Público, 20 de Outubro de 2026, às 0:10

Bruno Pereira: 'A Forças Armadas têm, num universo de 32 mil militares, por comparação com os 44 mil da PSP e GNR, mais de cinco vezes o número de oficiais destas duas. Algo não vai bem quando o desnível é este.'

Quando as promoções são poupançaEsta máquina bem oleada e dinâmica tem um efeito galvanizador brutal no seio dos polícia...
20/10/2026

Quando as promoções são poupança

Esta máquina bem oleada e dinâmica tem um efeito galvanizador brutal no seio dos polícias, pelo que nunca deve parar, mesmo que o número de promovidos não seja exatamente aqueles que a PSP precisa, mas o que o Governo define.

A “máquina das promoções” é uma das mais importantes numa Organização hierárquica e de origem castrense como a PSP, onde a ambição da promoção e dos direitos e deveres inerentes constituem uma ambição legítima. Quando a retribuição pelo trabalho é tão reduzida face aos encargos suportados e exigidos, a promoção assume-se como um pequeno balão de oxigénio para os milhares de polícias que trabalham na instituição.

Esta máquina bem oleada e dinâmica tem um efeito galvanizador brutal no seio dos polícias, pelo que nunca deve parar, mesmo que o número de promovidos não seja exatamente aqueles que a PSP precisa, mas o que o Governo define, com critérios unicamente monetários.

Se muitas vezes se cortam propostas de promoções com justif**ações orçamentais, por outro este argumento tem pouca ou nenhuma razão, quando a sua eficácia transita normalmente para o orçamento do ano seguinte, se não vejamos:

1. Promoções orçamentadas para 2021 (Despacho n.º 4506-C/2021, de 3 de maio, com a autorização para a promoção de 2.095 polícias):

a. 2 a superintendente-chefe, terminado em dezembro de 2021;

b. 8 a superintendente, terminado em dezembro de 2021;

c. 27 a comissário, terminado em dezembro de 2021;

d. 100 a chefe coordenador, terminado em maio de 2022;

e. 200 a chefe principal, terminado em dezembro de 2021;

f. 250 a agente coordenador, terminado em maio de 2022;

g. 1500 a agente principal, terminado em junho de 2021;

h. 5 a chefe principal da BM/PSP, terminado em fevereiro de 2022;

i. 1 a Chefe da BM/PSP, sem informação.

j. 2 agentes coordenador da BMPSP, terminado em fevereiro de 2022;

Como se pode observar, apesar de orçamentadas para 2021, o gasto com as promoções na PSP em 2021 foi quase nulo.

2. Promoções orçamentadas para 2022 (Despacho n.º 12522/2021, de 23 de dezembro, com a autorização para a promoção de 1.888 polícias):

a. 2 a superintendente-chefe, terminado em setembro de 2022;

b. 5 a superintendente, terminado em setembro de 2022;

c. 8 a intendente, terminado em setembro de 2022;

d. 39 a subintendente, terminado em setembro de 2022;

e. 37 a comissário, terminado em outubro de 2022;

f. 150 a chefe coordenador, terminado em julho de 2023 (para abrir aguardou terminus do anterior que terminou em maio de 2022);

g. 200 a chefe principal, terminado em dezembro de 2022;

h. 250 a agente coordenador, terminado em maio de 2023;

i. 1.197 a agente principal, terminado em maio de 2022.

Mais uma vez, e como se pode observar, apesar de orçamentadas para 2022, o gasto com as promoções na PSP em 2022 foi muito reduzido, apesar do despacho ter sido publicado em dezembro de 2021.

