11/10/2026
Este mês, a revista alemã "Descubra o Algarve", fala sobre o Lagos mais Verde! 🤩 Obrigado Gaspar e Karsten
[English below]
Tradução em português:
Lagos Mais Verde – Do sonho a um movimento cívico
Num terreno abandonado há anos, no coração de Lagos, poderá nascer um lugar onde a natureza e a cidade se encontram. A ideia surgiu há três anos a Joana Reis. Hoje, transformou-se num movimento cívico. Mas, até que o seu «bebé» se torne um verdadeiro parque, ainda há muito por fazer.
«Em 2023, nasceu em mim o desejo de sonhar com Lagos de outra forma.» É assim que começa a história de Joana Reis e do seu Parque Verde de Lagos. A psicóloga conhecia o terreno da antiga escola E.B. 2,3, popularmente conhecida como Ciclo Velho, desde a sua própria infância. Há mais de dez anos que o espaço se encontra, em grande parte, sem utilização. Quando passou por ali, começou a imaginar o que aquele lugar poderia vir a ser. «Tinha a sensação de que a nossa cidade se estava a transformar numa selva de betão», afirma. «E de que Lagos precisa de um espaço para a natureza, para os seus habitantes e para o futuro.»
Na sua opinião, o terreno era ideal para esse fim. Joana começou a pesquisar, aprofundou os seus conhecimentos sobre renaturalização e planeamento urbano ecológico e redigiu a primeira versão do projeto. Depois, apresentou-a sozinha à Câmara Municipal. «Na altura, claro, não deu em nada», conta, sorridente.
Mas não estava disposta a desistir. Procurou pessoas que pudessem apoiar a sua ideia e encontrou, entre outros, aliados na Quinta Vale da Lama, uma propriedade perto de Odiáxere dedicada à agricultura regenerativa e à permacultura. Outros foram-se juntando. Da iniciativa pessoal nasceu o movimento cívico Lagos Mais Verde.
«Hoje, já não é um projeto individual, mas um sonho coletivo», afirma Joana, entusiasmada. O conceito foi sendo desenvolvido e enriquecido com sugestões da população. A equipa central integra arquitetos paisagistas, especialistas em renaturalização e florestas Miyawaki, bem como designers.
# # Porque é que Lagos precisa de um parque?
Para Joana, a necessidade de um parque deste género é evidente. Lagos cresceu significativamente nos últimos anos, enquanto os espaços verdes se tornaram cada vez mais escassos na paisagem urbana. Refere uma orientação de planeamento urbano segundo a qual cada pessoa deveria ter acesso a um espaço verde a cerca de 300 metros de distância. Em Lagos, considera que isso não acontece. Segundo os seus cálculos, a cidade dispõe de apenas cerca de 5,7% de espaços verdes. Ainda em fevereiro e março deste ano, foram abatidas várias árvores no centro de Lagos.
O antigo terreno escolar tem também um grande valor afetivo para ela. Muitos habitantes de Lagos frequentaram a escola que ali existia. Além disso, o terreno foi doado pelo seu proprietário original para benefício da comunidade.
«Não é possível construir ali uma nova escola, porque isso provocaria um caos no trânsito», explica Joana. «Mas um parque público também serviria toda a comunidade.»
Na sua perspetiva, a localização e as características do terreno reforçam igualmente a sua adequação. Antigamente, encontrava-se ali a zona de foz da Ribeira de Bensafrim, pelo que o solo é particularmente fértil. Ainda existem árvores de maior porte no terreno. O espaço está vedado, ficando assim separado da rua. Esta característica poderá também trazer vantagens em termos de segurança quando vier a ser transformado num parque público.
# # Uma floresta urbana inspirada no Japão
O terreno, com pouco mais de dois hectares, não deverá dar origem a um parque urbano convencional. Relvados, árvores ornamentais isoladas e canteiros cuidadosamente organizados não correspondem à visão do Lagos Mais Verde. A prioridade será a renaturalização e uma abordagem tão próxima quanto possível dos processos naturais.
O elemento central será uma floresta com cerca de 300 metros quadrados, criada segundo o método Miyawaki. Este método consiste em plantar, muito próximas umas das outras, sobretudo espécies autóctones adaptadas às condições climáticas locais. O objetivo é criar, numa área reduzida, um habitat semelhante a uma floresta e rico em biodiversidade.
«É um plano que aposta fortemente na renaturalização e na natureza.» Por isso, a filosofia da floresta Miyawaki deverá estender-se a todo o parque: plantas autóctones, necessidades de rega tão reduzidas quanto possível e uma conceção que não se limite a decorar a natureza, mas que lhe dê espaço para se desenvolver. Pretende-se que 80% da área total permaneça verde.
