02/09/2026
da Cura 🌻
Os profissionais de saúde ouvem realmente os doentes?
Há uma pergunta que raramente fazemos quando discutimos o estado da saúde em Portugal: estamos a conseguir tratar melhor as doenças sem deixar de ouvir as pessoas que vivem com elas?
🏥 A medicina evoluiu de forma extraordinária. Hoje conseguimos diagnosticar doenças mais cedo, tratar cancros que há poucas décadas tinham opções muito limitadas, controlar sintomas complexos e prolongar vidas em situações que antes seriam consideradas inevitavelmente fatais.
Mas existe uma tensão cada vez mais evidente: há mais conhecimento, mais tecnologia, mais tratamentos e, ao mesmo tempo, uma pressão enorme sobre os sistemas de saúde.
Mais pessoas precisam de cuidados. Mais pessoas vivem com doenças crónicas. A população envelhece. O número de diagnósticos de cancro continua a aumentar. E os profissionais de saúde têm de responder a tudo isto dentro de sistemas que também enfrentam limitações de recursos, falta de profissionais, burocracia, listas de espera e uma pressão crescente para fazer mais em menos tempo.
E, no meio de tudo isto, existe uma coisa que não aparece facilmente numa folha de Excel:
o tempo necessário para ouvir uma pessoa.
👩⚕️ Uma consulta pode ser clinicamente correta e, ainda assim, deixar algo por fazer
Imagine uma consulta de oncologia.
O profissional consulta as análises, vê os exames de imagem, avalia os efeitos secundários, confirma a medicação, decide o próximo passo e regista tudo no processo clínico.
Do ponto de vista técnico, a consulta pode ter corrido perfeitamente.
Mas o doente pode sair dali com uma sensação completamente diferente.
Pode ter pensado: "Não consegui explicar que a dor está muito pior."
Ou: "Não tive coragem de dizer que estou com medo de continuar o tratamento."
Ou: "Não percebi porque é que vão mudar a quimioterapia."
Ou simplesmente: "Ele perguntou-me se estava tudo bem, mas eu não consegui dizer que não."
É aqui que aparece uma diferença fundamental entre transmitir informação e comunicar.
Um profissional pode explicar tudo corretamente. Isso não signif**a necessariamente que o doente tenha compreendido, conseguido fazer as perguntas que precisava ou sentido que as suas preocupações foram verdadeiramente ouvidas.
A investigação em comunicação clínica e oncologia tem demonstrado precisamente a importância de uma abordagem centrada na pessoa, na qual as preocupações, preferências, valores e necessidades do doente fazem parte da decisão clínica, e não são tratadas como algo secundário.
⏰ O problema pode começar muito antes da consulta
É fácil apontar o dedo ao profissional que tem apenas quinze ou vinte minutos para uma consulta complexa.
Mas a realidade é muito maior do que isso.
O profissional também está dentro de um sistema.
Tem outros doentes à espera. Tem resultados para analisar. Tem documentação para preencher. Tem prescrições. Tem reuniões. Tem chamadas. Tem decisões clínicas urgentes. Tem responsabilidades que não aparecem quando olhamos apenas para o tempo que passou dentro do gabinete.
A questão, portanto, não deveria ser simplesmente: "Porque é que o médico não me ouviu?"
Também deveríamos perguntar:
Porque é que organizámos os cuidados de saúde desta forma?
Que valor damos ao tempo de uma consulta?
Quanto tempo é necessário para explicar um diagnóstico de cancro a alguém que acabou de o receber?
Quanto tempo é necessário para perceber se uma pessoa está realmente a tolerar uma quimioterapia?
Quanto tempo é necessário para distinguir uma simples queixa de fadiga de alguém que já não consegue levantar-se da cama?
Quanto tempo é necessário para perceber que "não aguento mais" pode signif**ar muito mais do que cansaço?
Estas coisas não são facilmente contabilizadas.
É muito mais fácil contar o número de consultas realizadas, exames efetuados ou doentes atendidos do que medir a qualidade de uma conversa.
Mas isso não signif**a que a conversa tenha menos importância.
💸 A saúde pública também tem de decidir onde coloca os seus recursos
Esta é uma discussão incómoda, mas necessária.