3. Promoções orçamentadas para 2023 (Despacho n.º 8219/2023, de 11 de agosto, com a autorização para a promoção de 1.548 polícias):

a. 6 a Superintendente, terminado em fevereiro de 2024;

b. 29 a intendente, terminado em fevereiro de 2024;

c. 62 a subintendente, terminado em maio de 2024;

d. 25 a comissário, terminado em maio de 2024;

e. 150 a chefe coordenador, terminado em julho de 2024;

f. 300 a chefe principal, terminado em julho de 2024;

g. 250 a agente coordenador, terminado em agosto de 2024;

h. 726 a agente principal, terminado em novembro de 2023;

A “norma” mantém-se e, tristemente, mais uma vez, apesar de orçamentadas para 2023, um despacho autorizador taticamente tardio, e o gasto com as promoções na PSP em 2023, foi quase nulo.

4. Promoções orçamentadas para 2024 (Despacho n.º 4280/2024, de 19 de abril, com a autorização para a promoção de 2.374 polícias):

a. 6 a superintendente-chefe

b. 20 a Superintendente, terminado em dezembro de 2024;

c. 5 a intendente, terminado em março de 2025;

d. 120 a subintendente, terminado em agosto de 2024;

e. 53 a comissário, terminado em setembro de 2024;

f. 400 a chefe coordenador, terminado em janeiro de 2025 (para abrir aguardou terminus do anterior que terminou em julho de 2024);

g. 500 a chefe principal, terminado em fevereiro de 2025;

h. 600 a agente coordenador, terminado em maio de 2025 (para abrir aguardou terminus do anterior que terminou em agosto de 2024);

i. 670 a agente principal, terminado em maio de 2024;

A “norma” parece ter-se alterado, com parte dos efeitos terem tido impacto no orçamento de 2024, apesar de alguns “atrasos” se terem devido ao fato da abertura do procedimento ter de aguardar, necessariamente, a conclusão do anterior referente à mesma categoria, não podendo haver simultaneidade.

5. Promoções orçamentadas para 2025 (Despacho n.º 6341/2025, de 5 de junho, com a autorização para a promoção de 1.503 polícias):

a. 6 a superintendente-chefe, terminado em novembro de 2025;

b. 5 a Superintendente, terminado em agosto de 2025;

c. 50 a intendente, terminado em dezembro de 2025;

d. 50 a subintendente, terminado em junho de 2026;

e. 30 a comissário, terminado em outubro de 2025;

f. 200 a chefe coordenador, não aberto por não reunião de requisitos legais para a promoção;

g. 300 a chefe principal, terminado em outubro de 2025;

h. 800 a agente coordenador, em desenvolvimento.

i. 1 a intendente da BM/PSP, terminado em julho de 2025;

j. 1 a comissário da BM/PSP, terminado em dezembro de 2025;

k. 20 a chefe coordenador da BM/PSP, não aberto por não reunião de requisitos legais para a promoção;

l. 12 a chefe principal da BM/PSP, terminado em março de 2026;

m. 10 a Chefe da BM/PSP, terminado em dezembro de 2025;

n. 2 a agente coordenador da BMPSP, terminado em dezembro de 2025;

o. 16 a agente principal da BM/PSP, terminado em julho de 2025;

O padrão parece mesmo ter-se alterado, com a maioria das promoções ter tido impacto em 2025, como naturalmente se espera, produzindo os expectáveis efeitos no ano para o qual foram projetadas.

Como se pode observar, ao longo dos últimos anos inverteu-se a tendência do orçamento para as promoções na PSP não ser executado no respetivo ano. Infelizmente em 2026 esta tendência será esmagada pela letargia do governo que, estando em outubro de 2026, ainda não autorizou as promoções, pasme-se, para 2026! Esta procrastinação, que é tudo menos arbitrária, segue o tão conhecido efeito supervitário, levando a que a despesa seja diferida para o futuro. Não nos podemos, pois, surpreender, com a fórmula mágica adoptada pelo Ministério das Finanças para ter excedente orçamental. Orçamentar não signif**a, de modo algum, executar, e f**a bem patente no exercício que acabámos de fazer.

Semelhante a esta situação, recordamo-nos bem, do “maior investimento de sempre” de 607 milhões de euros no plano de infraestruturas e equipamentos das forças de segurança para o período 2022/26, anunciado vezes sem conta, onde no final …. O Tribunal de Contas aponta a “reduzida taxa de execução orçamental e financeira da LPIEFSS, nomeadamente em 2021 (cerca de 41%), situação que se agravou progressivamente nos anos seguintes, (…), em 2022 (15%) e em 2023 (14%)”.

