11/03/2026
Publica-se a alocação do nosso sócio António Manuel Bentes Francês, sobre o tema “O Sonho de Ser Português e o Dever da Camaradagem”.
Publicação autorizada gentilmente pelo mesmo.
0 SONHO DE
SER PORTUGUES
E 0 DEVER DA
CAMARADAGEM
PORTIMÃO, 8 de MARÇO de 2026
ALMOÇO DO NÚCLEO PORTIMÃO LAGOA DOS
COMBATENTES
(em memória dos que já partiram)
Venho-lhes falar da vida. E da camaradagem. E da amizade que hoje nos identifica. São as recordações do tempo da juventude que dá sentido aos homens que hoje somos. É esse interminável percurso que nos lembra os duros caminhos de uma guerra que nos liga e durou 14 anos e que, volvidos mais de 50 anos, ainda nos atormenta, nos lacera a carne e permanece escondida no fundo do pensamento como se fossem velhos dias passados connosco lá dentro. Já tenho idade suficiente para me lembrar de muitas coisas. Por isso, começaria por lhes falar da idade. E do peso da velhice. Quando olho para trás e vejo a pessoa em que me transformei e dos amigos que já morreram e da saudade que guardo dessa gente, sinto raiva por termos sido abandonados, pelo Estado Português, da maneira que fomos.
A grandeza humana sem a amizade, a solidariedade e o amor para com os outros quase que não tem sentido. A razão da amizade não tem só a ver com educação, a família, os afectos, o amor ou a inteligência, é algo muito especial que tem a ver com o desígnio do coração e da justiça vivencial. Não fomos feitos para vivermos sozinhos. A ingratidão e esquecimento são actos admissíveis. O impulso da curiosidade no homem começa logo nos tempos de criança e nas brincadeiras conjuntas. Infelizmente, transformámo-nos um país de gente idosa com necessidades acrescidas "Da minha língua ouve-se o rumor do mar”, escreveu Virgílio Ferreira. E foi a vontade de querer dominar esse mar que, sem o saber, viríamos a descobrir a nossa vocação. Nós, algarvios, temos esse mar como desígnio. É um mar que está apegado à nossa pele. Fizemos parte daqueles primeiros navegantes que demos a conhecer ao Mundo novos raças inimagináveis de gentes e foi com eles que ganhámos milhões de irmãos que hoje falam a Língua de Camões: somos a oitava maior família do mundo e a terceira entre os ocidentais. São essas lembranças vagas do passado que nos marcam a vida e nos vincam a alma.
Na origem deste encantamento julgo estar um sonho feito aventura. Somos uma multiplicidade de povos e raças em que nos fomos transformando ao longo dos séculos. Um povo de emigrantes que tivemos que buscar lá fora a sobrevivência que o País nunca nos soube dar. Nós, antigos combatentes, sabemos isso por experiência própria. Sabemos como a Pátria nos foi madrasta esquecendo mesmo aqueles que pagaram com o sangue e com a vida o esforço de continuarmos a ser portugueses. E aqueles outros que ainda hoje vivem os sobressaltos e o desconforto (sindromas pós-traumáticos) de quando jovens ao servirem as Forças Armadas da Nação Pluricontinental que éramos nesses tempos. Trata de um percurso de sobrevivência espiritual, uma longa caminhada que nos catapultou para uma espécie de bastião à terra face aos países de acolhimento: se nas suas visitas às aldeias e vilas onde nasceram os nossos emigrantes gostam de salientar os novos costumes que aprenderam nos países mais ricos e desenvolvidos onde ganham a vida, na família e com os amigos eles pensam e falam a nossa língua, e é em português que cantam, riem, choram e que persistem em sonhar.
Somos um povo que quase se habituou a ser muito pouco exigente. Sempre tivemos que contar os tostões, de fazer grandes sacrifícios sem pensar no amanhã. Mas temos uma virtude inegável. Sempre fomos solidários para com todos aqueles que precisam de ajuda. Vimos nas cheias e nos incêndios que grassam, todos os anos, por esse país fora.
Nesta visão colectiva sem igual está implicito o espírito do homem de hoje. Ao longo destes últimos cinquenta anos, vivemos a última metamorfose desse sonho de ninguém. Um sonho que Fernão Lopes e que Camões profetizaram, e que, já nos nossos dias, Garrett e Pessoa apelidaram de "Quinto Império", é ainda ao redor destas singulares tertúlias de amigos e de franco e saudável companheirismo, a partir de iniciativas de boa vontade como esta que hoje rubricamos, aqui, com estes almoços de confraternização dos núcleos Portimão e Lagoa de antigos combatentes, soldados das Forças Armadas Portuguesas que, ao longo dos anos, combateram e defenderam nos diversos cenários de guerra, nesses bocados da terra portuguesa espalhados pelo mundo, que pulsa muito da energia vital das mulheres e dos homens que queremos continuar a ser como Povo e como Nação.
Hoje, somos um pequeno Portugal de muitas cores, de várias línguas, de muitos credos e geografias. Somos uma gente do mar da vida. A grande Pátria dos homens é esta terra onde todos habitamos. Tempos e geografia sem fronteiras: tempos difíceis de conflitualidades várias, feitos de medos, de preocupações, de alegrias e de tristezas, de sucessos e de insucessos, de sobressaltos, de violência, de pobreza, de enganos e desenganos. Tantas vezes, vividos na dor do fundo do mar da vida. O destino do Homem, nos dias que correm, já não tem só um rosto, nem uma língua, nem uma raça, nem um país. Há apenas uma vida. Saibamos vivê-la. Guardar no coração é a forma de amar e resistir para lá da fronteira dos dias.
Muito obrigado.
Bentes Francês
Restaurante a Rede, Portimão aos 8 de Março de 2026