03/10/2026
TODOS VEEM. TODOS PEDEM. NUNCA NINGUÉM TEM ESPAÇO.
As mensagens sucedem-se. Enviam-nos fotografias, vídeos e localizações de animais que precisam de ajuda. Falam-nos do frio que aí vem, da chuva, dos carros e de tudo o que lhes poderá acontecer. A preocupação é muita, mas desaparece quando fazemos a pergunta que determina se o resgate pode avançar: “Onde f**ará o animal depois de ser capturado?” A resposta é quase sempre a mesma: “Infelizmente, não posso f**ar com ele.”
Um animal não desaparece quando entra numa armadilha. A MIAR não tem abrigo nem instalações e depende de famílias de acolhimento. Os lugares existentes estão ocupados por animais à espera de adoção e por animais em acolhimento definitivo. As associações que têm abrigo também ultrapassaram há muito a sua capacidade. Infelizmente, os voluntários ainda não descobriram como dilatar o espaço das próprias casas: quando estão cheias, não surge mais área só porque apareceu outro pedido.
Mesmo assim, perguntam-nos se não podemos “pelo menos capturá-lo”. Capturá-lo para onde? Para casa de quem? Fazer entrar um animal numa armadilha sem ter uma solução preparada para o momento seguinte não é resgatar. É retirar o problema da frente de uma pessoa e colocá-lo, já dentro de uma jaula, nas mãos de outra.
Antes da captura, é preciso observar o animal, alimentá-lo a horas regulares, criar uma rotina e registar quando aparece. Se quem está no local não sabe indicar um horário e não se disponibiliza para recolher essa informação, espera que os voluntários façam plantão durante horas ou noites? Uma localização, uma fotografia e a indicação rigorosíssima de que o animal “anda por ali” não constituem um plano de resgate.
Depois vêm as deslocações, a colocação e vigilância do material, as horas de espera, o transporte, as idas ao veterinário, os exames, os tratamentos e as consultas de acompanhamento. Tudo isto é feito no nosso tempo livre, entre empregos, famílias, animais próprios, colónias e outros casos já em curso. O tempo também não se dilata e os voluntários não passam a ter dias de 48 horas sempre que recebem uma nova mensagem.
Ainda nos dizem que quem acompanha uma situação já está cansado. E nós? Há anos que tratamos animais na rua e assumimos dezenas de situações que mais ninguém assume. Quando não conseguimos responder por falta de espaço, tempo ou recursos, f**amos com a angústia de saber que existe um animal a precisar de ajuda e que não conseguimos chegar até ele. O cansaço de quem sinaliza não lhe dá o direito de se demitir e passar-nos toda a responsabilidade.
FIZEMOS RECENTEMENTE UM APELO PARA ACOLHER UMA GATA DE COLÓNIA DURANTE APENAS ALGUNS DIAS, O TEMPO NECESSÁRIO PARA CUMPRIR UM TRATAMENTO. O PEDIDO PASSOU PRATICAMENTE DESPERCEBIDO.
Temos também animais para adoção há meses. Sem adoções não há saídas e, sem saídas, não existem novas vagas. Quando aparece algum acolhimento, são quase sempre as mesmas pessoas a abrir novamente as portas de casas que já estão cheias. Todos querem que se retirem mais animais da rua, mas poucos ajudam a criar espaço para os receber. O “eu não posso, porque já tenho um cão, um gato, um periquito ou um hamster” não pode transformar-se automaticamente no “vocês têm de poder”.
O problema de fundo é a falta de controlo reprodutivo. Enquanto não existirem esterilização massiva e continuada, programas CED ef**azes e responsabilização de quem permite ninhadas sucessivas ou abandona animais, continuarão a nascer muitos mais do que aqueles para os quais existem casas. Nenhum abrigo e nenhuma rede de acolhimento conseguirão acompanhar este ritmo. Continuamos a esvaziar o barco enquanto outros abrem buracos no casco e depois perguntam por que razão ainda há água.
Não vamos sobrelotar casas, amontoar animais ou reduzir a qualidade dos cuidados para responder a mais um pedido. Cada entrada signif**a mais alimentação, mais areia, mais limpeza, mais medicação, mais despesas e menos tempo para quem já depende de nós. Os animais que estão à nossa responsabilidade não vão viver pior porque alguém decidiu que o seu problema passou a ser nosso.
Pedir ajuda implica fazer parte da solução. Quem sinaliza pode criar uma rotina, registar horários, acompanhar o local, transportar, divulgar ou acolher temporariamente. O que não pode é apontar para um animal, entregar o problema aos voluntários e deixar-lhes também a culpa quando a resposta não é aquela que queria ouvir.
Chegámos ao nosso limite e vamos respeitá-lo. Boa vontade não cria espaço, não multiplica pessoas, não prolonga o dia e não substitui a responsabilidade de quem pede ajuda.