A continuar a assim, as promoções na PSP podem originar boa propaganda política, mas depois os polícias e a organização são quem sofre com os atrasos táticos da decisão [política], ao arrepio dos danos que causa, naturalmente, à coesão da instituição.

Bruno Pereira - Presidente do SNOP in Semanário SOL, 19 de outubro 2026, às 14:37

Esta máquina bem oleada e dinâmica tem um efeito galvanizador brutal no seio dos polícias, pelo que nunca deve parar, mesmo que o número de promovidos não seja exatamente aqueles que a PSP precisa, mas o que o Governo define

Protestos no Porto: sindicato afirma que "polícia não gosta de recorrer à força", mas que houve "resistência desrespeito...
15/10/2026

Protestos no Porto: sindicato afirma que "polícia não gosta de recorrer à força", mas que houve "resistência desrespeitosa da lei"

Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia (SNOP), afirma que "terá havido uma uma resistência ativa por parte dos manifestantes" e que a intercenção policial ocorreu após várias tentativas de diálogo.

Os protestos pela habitação e contra o aumento do custo de vida no Porto f**aram marcados por confrontos entre os manifestantes e a polícia, os quais provocaram vários feridos. Em entrevista à SIC Notícias, Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia (SNOP), insiste que "a polícia não tem gosto em ter que empregar qualquer tipo de força" e que a intervenção ocorreu após várias tentativas de diálogo

“Não há lados. A polícia não está do outro lado. A polícia não tem particular gosto em ter de recorrer ao emprego da força”, começou por afirmar.
Num comunicado a que a SIC Notícias teve acesso, o Movimento pela Habitação denunciou que a intervenção policial durante a madrugada provocou ferimentos em 37 participantes. Dois manifestantes terão sofrido ferimentos graves.

Bruno Pereira explicou que o acampamento Praça D. João I ,"nos moldes em que estava a decorrer", tinha sido considerado ilegal. O responsável sublinhou, contudo, que o direito à manifestação é fundamental, embora não possa “ser exercido de forma absoluta”.

O presidente do SNOP afirmou que a atuação policial procurou garantir que o protesto “decorresse em segurança e em paz”.

“A polícia procura sempre, até ao limite, dar alternativa e não ter de fazer recurso à força.”
“Ninguém gosta de ver a polícia a bater com o bastão nas pessoas”
Neste caso, explicou, houve várias tentativas de contacto os promotores da manifestação e com os seus representantes legais, aos quais foi transmitido que as tendas teriam de ser retiradas.

“O que aconteceu foi que terá havido uma resistência mais do que passiva, uma resistência ativa por parte dos manifestantes. Alguns terão feito até um cordão humano para que a polícia pudesse viabilizar a própria intervenção dos serviços da Câmara”, refere.

“É muito fácil nós virmos entretanto dizer que parece que a polícia, sem freio, sem proporcionalidade, sem a devida análise, decidiu intervir e usar a força. A polícia procurou, através de diálogo, em primeira mão, de uma intervenção não musculada num segundo momento, e só teve de intervir num terceiro momento com uma força mais fisica porque efetivamente houve uma resistência claramente desrespeitosa da lei”, acrescenta.

PSP esclarece atuação no Porto: manifestantes não acataram ordens e tiveram “comportamentos de resistência”
Bruno Pereira refere que a manifestação escalou, assim, para termos “anárquicos, rematando que “a polícia não tem gosto algum em ter que empregar qualquer tipo de força contra seja quem for”.

