Parceria Social pela Solidariedade

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05/06/2026

Hoje adulto…
eu percebo coisas que quando criança pareciam completamente normais.

Lembro perfeitamente da escola primária.

Logo pela manhã, antes das aulas, todos os alunos formavam filas no pátio ao som do hino nacional.

Enquanto um colega levantava a bandeira…
nós ficávamos imóveis,
em silêncio,
como pequenos militares aprendendo disciplina desde cedo.

E existia uma regra que ninguém questionava:

👉🏾 os meninos negros não podiam ter cabelo grande.

Tinha que ser:
máquina baixa,
corte zero,
bem raspado.

Black power?
Errado.

Dread?
Errado.

Cabelo afro volumoso?
“Desarrumado.”

Mas existia um detalhe estranho nisso tudo.

Os meninos brancos…
principalmente filhos de portugueses e estrangeiros que viviam no país…

muitas vezes apareciam com:
cabelos compridos,
cacheados,
volumosos…

e aquilo parecia aceitável.

Natural.

Bonito até.

Ninguém mandava cortar.

E talvez o mais assustador seja que nós mesmos quase nunca percebíamos isso.

Porque crescemos aprendendo silenciosamente que:

👉🏾 o cabelo africano precisava ser “controlado.”

Como se o problema fosse o cabelo.

Mas hoje eu entendo uma coisa:

o problema nunca foi o cabelo.

Era quem carregava o cabelo.

Porque o mesmo volume que no menino branco era visto como:
“estiloso”
ou “normal”…

no menino preto virava:
“rebeldia”,
“falta de educação”
ou “má aparência.”

E talvez exista uma pergunta ainda mais desconfortável:

👉🏾 quem ensinou que cabelo grande é sinônimo de bandido?

Porque em muitos lugares da África…
até hoje…

inclusive em algumas igrejas…

se você quiser subir ao púlpito,
ser visto como “disciplinado”
ou passar imagem de “homem sério”…

esperam que você:
use fato e gravata,
mantenha o cabelo raspado
e esteja o mais próximo possível de um padrão considerado “apresentável.”

Enquanto isso…

cabelo afro grande,
dread,
black power
ou estilos mais naturais…

ainda fazem muita gente automaticamente associar a:
desordem,
rebeldia
ou má conduta.

E talvez o mais doloroso seja perceber que tudo isso acontece…
num continente de maioria negra.

Outro dia lembrei disso quando uma mãe apareceu revoltada numa escola porque o filho tinha chegado em casa chorando.

👉🏾 Tinham cortado o cabelo dele.

Ela fez escândalo.
Processou a escola.
Brigou com a direção.

Na época, muita gente achou exagero.

Mas talvez ela apenas enxergasse algo que nós ainda não entendíamos.

Porque algumas pessoas já perceberam há muito tempo que certas regras nunca foram apenas sobre “disciplina.”

E sim sobre quais traços a sociedade aprendeu a considerar aceitáveis.

Durante séculos, o colonialismo não ocupou apenas terras africanas.

Ele também ocupou:
a mente,
os padrões de beleza,
as escolas,
as regras
e a forma como muitos africanos aprenderam a enxergar a própria aparência.

Talvez por isso tantas crianças negras cresceram tentando corrigir algo que nunca esteve errado.

O cabelo.
A textura.
A identidade.

E talvez uma das maiores vitórias do colonialismo tenha sido fazer povos africanos acreditarem que quanto mais distante parecessem de si mesmos…
mais “apresentáveis” seriam.

Hoje muita coisa mudou.

Mas talvez essa conversa ainda seja necessária.

Porque existem feridas culturais que continuam vivas…
mesmo décadas depois das bandeiras coloniais terem sido retiradas.

30/10/2025
Vamos apoiar esta escola em Bissau. Uma comunidade que tenta resistir apesar das dificuldades. Com apenas um euro podemo...
30/10/2025

Vamos apoiar esta escola em Bissau. Uma comunidade que tenta resistir apesar das dificuldades. Com apenas um euro podemos mudar vida de alguém. 💪🏽💪🏽🙏🙏

14/07/2025

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