21/01/2025
European Jews for Palestine - Judeus Europeus pela Palestina
DECLARAÇÃO
O legado do Holocausto pertence a todos os judeus e não apenas aos sionistas
A rede European Jews for Palestine (Judeus Europeus pela Palestina) foi excluída da Conferência relativa ao Dia da Memória do Holocausto de 21 de janeiro
A European Jews for Palestine (EJP), enquanto rede agregadora de grupos e colectivos judeus, manifesta a sua preocupação, tristeza e até ultraje por vermos o nosso trauma histórico ser cooptado pelo Estado de Israel, pelos governos europeus e pela própria UE. Acreditamos que, como judeus que vivem na Europa, temos uma palavra a dizer sobre a forma como a história do Holocausto é contada, e sobre os propósitos que serve esta narrativa, bem como os que não deveria servir. Estamos especialmente alarmados ao constatarmos que o Dia Internacional da Memória do Holocausto deste ano está a ser cinicamente utilizado para apoiar as narrativas
pro-israelitas, e ainda para defender o Estado pária de Israel e o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu de prestarem contas, ao ponto de as vozes judaicas não-sionistas serem explicitamente mantidas de fora.
A Comissão Europeia e a Presidência polaca do Conselho da UE organizam no próximo dia 21 de janeiro (hoje) um evento internacional designado como Conferência relativa ao Dia da Memória do Holocausto: Relembrar o Passado, Moldar o Futuro (Holocaust Remembrance Conference: Remembering the Past, Shaping the Future). No passado dia 16 de dezembro, reunimos
com Katharina Von Schnurbein, coordenadora da UE para o combate ao antissemitismo e promoção da vida judaica. Na sequência desta reunião, a EJP endereçou uma carta à Sra von
Schnurbein, solicitando participar na referida conferência. Infelizmente, a Sra von Schnurbein deixou sem resposta esta missiva de 16 de dezembro, deixando assim bem claro que ela e o
seu gabinete estão interessados em representar algumas vozes judaicas, mas não todas.
Verificando que a Conferência em Memória do Holocausto está a ser organizada em parceria com onze organizações judaicas, todas elas explicitamente comprometidas no apoio político a Israel e muitas das quais trabalham em estreita colaboração com a Missão de Israel na UE, perguntamos por que é que a nossa rede, que reúne um importante eleitorado judaico na Europa, não consta dos convidados para este evento. A inclusão no evento de organizações
americanas como o Congresso Judaico Americano ou a B’nai Brith, ao passo que colectivos de judeus europeus como o nosso ficam de fora é altamente perturbadora. Questionamos ainda a falta de representação cigana na programação, apesar das centenas de milhares de ciganos dizimados em Auschwitz.
A exclusão da EJP enquanto rede judaica serve apenas para dividir os judeus entre aceitáveis e inaceitáveis, merecedores e não merecedores. A Conferência relativa ao Dia da Memória do
Holocausto tem supostamente como objectivo honrar os nossos antepassados e dar forma ao nosso legado cultural de judeus na Europa; mas como pode isto ser feito ao mesmo tempo que
se ignoram as vozes de tantos judeus com base na sua posição política? Sabemos que Política, História e Cultura estão intimamente interligadas. Ao convidar unicamente as
organizações pró-israelitas, tendo assim em consideração apenas os seus pontos de vista, a Comissão Europeia arrisca-se a perpetuar o mito, esse sim antissemita, da homogeneidade política no seio da comunidade judaica. Esta postura exclusivista e politizada só serve para negar os ensinamentos de um dos crimes mais odiosos alguma vez cometidos pela sociedade europeia, o Holocausto.
Condenamos a decisão da Polónia de convidar o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu para a Cerimónia em Auschwitz
Enquanto organizações judaicas, queremos ainda frisar que estamos ultrajados com a decisão do governo polaco de anuir ao pedido do Presidente Andrzej Duda, no passado dia 9 de
janeiro, que seja permitida a entrada no país do procurado criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, em flagrante desrespeito pelo mandado de captura internacional emitido pelo
Tribunal Penal Internacional (TPI) no passado dia 21 de novembro.