Um dos espaços especiais do parque será o «Jardim Secreto da Tranquilidade». Joana imagina um lugar quase mágico, destinado às crianças e com passagens secretas. Ao mesmo tempo, o jardim deverá oferecer uma zona mais tranquila e meditativa para os adultos.
Estão também previstas áreas de piquenique e dois parques infantis com conceitos distintos. Um será mais orientado para a brincadeira em grupo e para o convívio social; o outro privilegiará as experiências sensoriais. A pedido da população, foi igualmente incluída no projeto uma zona amiga dos cães.
# # Mais do que um parque
A natureza não deverá ser apenas vivida neste parque: deverá também ser um espaço de aprendizagem. Está prevista uma área específica para as escolas, que permitirá realizar atividades letivas ao ar livre.
Este aspeto é particularmente importante para Joana. «O contacto com a natureza não tem apenas valor pedagógico; é também importante para a saúde das crianças», afirma a psicóloga. «Os estudos associam o tempo passado na natureza, entre outros benefícios, a níveis mais baixos de stress, a um melhor bem-estar psicológico e a uma maior atividade física.»
Joana refere ainda possíveis efeitos positivos no sistema imunitário e nas relações sociais, bem como uma eventual redução dos sintomas de ansiedade e depressão.
Também para os adultos, Joana identifica benefícios para a saúde associados ao contacto com a floresta. Refere os fitoncidas produzidos pelas árvores e os estudos sobre o *shinrin-yoku*, a prática japonesa conhecida como «banhos de floresta». Estas investigações analisam, entre outros aspetos, os possíveis efeitos sobre o stress, a pressão arterial e determinados parâmetros da função imunitária.
«Acho isto extraordinário. As árvores podem realmente influenciar o nosso sistema imunitário», afirma, entusiasmada.
O parque projetado pretende, por isso, ser muito mais do que uma área de lazer adicional. A atividade física, a sombra, o contacto com a natureza, o convívio social e os espaços de tranquilidade poderão contribuir, em conjunto, para uma vida urbana mais saudável.
# # Verde apesar da seca
Um parque no Algarve levanta, naturalmente, uma questão: de onde virá a água?
Joana conhece bem esta objeção. «Houve pessoas que perguntaram como conseguiríamos manter um espaço verde tendo em conta o clima do Algarve e os anos de seca que temos vivido.»
A resposta está na escolha das plantas. Não se pretende criar um jardim tropical com espécies que necessitem de rega constante, mas sim um ecossistema composto por espécies autóctones e adaptadas à seca. Joana reconhece que será necessário regar durante os primeiros dois a três anos. Depois desse período, espera-se que as plantas consigam regular-se progressivamente de forma autónoma.
Está igualmente prevista a recolha de água da chuva. Os painéis solares a instalar nos telhados deverão ser combinados com um sistema de aproveitamento de águas pluviais. A água será armazenada num depósito subterrâneo e utilizada posteriormente para a rega ou para alimentar o lago previsto no projeto.
«A própria vegetação também pode contribuir para a gestão da água. As árvores e outras plantas melhoram a retenção de água no solo, favorecem a infiltração e podem ajudar a regular o microclima local. Ao mesmo tempo, criam habitats para insetos, aves e outros animais», explica Joana.
# # Apoio popular, mas ainda sem garantias
Para Joana, a petição demonstra que o projeto deixou há muito de ser apenas o seu «bebé» pessoal. Um total de 4300 pessoas assinou o pedido, tanto online como em papel. Apenas uma petição anterior, relativa à construção de um novo hospital, conseguiu reunir mais apoio, com pouco mais de 5000 assinaturas.
«Isto demonstra a grande participação da população e mostra que as pessoas querem este projeto», considera Joana.
Também a nível político, o Lagos Mais Verde alcançou uma etapa importante. No final de abril, a Assembleia Municipal de Lagos votou por unanimidade a favor da criação de um Parque Verde Municipal, com base no projeto apresentado pelo movimento cívico.
«Desta forma, a Assembleia Municipal transmitiu um sinal político claro. No entanto, a concretização do projeto depende da Câmara Municipal. E, até agora, não houve qualquer compromisso por parte da Câmara», afirma Joana.
A autarquia tem os seus próprios planos para ampliar o Anel Verde e o Parque da Cidade, junto à antiga muralha da cidade. Contudo, não existe um projeto municipal específico para a criação de um parque no terreno do Ciclo Velho.