Os recursos disponíveis para a saúde não são infinitos. Os sistemas públicos precisam de decidir onde investir, como distribuir profissionais, que tecnologias financiar, como organizar os hospitais, como reduzir listas de espera e como responder ao aumento da procura.
A eficiência é importante. Desperdiçar recursos em saúde signif**a retirar esses mesmos recursos a outras pessoas.
Mas eficiência não pode signif**ar simplesmente atender mais pessoas em menos tempo.
Se uma consulta for tão rápida que o doente não consegue explicar aquilo que está a acontecer, podemos ter ganho eficiência num indicador e perdido qualidade noutro.
Se um doente não compreende como deve tomar a medicação, se não reconhece um efeito secundário importante ou se não sabe quando deve procurar ajuda, aquilo que parece uma consulta eficiente pode gerar consequências muito mais caras posteriormente.
A questão não é escolher entre eficiência e humanidade.
É perceber como podemos construir um sistema eficiente sem transformar a pessoa numa unidade de produção clínica.
😷 E o cancro torna tudo ainda mais complexo
Na oncologia, esta questão assume uma dimensão particularmente importante.
Uma consulta pode envolver diagnóstico, estadiamento, prognóstico, cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapêuticas dirigidas, exames moleculares, efeitos secundários e decisões que podem alterar profundamente a vida de uma pessoa.
E tudo isto pode acontecer enquanto o doente está assustado.
É difícil absorver informação complexa quando acabámos de ouvir a palavra "cancro".
É ainda mais difícil quando ouvimos pela primeira vez palavras como "metástase", "progressão", "biomarcador", "resposta parcial" ou "doença avançada".
O profissional pode estar a explicar uma informação que transmite diariamente.
Para o doente, pode ser a informação mais importante e assustadora que alguma vez recebeu.
Esta diferença de perspetiva é fundamental.
O profissional pensa: "Expliquei."
O doente pode estar a pensar: "Não percebi nada, mas tive vergonha de perguntar."
E talvez seja aqui que todos nós precisamos de melhorar.
Ser ouvido não signif**a que o profissional tenha de concordar connosco
Também é importante não transformar esta discussão numa guerra entre doentes e profissionais de saúde.
Ser ouvido não signif**a obter aquilo que pedimos.
Um médico pode explicar que determinado exame não é necessário. Pode recusar um tratamento sem benefício comprovado. Pode recomendar uma opção diferente daquela que o doente gostaria.
Um enfermeiro pode explicar que determinado comportamento não é seguro. Um psicólogo pode confrontar uma ideia que está a prejudicar o doente.
Discordar não é desrespeitar.
O problema começa quando a pessoa sente que nem sequer teve oportunidade de explicar o que está a viver.
Uma boa comunicação não signif**a dizer sempre "sim". Signif**a permitir que exista uma conversa suficientemente aberta para que o doente consiga compreender a decisão e participar nela.
É também neste contexto que uma segunda opinião não deveria ser encarada automaticamente como falta de confiança.
Pedir outra opinião pode signif**ar simplesmente que uma pessoa está perante uma decisão demasiado importante para a tomar sem procurar esclarecimento adicional.
📢 E se o doente não disser aquilo que realmente está a acontecer?
Esta é outra parte da equação.
Nem toda a responsabilidade está do lado do profissional.
Há doentes que escondem sintomas porque não querem "chatear".
Há pessoas que dizem que a dor é "mais ou menos" porque têm medo de parecer exageradas.
Há quem não conte que deixou de tomar um medicamento porque receia ser julgado.
Há quem não diga que está deprimido.
Há quem não diga que está aterrorizado.
Há quem não diga que está a pensar desistir.
E há quem simplesmente não saiba explicar aquilo que está a sentir.
Por isso, comunicação clínica não pode ser apenas perguntar "Está tudo bem?"
É preciso criar condições para que a resposta possa ser honestamente:
"Não."
E depois perguntar:
"Conte-me o que está a acontecer."
⛓️💥 Talvez o problema esteja também na forma como ensinamos os doentes a participar
Durante muito tempo, a relação entre profissional de saúde e doente foi excessivamente paternalista: o profissional sabia, o doente recebia a informação e seguia as instruções.
Hoje sabemos que a participação do doente pode ser muito mais rica.
Isso não signif**a transformar o doente num médico.
Signif**a dar-lhe ferramentas para compreender o que está a acontecer e participar nas decisões.
