15/02/2026
Entrar num instituto oncológico hoje é fácil. Na primeira vez com o meu filho não foi. Eu já havia lá estado para tratar de uma parceria profissional e tinha encontrado a sala meio encantada.
Sabem aquela poesia que só a "vemos" quando lida com um problema que não é nosso? Crianças valentes, esperança e muita cor – isso era tudo o que eu via.
No dia em que levei o meu filho para a primeira consulta tudo estava diferente. Não me lembro de cor e também não me lembro de esperança.
Quando entrei, senti que os meus pés já não tocavam o chão. Crianças carecas, amarelas, algumas chorosas, mães cansadas e muito, mas muito mais gente do que eu gostaria de ver. A sala estava cheia. Para todos os lados que olhava, via a criança na qual eu não queria que o meu filho se transformasse. O que fiz eu ir ali? Eu queria ir embora. Dei o meu nome, fiz o registo, resignada. Pronto, agora o meu filho tinha um "prontuário" naquela sala.
Mantive distância de outros pacientes, ainda sem aceitar a situação. Eu observava. Uma adolescente bem magra vomitava muito na cadeira da quimioterapia e discutia com a mãe como se ela fosse a responsável pela sua doença. Pobre mãe, pensei – ainda a tentar sentir-me falsamente distante daquele mundo “triste”.
A realidade desabou na minha cabeça quando cheguei à porta da sala onde o Santiago iria ser tratado. Crianças com retinoblastoma. Várias. Sequelas. Várias. Sentia-me num inferno. Não queria estar ali. Eu não queria que o meu filho ali estivesse. Olhei para ele e vi o seu ar inocente. Tontura. Encostei-me à parede e baixei a cabeça. Lágrimas, muitas lágrimas caíram, mas procurei disfarçar para não chatear as mães das outras crianças.
No meio daquela confusão uma mulher aproximou-se, parou a meu lado e, sem me olhar directamente disse ao meu ouvido: “Calma, tudo vai passar e o seu filho vai ficar bem. Eles precisam de nós fortes”.
Quando levantei a cabeça ela já tinha se afastado, mas tive tempo para perceber que era a mãe da adolescente que vomitava. Uma mulher simples, de rosto sofrido. Estava de volta ao lado da filha. Deu-me um olhar de cumplicidade e virou-se para ajudar a menina. No meio de tanta dificuldade, não sei de onde aquela mulher tirou energia para me consolar, como encontrou tempo para observar a tristeza de outra pessoa…
Naquele momento senti-me ligada a todas as mães à minha volta. Todas a lutar pelos seus "bebés”.
Aos poucos as cores foram ficando mais vivas, a esperança mais próxima. Senti vergonha da minha fraqueza (“Eles precisam de nós fortes”) e muito amor por todas as pessoas que me cercavam.
*A SOS Oncológico adaptou este texto para celebrar o Dia Internacional da Criança com Cancro