Para o Lagos Mais Verde, o próximo passo é, por isso, decisivo: a Câmara Municipal terá de decidir se o sinal político dado pela Assembleia se traduzirá num projeto efetivamente concretizável.
# # Gestão partilhada
O movimento não pretende ficar à margem do processo. Propõe a criação de uma associação própria para o futuro parque, com o nome Parque Verde de Lagos, cuja presidência poderia caber ao presidente da Câmara.
A ideia é que a autarquia e o movimento cívico assumam conjuntamente a responsabilidade pelo parque, não apenas ao nível da conceção, mas também da gestão financeira e organizacional.
Ainda não existe uma estimativa completa dos custos de todo o parque. Para isso, seriam necessários estudos e projetos técnicos que o movimento, que trabalha de forma voluntária, não tem capacidade financeira para custear.
No entanto, já existe um orçamento para a floresta Miyawaki: cerca de 20 000 euros para a sua instalação, incluindo as plantas, a manutenção durante o primeiro ano e a realização de atividades destinadas à população.
Paralelamente, o Lagos Mais Verde está à procura de possíveis apoios financeiros e admite também estabelecer parcerias e recorrer a patrocinadores privados.
Para Joana, o projeto continua a ser, no fundo, aquilo que já era em 2023: uma ideia para uma forma diferente de viver e pensar a sua cidade. A diferença é que o seu sonho pessoal se transformou entretanto num projeto coletivo.
O seu «bebé» cresceu. Agora, cabe à Câmara Municipal decidir se lhe dará, de facto, espaço para florescer.
[Translation in english]
Lagos Mais Verde – From a Dream to a Citizens’ Movement
A long-neglected site in the heart of Lagos could become a place where nature and the city come together. Joana Reis first came up with the idea three years ago. Today, it has grown into a citizens’ movement. But there is still a great deal to do before her “baby” can become a real park.
“In 2023, I began to dream of Lagos differently.” This is how the story of Joana Reis and her Parque Verde de Lagos begins. The psychologist had known the grounds of the former E.B. 2,3 school, popularly known as Ciclo Velho, since her own childhood. For more than ten years, the site has remained largely unused. Whenever she passed by, she began to imagine what the place could become. “I felt that our city was turning into a concrete jungle,” she says. “And that Lagos needed a place for nature, for its residents and for the future.”
She believed the site was ideal for this purpose. Joana began researching the subject, learning about ecological restoration and sustainable urban planning, and drafting the first version of the project. She then took it to the municipal council on her own. “Of course, nothing came of it at the time,” she says with a smile.
But she was not prepared to give up. She began looking for people who might support her idea and found allies at Quinta Vale da Lama, among other places. Located near Odiáxere, this estate focuses on regenerative agriculture and permaculture. More supporters gradually joined the initiative. What had begun as a personal undertaking became the citizens’ movement Lagos Mais Verde.
“Today, it is no longer an individual project, but a collective dream,” Joana says enthusiastically. The concept has continued to evolve, incorporating suggestions from local residents. The core team includes landscape architects, specialists in ecological restoration and Miyawaki forests, as well as designers.
# # Why does Lagos need a park?
For Joana, the need for a park like this is obvious. Lagos has grown considerably in recent years, while green spaces have become increasingly scarce in the urban landscape. She points to an urban planning guideline suggesting that everyone should have access to a green space within approximately 300 metres of their home. In her view, this is not the case in Lagos. According to her calculations, green spaces account for only around 5.7 per cent of the city. Several trees were still felled in central Lagos in February and March of this year.
The former school grounds also hold considerable sentimental value for her. Many Lagos residents attended school there themselves. Furthermore, the land was donated by its original owner for the benefit of the community.
“A new school cannot be built there because it would cause traffic chaos,” Joana explains. “But a public park would also serve the entire community.”
In her view, the site’s location and physical characteristics make it particularly suitable. The area was once part of the estuary of the Ribeira de Bensafrim, which explains the fertility of the soil. Some mature trees still stand on the grounds. The site is fenced off, separating it from the road. This could also offer security advantages if the land is eventually turned into a public park.
An urban forest inspired by Japan
The site covers just over two hectares, but the plan is not to create a conventional urban park. Lawns, isolated ornamental trees and neatly arranged flower beds do not fit the vision of Lagos Mais Verde. The emphasis is on ecological restoration and a design that follows natural processes as closely as possible.
The centrepiece will be a forest of around 300 square metres created using the Miyawaki method. This approach involves planting predominantly native species, adapted to local climatic conditions, close together. The aim is to create a biodiverse, forest-like habitat within a relatively small area.