Uma pessoa que sabe o que signif**a "neutropenia" consegue perguntar algo diferente de alguém que nunca ouviu o termo.
Uma pessoa que entende a diferença entre tratamento adjuvante e tratamento paliativo consegue interpretar uma conversa de forma diferente.
Uma pessoa que sabe caracterizar a própria dor consegue descrevê-la melhor.
Uma pessoa que sabe que tem direito a pedir esclarecimentos provavelmente terá menos medo de dizer:
"Não compreendi. Pode explicar novamente?"
E isto é importante porque um doente informado não é um doente contra o profissional de saúde. É um parceiro mais preparado para trabalhar com ele.
🙉 Então, os profissionais de saúde estão realmente a ouvir?
Alguns estão. E extraordinariamente bem.
Existem médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, auxiliares e tantos outros profissionais que fazem uma diferença enorme simplesmente porque conseguem parar durante alguns minutos e olhar verdadeiramente para a pessoa que têm à frente.
Há doentes que nunca esquecem aquele profissional.
Não necessariamente porque lhes deu a notícia que queriam ouvir.
Mas porque, naquele momento, sentiram que alguém estava verdadeiramente ali com eles.
Também existem profissionais que trabalham em condições extremamente difíceis e fazem tudo o que conseguem dentro do tempo e dos recursos que têm.
E existem situações em que a comunicação falha.
Às vezes por falta de tempo. Às vezes por excesso de trabalho. Às vezes por falta de formação em comunicação. Às vezes porque o profissional não percebeu a importância daquela queixa. E, infelizmente, também podem existir situações em que o doente é efetivamente desvalorizado.
Não precisamos de fingir que todas as experiências são iguais.
Não são.
E talvez seja esta a pergunta que deveríamos fazer
Não apenas:
"Os profissionais de saúde ouvem os doentes?"
Mas:
"Estamos a construir um sistema de saúde onde os profissionais tenham condições para ouvir os doentes?"
Porque a qualidade dos cuidados não pode ser medida apenas pela quantidade de exames realizados, pela rapidez de uma consulta ou pelo número de doentes atendidos.
Também precisamos de perguntar se a pessoa percebeu o que lhe aconteceu.
Se conseguiu colocar as perguntas que precisava.
Se conseguiu falar dos sintomas que realmente tinha.
Se participou na decisão.
Se sentiu respeito.
E, sobretudo, se saiu dali sabendo o que vai acontecer a seguir.
👂 Agora queremos ouvir quem esteve desse lado
Este artigo não foi escrito para acusar médicos, enfermeiros ou outros profissionais de saúde.
Foi escrito para abrir uma conversa.
Porque os profissionais de saúde são pessoas e trabalham dentro de sistemas com limitações reais. Mas os doentes também são pessoas, e estão frequentemente no momento mais vulnerável das suas vidas.
Por isso, queremos saber a vossa experiência.
Quando tiveram de enfrentar uma doença grave, sentiram que foram verdadeiramente ouvidos?
Sentiram que houve tempo para explicar aquilo que estavam a sentir? Conseguiram falar das dores, das náuseas, da fadiga, do medo ou da vontade de desistir? Sentiram que as vossas preocupações foram levadas a sério?
Ou saíram alguma vez de uma consulta com a sensação de que tinham coisas importantes para dizer, mas simplesmente não houve espaço para as dizer?
E há uma pergunta ainda mais importante:
Houve algum profissional de saúde que tenha feito a diferença precisamente porque soube ouvir?
Contem-nos.
Queremos conhecer as experiências boas, as más e todas as que f**am algures no meio.
Porque uma experiência partilhada pode ajudar um doente a perceber que não está sozinho. E pode também ajudar um profissional a compreender como determinada atitude sentida do outro lado da mesa Caminho da Cura 🌻
Conhecer não signif**a desconfiar.
Perguntar não signif**a desafiar.
Pedir uma segunda opinião não signif**a trair ninguém.
Signif**a participar.
E quanto melhor compreendermos aquilo que está a acontecer, mais preparados estaremos para ter uma conversa verdadeiramente útil com quem nos acompanha.
O Percurso do Doente Oncológico está disponível em formato digital e, depois da aquisição, f**a para sempre no seu telemóvel, tablet ou computador.
O link para adquirir o livro está nos comentários.
Caminho da Cura 🌻