“Ninguém gosta de ver a polícia a ter que bater o bastão nas pessoas, a ter que as empurrar, a ter que as colocar no chão, mas, infelizmente, quando chegamos a um ponto em que não há outra saída que não a intervenção, f**a muito difícil resolvermos o problema."



https://sicnoticias.pt/pais/2026-10-15-video-protestos-no-porto-sindicato-afirma-que-policia-nao-gosta-de-recorrer-a-forca-mas-que-houve-resistencia-desrespeitosa-da-lei-d0f0ffd2-2

A perigosa descoordenação no combate à drogaTradicionalmente, quem está fora do sistema, acredita que no país há coorden...
15/10/2026

A perigosa descoordenação no combate à droga

Tradicionalmente, quem está fora do sistema, acredita que no país há coordenação no combate ao tráfico de droga. É apenas uma questão de fé, como aliás muitas outras crenças no anquilosado modelo policial português.

A crise nacional que se vive em torno do fenómeno das lanchas rápidas, da pressão no mar e nos nossos portos, nas 'mulas' que diariamente tentam entrar nos nossos aeroportos, da droga expedida por via postal e do aumento do consumo de droga que ameaça um retrocesso à década de 80 e 90, veio mostrar o que a PSP já alertava há 15 anos nas discussões com os seus pares em sede de UCIC: Unidade de Coordenação e Intervenção Conjunta. O cenário estava a mudar e os esforços fragmentados das polícias mostravam já muito stress para lidar com a evolução do tráfico.

Apesar de Portugal ter passado ao lado das grandes rotas internacionais de tráfico até ao presente milénio, a realidade atual, caótica e assustadora, mostra a falência de um sistema que foi desenhado assente numa realidade com fronteiras, sem redes de comunicação sofisticadas, sem redes de autoestrada modernas, sem aviões privados que enxameiam o nosso espaço aéreo diariamente, sem meios tecnológicos (por vezes mais avançados que os das polícias), com uma cooperação policial internacional frágil e, não esquecer, num tempo em que o consumo de droga era bem mais censurável socialmente. Infelizmente, o último inquérito nacional ao consumo de substâncias psicoativas já é de 2022 e o último relatório do ICAD nesta matéria é de 2024, não nos sendo possível ter uma imagem real da situação atual ao nível do consumo.

Um cenário completamente diferente emergiu e a luta contra os poderosos cartéis marroquinos, espanhóis, sul americanos e balcânicos dificilmente terá sucesso apreendendo lanchas, submersíveis, detendo pobres 'mulas' que recebem uns parcos milhares de euros para trazer co***na para a Europa, ou indo a águas internacionais intercetar navios que nem sequer se dirigem para Portugal. As grandes apreensões de co***na, fruto de intelligence internacional, não deveriam ser usadas para mascarar um problema sério que ameaça começar a corroer alguns estratos da economia e do próprio Estado.

Concretizando, a dita coordenação entre polícias, que parece convencer alguns, faz-se com a comunicação à PJ de todos os casos conhecidos e investigados pelas restantes polícias. Literalmente, tudo entra nas bases de dados da PJ. No início de uma investigação, os OPC têm de pedir, note-se, pedir, se podem ou não investigar aquele caso obtendo uma resposta de compatibilidade com as investigações da PJ. Ou, por vezes, e com muitos erros à mistura, sugere que PSP e GNR falem uma com a outra. Tão só. A coordenação existente, parca, situa-se mais ao nível local, ocasionalmente, se as relações pessoais forem saudáveis entre policias.

No fundo, a PJ assume uma função jurisdicional assumindo um papel que devia ser do MP enquanto titular da ação penal, permitindo ou não, que os restantes OPC – PSP, GNR, AT, PM, DGRSP –, muito maiores em recursos e volume de informação, investiguem ou não cada caso em concreto. Incompreensível.

Sem surpresa, os dados mostram que a PSP, fruto do ambiente urbano em que opera, GNR por ter a responsabilidade da maioria do território e da fronteira marítima (sem desprezo para o papel da Polícia Marítima), e a PJ por dominar e monopolizar a cooperação internacional, assumem uma preponderância hegemónica no apuramento dos dados.

