02/04/2026
Hesitei. Hesitei mais do que queria admitir antes de escrever estas palavras e trazê-las para este espaço público — talvez porque hoje, 2 de abril, não seja apenas mais uma data, mas um daqueles dias que nos obrigam a olhar de frente para aquilo que muitas vezes preferimos ignorar. Porque há coisas que nos atravessam de forma tão íntima que quase parecem não caber numa rede social. Mas talvez seja precisamente por isso que precisam de ser ditas.
Sou pai de um jovem autista. Amo o meu filho com tudo o que sou — mas odeio, profundamente, aquilo que o autismo lhe faz. Odeio ver como, por vezes, o prende numa espécie de cela invisível, sem grades, onde o mundo parece distante, confuso, inacessível.
Hoje assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo.
Todos os anos se fala mais. Publica-se mais. Partilha-se mais. E, curiosamente, faz-se cada vez menos.
O número de pessoas no espectro do autismo continua a aumentar em todo o mundo. Não porque “agora haja mais”, mas porque finalmente se começa a diagnosticar, a reconhecer, a dar nome ao que sempre existiu. E mesmo assim, continuamos presos a gestos simbólicos e vazios.
Fala-se tanto de autismo que já se tornou suspeito. Porque, muitas vezes, falar muito é apenas uma forma confortável de não agir. Uma maneira de aliviar a consciência sem mudar rigorosamente nada.
As forças políticas e sociais usam o autismo e a inclusão como bandeira — bonita, visível, conveniente. Serve para mostrar humanidade, para ganhar aplausos, para parecer que se está do lado certo. Mas depois? Onde estão as medidas concretas? Onde está o apoio real às famílias? Onde estão os recursos nas escolas, nos serviços, na comunidade?
E nas redes sociais, repete-se o teatro: correntes que pedem para “ensinar os nossos filhos a brincar com crianças autistas”. Publicações emocionadas, partilhas em massa, uma avalanche de boas intenções. Mas quantos fazem disso prática diária? Quantos ensinam verdadeiramente os filhos a respeitar a diferença quando ninguém está a ver?
E nas escolas? Quantos professores se esforçam genuinamente por conhecer estas crianças, por compreender os seus ritmos, os seus desafios, as suas formas únicas de estar? Quantos preferem o rótulo fácil, o caminho mais simples, a tentativa de encaixar todos no mesmo molde?
O autismo não é um texto bonito nem uma data no calendário.
É exigente. Dá trabalho. Obriga a sair da zona de conforto. Obriga a olhar, a escutar, a adaptar.
Talvez esteja na altura de parar de falar tanto… e começar, finalmente, a fazer.