Este mandado foi emitido tendo como base a responsabilidade pessoal de Netanyahu enquanto primeiro-ministro pelos crimes contra a humanidade que têm vindo a ser perpetrados pelo seu governo sobre a população palestiniana de Gaza, incluindo o de condenar uma população civil a morrer de fome como técnica de guerra.
O mandado do TPI é legalmente vinculativo para todos os 125 membros do tribunal, o que inclui a Polónia e obriga todos os estados-membros a procederem à detenção de Netanyahu se
este tentar atravessar as suas fronteiras. A vergonhosa decisão de proteger Netanyahu, impedindo a sua detenção, revela a extensão da cumplicidade do Estado polaco com os crimes de ódio cometidos pelo Estado de Israel, assim como do seu total desrespeito pelos tribunais e pelo direito internacionais.
Esta decisão reveste-se de um carácter tanto mais insultuoso para nós como colectivos de judeus, porquanto a explicação dada para a mesma é de que Netanyahu deve ser autorizado a visitar a Polónia pelo 80º aniversário, a 27 de janeiro de 2025, da libertação do campo de concentração de Auschwitz, onde um milhão e cem mil judeus foram assassinados durante o Holocausto.
Em 2005, a Assembleia-Geral das Nações Unidas designou o dia 27 de janeiro como Dia Internacional de Memória do Holocausto, ao abrigo da Resolução 60/7. Nesta Resolução declara-se que o objectivo desta efeméride é garantir a preservação da memória do Holocausto a fim de “prevenir futuros actos de genocídio”. Contudo, como sabemos, Israel, sob o regime de Netanyahu, foi considerado pelo TPI como estando em “risco iminente” de cometer um genocídio.
Permitir que este criminoso de guerra participe num evento desta natureza constitui um verdadeiro insulto à memória do nossos antepassados judeus que foram cruelmente massacrados em Auschwitz. Esta decisão demonstra a vontade da Polónia de participar no negacionismo do genocídio, e aponta claramente para o quão pouco o governo polaco aprendeu do seu passado ra***ta, que causou o sofrimento de tantos judeus antes, durante e
depois o Holocausto.
Enquanto judeus, apelamos a que, no mínimo dos mínimos, o governo polaco cumpra a sua obrigação de acatar o direito internacional e reverta imediatamente a sua decisão de proteger
Netanyahu. Tudo o que seja menos que isto só poderá ser considerado como um acto de cumplicidade com o genocídio que Israel está a cometer contra o povo palestiniano.
A Memória do Holocausto deve servir o propósito de prevenir o genocídio e não de o apoiar
Enquanto judeus que residem na Europa, muitos dos quais descendentes de sobreviventes do Holocausto, o nosso compromisso é: ‘Nunca Mais, para Ninguém’. Acreditamos que a melhor maneira de propagar as lições a retirar do Holocausto é através de um combate sem tréguas a todas as formas de opressão, apartheid, limpeza étnica, racismo ou genocídio, o que inclui a amplamente documentada e prolongada opressão do povo palestiniano pelo Estado de Israel, assim como o genocídio em curso na Faixa de Gaza.
Opomo-nos a esta situação, em que as nossas identidades judaicas estão a ser mantidas como reféns e a servir de ferramentas para a opressão dos palestinianos em particular e dos muçulmanos em geral. É doloroso assistir a este abuso do nosso trauma colectivo enquanto judeus para servir o perverso propósito de proteger o Estado de Israel da prestação de contas pelos seus crimes. Reclamamos que a memória do Holocausto seja mantida fora do espartilho do pensamento sionista e colonial e queremos recordar ao mundo que nunca haverá desculpa
para o genocídio.
https://jewsforpalestine.eu/?fbclid=IwY2xjawH8c_NleHRuA2FlbQIxMQABHSjofS4sja24UdBnM08srLW_N9pXR3ZDJYzTiMkeeg7BUVgO03xE6xGVqw_aem_JEKr6qcdrw4ulhyvqY7C0w