A tabela seguinte mostra a disfuncionalidade do sistema de combate ao tráfico de droga com os dados estatísticos apurados entre 2022 e 2025, os últimos disponíveis. São apresentadas as quatro dr**as que maior impacto têm no tráfico e no consumo e apenas os números relativos aos três principais OPC nacionais – os chamados, à luz da Lei de Organização da Investigação Criminal (LOIC), de OPC de competência genérica –, já que as restantes entidades assumem um papel marginal no sistema, ainda que em 2026 a Polícia Marítima possa entrar no clube dos grandes no que respeita à Canábis e Co***na.

A PSP e GNR juntas são responsáveis por percentagens quase sempre superiores a 95%, seja por via de investigação, seja por apreensões das suas patrulhas. No que respeita às quantidades, a Polícia Judiciária tem uma hegemonia evidente na co***na que, tal como na Canábis, resultam predominantemente do domínio da cooperação internacional. Poucas investigações – 616 em 4 anos – que resultam em muita quantidade. Estranhamente, o relatório UCIC não contém dados sobre o número de inquéritos nem de detidos por OPC o que ajudaria, sem dúvida, a adensar as dúvidas que o atual sistema, notoriamente desigual, suscita.

Atalhando, as duas polícias que dominam o cenário operacional em todas as tipologias de dr**as, fornecem todos os seus dados à polícia com menores recursos, sem poderem beneficiar da base de dados que ajudaram, na maior medida.

Estes dados estatísticos e informacionais deviam levar a pensar que as polícias deviam comunicar, partilhar, analisar e ter uma estratégia conjunta. Ao invés, assiste-se a uma ausência de coordenação, de fragmentação de sistemas de informação, de luta acérrima por quadros de competências institucionalizados há 30 anos, e de luta pela notoriedade pública (que acaba cedo ou tarde por atrair mais orçamento institucional e acesso privilegiado a fundos europeus). Nada disto tem a ver com o interesse nacional. Nada disto parece capaz de responder aos desafios que se colocam hoje em dia no domínio da luta contra o tráfico de estupefacientes.

O país precisa, de forma urgente, de uma estratégia no combate ao flagelo, que, por ora, ninguém conhece. A Polícia que diz deter o conhecimento, que recebe toda a intelligence, que representa Portugal nos fóruns internacionais, que diz coordenar o tráfico de droga em Portugal, nunca definiu, muito menos discutiu com os parceiros, uma estratégia de combate a um fenómeno com evidente impacto social, criminal e na saúde pública, com maior relevo e impacto mediático nos tempos hodiernos. O cenário vai-se agravando e a ausência de operações conjuntas entre quem diz ter o conhecimento e quem domina o território, as redes locais e muitas redes nacionais com génese internacional, é muito difícil de explicar.

A famigerada estrutura informal de coordenação UCIC reúne-se uma vez por ano para a UNCTE/PJ comunicar aos restantes OPC o que vai escrever no seu relatório anual, que nem sequer é assinado por todos os OPC. De resto, o relatório afirma que “os resultados têm âmbito nacional e natureza meramente quantitativa” para que cada Polícia “proceda à avaliação da atividade desenvolvida”. Nem sequer há qualquer tentativa analítica, como acontece em relatórios similares da ONU ou na Europol. No fundo, a PJ compila informação estatística e cada OPC deverá refletir sobre a mesma. Estatística devia conduzir a análise, coordenação e ações em concreto, tudo dentro de uma estratégia clara, mas dificilmente se poderia esperar melhor de um modelo pensado no início dos anos 90 que não é revisto e diagnosticado quanto à sua adequação e eficiência. Também neste domínio deveria existir uma auditoria, desde logo para que se possa perceber, entre outros desfechos, como é que de entre centenas de alvos que PSP e GNR pretendiam investigar por fortes indícios de tráfico, à guisa da dita competência reservada de investigação, apenas uma pequena percentagem destes vieram, depois, a ser acusados e condenados.

