29/05/2026
Há momentos em que o silêncio também comunica.Mas existem temas perante os quais permanecer em silêncio deixaria de representar aquilo em que acreditamos enquanto cuidadores, profissionais de saúde e defensores do respeito pelos vínculos afetivos.
Embora esta reflexão seja partilhada através dos meios de comunicação da Associação Obrigato, representa também uma posição pessoal, enquanto enfermeira, cidadã e defensora do respeito pelos vínculos afetivos entre humanos e animais.
Carta Aberta à Reflexão sobre Empatia, Enfermagem e Respeito pelas Relações Humano-Animal
Nos últimos dias, circularam nas redes sociais diversos discursos e opiniões relativamente à hipotética escolha entre salvar uma pessoa desconhecida ou um animal de companhia numa situação extrema. Perante algumas dessas abordagens, senti necessidade de deixar esta reflexão pública, não como forma de ataque ou polémica, mas como um posicionamento pessoal e ético enquanto enfermeira e presidente de uma associação de proteção animal.
A empatia não deve ser seletiva, nem utilizada como instrumento de julgamento moral sobre os outros.
Cada pessoa reage de forma diferente perante situações de perigo, trauma ou emergência. Essas reações são influenciadas por experiências de vida, relações afetivas, contexto emocional e instinto. Por esse motivo, não considero legítimo condenar ou ridicularizar quem afirma que salvaria o seu animal de companhia, um ser que, para muitos, representa família, suporte emocional, estabilidade e amor incondicional.
Reconheço e respeito totalmente quem, perante esse cenário hipotético, escolheria salvar uma pessoa. No entanto, defender essa posição não deve implicar desvalorizar os sentimentos, os vínculos ou a humanidade de quem faria uma escolha diferente.
Os animais de companhia ocupam hoje um papel profundamente significativo na vida de milhões de pessoas. Em muitos casos, são companhia diária de idosos isolados, apoio emocional em situações de doença mental, conforto em períodos de luto e elementos centrais do núcleo familiar. Ignorar esta realidade é ignorar também a evolução do próprio conhecimento científico sobre vínculo afetivo, saúde emocional e bem-estar.
Enquanto profissional de saúde, acredito que a formação científica, ética e humana inerente à Enfermagem deve ser suficiente para promover prudência, equilíbrio e responsabilidade na forma como comunicamos publicamente. O exercício da Enfermagem exige compreensão da complexidade humana, da diversidade emocional e da subjetividade das relações afetivas. Por isso, considero que opiniões pessoais sobre temas desta natureza não devem ser apresentadas como se representassem uma superioridade moral associada à profissão.
Qualquer pessoa tem direito à sua opinião individual e às suas escolhas pessoais. No entanto, quando essas opiniões são expressas publicamente sob a identificação de “enfermeira” ou “profissional de saúde”, existe inevitavelmente um impacto na perceção social da própria profissão. Se determinadas posições forem assumidas, devem sê-lo enquanto cidadã, enquanto ser humano, e não como voz representativa de uma classe profissional cuja essência assenta no cuidado, na empatia e na ausência de julgamento.
Ter empatia pelos animais não diminui a empatia pelos seres humanos. Pelo contrário: a capacidade de cuidar, proteger e amar dificilmente se divide, expande-se.
Que consigamos construir debates mais conscientes, humanos e respeitadores, sem transformar diferenças emocionais em ataques pessoais ou morais.
Ana Sousa
Enfermeira e Presidente da Associação Obrigato