“It is a plan that focuses strongly on ecological restoration and nature.” The principles behind the Miyawaki forest are therefore intended to shape the entire park: native plants, minimal irrigation requirements and a design that does not simply decorate nature, but gives it room to thrive. The aim is for 80 per cent of the total area to remain green.
One special feature of the park will be the “Secret Garden of Tranquillity”. Joana imagines an almost fairytale-like space for children, complete with hidden passageways. At the same time, the garden will offer adults a quieter, more meditative area.
Picnic areas and two playgrounds with different purposes are also planned. One will focus on group play and social interaction, while the other will encourage sensory experiences. At the request of local residents, a dog-friendly area has also been incorporated into the design.
More than just a park
Nature in this park will not simply be something to experience; it will also be something to learn about. A dedicated area for schools is planned, allowing lessons to take place outdoors.
This aspect is particularly important to Joana. “Experiencing nature is not only educationally valuable; it is also important for children’s health,” the psychologist says. “Studies have linked time spent in nature to lower stress levels, improved psychological well-being and increased physical activity, among other benefits.”
Joana also points to possible positive effects on the immune system and social relationships, as well as a potential reduction in symptoms of anxiety and depression.
Joana sees health benefits for adults in spending time in woodland, too. She refers to phytoncides produced by trees and to research into *shinrin-yoku*, the Japanese practice commonly known as “forest bathing”. These studies examine, among other things, the possible effects on stress, blood pressure and certain measures of immune function.
“I find it incredible. Trees really can influence our immune system,” she says enthusiastically.
The proposed park is therefore intended to be much more than an additional recreational space. Physical activity, shade, contact with nature, social interaction and places for quiet reflection could all contribute to a healthier urban life.
Staying green despite drought
A park in the Algarve inevitably raises an obvious question: where will the water come from?
Joana is familiar with this concern. “Some people have asked how we intend to maintain a green space given the Algarve’s climate and the droughts of recent years.”
The answer lies in the choice of plants. The plan is not to create a tropical garden full of species that require constant watering, but an ecosystem made up of native and drought-adapted plants. Joana acknowledges that irrigation will be necessary during the first two to three years. After that, the plants should increasingly be able to sustain themselves.
Rainwater harvesting is also part of the plan. Solar panels on the roofs are to be combined with a rainwater collection system. The water will be stored in an underground tank and later used for irrigation or for the planned pond.
“Vegetation itself can also contribute to water management. Trees and other plants improve water retention in the soil, encourage infiltration and can help regulate the local microclimate. At the same time, they create habitats for insects, birds and other animals,” Joana explains.
# # Public support, but no commitment yet
For Joana, the petition is further proof that the project has long since outgrown her personal “baby”. A total of 4,300 people have signed the petition, both online and on paper. Only an earlier petition calling for a new hospital attracted more support, with just over 5,000 signatures.
“This demonstrates strong public participation and shows that people want this,” Joana says.
Lagos Mais Verde has also reached an important milestone politically. At the end of April, the Lagos Municipal Assembly voted unanimously in favour of creating a Municipal Green Park based on the project submitted by the citizens’ movement.
“This means that the Municipal Assembly has sent a clear political signal. However, responsibility for implementation lies with the municipal council, and so far there has been no commitment from the council,” Joana says.
The municipality has its own plans to expand the Anel Verde, or Green Ring, and the Parque da Cidade near the old city walls. However, it has no dedicated municipal project for creating a park on the Ciclo Velho site.
For Lagos Mais Verde, the next step is therefore crucial: the municipal council must decide whether the political support expressed by the assembly will lead to a project that can actually be implemented.
Shared management
The movement does not want to remain on the sidelines. It proposes establishing a dedicated association for the future park, to be called Parque Verde de Lagos, with the mayor potentially serving as its president.
The idea is for the municipality and the citizens’ movement to share responsibility for the park, not only for its design and development, but also for its financial and organisational management.
There is still no comprehensive cost estimate for the entire park. Technical plans and studies would first be required, and the volunteer-run movement does not have the financial resources to fund them.
A budget has already been drawn up for the Miyawaki forest, however: around €20,000 to establish it, including the plants, maintenance during the first year and activities for the local community.
At the same time, Lagos Mais Verde is exploring potential sources of funding and is also open to partnerships and private sponsorship.
For Joana, the project remains, at its heart, what it was in 2023: an idea for a different way of relating to her city. The difference is that her personal dream has now become a collective undertaking.
Her “baby” has grown. Now the municipal council must decide whether it will give it the space it needs to flourish.
Lagos Mais Verde - Vom Traum zur Bürgerbewegung