O que se tem passado nas nossas fronteiras sugere claramente que as redes de tráfico estão definitivamente cristalizadas em Portugal. Nada do que se está a passar no mar dispensa forte apoio em terra. Teria sido isto possível se tivesse havido estratégia, diálogo e coordenação? Afinal de contas, quem anda no terreno, e quem o conhece como ninguém, é a PSP e GNR. Insofismável.

Como já antes o referimos, a manutenção desta estrutura de para coordenação, que se mantém fiel aos ditames em que foi edif**ada na década de 90 – quando a PSP e GNR estavam ainda a dar os primeiros passos na investigação criminal –, é hoje, inequivocamente, insuficiente e ineficiente, para que possamos promover uma resposta adequada de combate a um fenómeno que não para de se aproveitar desta própria disfuncionalidade do sistema. Num tempo em que tudo é tecnológico, não se percebe a razão de ser de mantermos este modelo atávico, sujeito ao controlo de um dos atores do sistema, ainda para mais quando temos, já há alguns anos, um sistema de coordenação estabilizado, que promove a coordenação de todos os entes do sistema de Segurança Interna – veja-se o exemplo da Unidade de Coordenação Antiterrorismo onde todas as Polícias têm assento, funcionando de forma permanente sob a coordenação do SSI.

Mais grave ainda, é ter uma plataforma integrada de investigação criminal que foi erigida para assegurar a deteção de conflitos de investigação, não apenas no tráfico de droga, e que hoje não passa de um nado morto, servindo os interesses de quem quer manter o controlo e hegemonia sobre as investigações de determinados fenómenos criminais, com o tráfico à cabeça. Olhe-se lá para fora, e rapidamente se percebe que a resposta é feita em ampla extensão, com todos os grandes corpos de polícia a mobilizar os seus esforços no combate a este flagelo, sem atropelos ou entropias internas, e com um único foco: capturar os criminosos e contribuir para o esforço conjunto mundial no desmantelamento destas organizações criminosas. Aqui não há espaço para guerras de poder ou defesas irracionais do statu quo, a energia de todos os profissionais deve ser canalizada exclusivamente para o combate ao crime, exigindo-se coordenação, disso não há dúvida, mas uma coordenação em paridade, cabendo ao MP a arbitragem de conflitos de investigação nos quais não seja possível obter consenso entre as Polícias.

Trabalhar em conjunto gera compromisso, trabalhar em barricadas gera competição e conflito.

Subintendente Bruno Pereira Presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia e Superintendente-chefe , na pré-aposentação, José Bastos Leitão in Diário de Notícias, 13 Out 2026, 15:08



https://www.dn.pt/opiniao-dn/sociedade-aberta/a-perigosa-descoordenao-no-combate-droga

A Segurança Interna não é verdadeiramente uma prioridadeO (novo) suplemento atualmente em discussão beneficiará apenas c...
07/10/2026

A Segurança Interna não é verdadeiramente uma prioridade

O (novo) suplemento atualmente em discussão beneficiará apenas cerca de 8% dos polícias da PSP e custará, entre 2026 e 2027, pouco mais de 3 milhões de euros no total.

Infelizmente, por muito que se diga o contrário, a Segurança Interna em Portugal não tem sido tratada como prioridade, como resulta, a meu ver, da evolução da despesa orçamental destinada à valorização remuneratória dos profissionais das forças de segurança. Como não gosto de me basear em meras impressões, aproveitei o parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta Geral do Estado de 2025, recentemente entregue na Assembleia da República, para sustentar esta conclusão, analisando a despesa com pessoal entre 2020 e 2025.

Deixarei de lado os valores absolutos, que naturalmente são mais elevados, desde sempre, nos setores da Educação e da Saúde, e centrar-me-ei na evolução da despesa, desde 2020, em alguns dos principais setores do Estado, entre os quais incluo estes dois, bem como a Segurança Interna e a Defesa. A análise incide apenas na despesa com pessoal, deixando de fora outros domínios, como equipamento, infraestruturas ou tecnologia.

O parecer refere os setores da Saúde e da Educação como aqueles que concentram os maiores aumentos da despesa com pessoal, com uma única exceção, na área da Segurança Interna, resultante da atualização do suplemento por serviço e risco das forças de segurança, na sequência das negociações de 2024. Vamos então aos dados. A Saúde apresenta, de longe, a maior evolução, com um aumento de 2570 milhões de euros, de 4811 milhões em 2020 para 7381 milhões em 2025. Segue-se a Educação, com um aumento de 1058 milhões, de 5129 para 6187 milhões. Bem longe destes valores f**am a Defesa, com um aumento de apenas 168 milhões (de 1105 para 1273 milhões), e a Segurança Interna, que dá um salto um pouco maior, com mais 476 milhões (de 1706 para 2182 milhões).

É certo que, em termos percentuais, a Segurança Interna cresce mais do que a Educação (28%, contra 21%) e a Defesa (15%), mas f**a muito longe da Saúde (53%), e cerca de metade desse aumento resulta de um único acordo, o de 2024. Mesmo que se atenda ao número de trabalhadores de cada setor, que é maior na Educação e na Saúde, não posso deixar de concluir, ainda assim, que os sucessivos Governos, do PS e do PSD, têm dado primazia à melhoria das condições salariais nesses setores, mais do que o têm feito na Segurança Interna, em particular nas forças de segurança. Acresce que, não fosse o acordo conseguido a muito custo em 2024, que representou cerca de 250 milhões de despesa só com o suplemento de serviço e risco, o aumento da despesa com pessoal teria sido de pouco mais de 200 milhões para os 45.000 profissionais da PSP e da GNR. A disparidade é bem patente e não se compreende.

Aliás, o (novo) suplemento atualmente em discussão, que não constava do acordo e cuja negociação foi imposta unilateralmente pelo Governo, beneficiará apenas cerca de 8% dos polícias da PSP e custará, entre 2026 e 2027, pouco mais de 3 milhões de euros no total. Se recordarmos as atualizações dos demais suplementos que o Governo quis aplicar em 2026, com ganhos mensais de pouco mais de 5 euros, o contexto chega mesmo a ganhar contornos circenses.

Sei que o Governo invocará razões de contenção orçamental para evitar o défice, mas isto acontece porque teimamos em não sair de um torpor conservador e em não promover medidas de eficiência organizacional que permitirão, no curto prazo e, sobretudo, no médio e longo prazo, poupar muito dinheiro e reafectá-lo a áreas essenciais de desenvolvimento e, em particular, aos profissionais dessas áreas. Bem sabemos, porém, que nem sempre é assim: muitas vezes as prioridades mudam sem que as mudanças tenham sido previstas nem provisionadas. Veja-se a alocação de 50 milhões na revisão do regime da carreira médica, que não estava prevista no Orçamento do Estado para 2025 e foi assumida como medida política, integrando a quota de despesas imprevistas (cf. p. 242 do parecer).

Em jeito de remate, e reforçando esta ideia, parece existir (ainda sem confirmação oficial) a intenção do Governo de aumentar substancialmente os salários dos diretores e subdiretores de unidades educativas. Circula por canais não oficiais um projeto de alteração do Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de abril, que prevê aumentos que só não chocarão quem andar desatento. Segundo esse projeto, os diretores passariam a auferir um valor equivalente ao de um diretor-geral, isto é, de cargo de direção superior de 1.º grau, cerca de 5055 € mensais, pagos em 14 meses. Não quero de modo algum desprestigiar as funções, as competências e as responsabilidades de um diretor de agrupamento de escolas, mas fazê-lo ao arrepio da devida valorização de outros altos quadros da Administração Pública, entre os quais os oficiais de polícia, que lideram, gerem e comandam milhares de polícias, só pode ser interpretado como provocatório e profundamente desproporcional.

Bruno Pereira, Presidente do Sindicato dos Oficiais de Polícia da PSP, às 07:02 in Expresso



https://expresso.pt/opiniao/2026-10-07-a-seguranca-interna-nao-e-verdadeiramente-uma-prioridade-e66c402e

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