10/10/2026
Considerações sobre:
FÉ, VERGONHA E LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA
O papel da religião, do Escutismo e dos Assistentes na formação do ser humano.
"Deus criou-nos com emoções que dão cor à vida. A vergonha, a culpa, o medo, a esperança e a alegria fazem parte da nossa condição humana. Podem ajudar-nos a reconhecer os nossos erros, a compreender os outros e a encontrar um sentido para a vida. Mas também podem ser utilizadas para influenciar comportamentos, condicionar escolhas e, em determinadas circunstâncias, controlar consciências."
In: "Jacques Sevin e o Escutismo "
É a partir desta reflexão que importa pensar sobre o papel da religião na sociedade e, particularmente, na formação escutista.
Faço-o com respeito pela Igreja Católica, reconhecendo a sua importância histórica, espiritual e social, e enquanto alguém que se identifica com os valores do Escutismo e da Fraternidade Nuno Álvares (FNA).
Não pretendo questionar a fé de ninguém, muito menos desvalorizar a matriz católica do Corpo Nacional de Escutas (CNE), que nasceu no seio da Igreja Católica.
Pretendo, isso sim, refletir sobre a fronteira entre a educação da consciência e o condicionamento das emoções; entre a vivência da fé e a obediência sem questionamento.
A religião tem sido, ao longo dos séculos, fonte de esperança, solidariedade, conforto e inspiração para milhões de pessoas.
Tem contribuído para a formação moral de gerações e para a mobilização de comunidades em favor dos mais frágeis. Mas, como qualquer instituição humana dotada de autoridade e influência, também pode correr o risco de recorrer ao medo, à culpa e à vergonha como instrumentos de controlo.
Quando a vergonha nos ajuda a reconhecer uma injustiça, pode ter um valor educativo. Quando a culpa nos leva a reparar o mal que fizemos, pode revelar uma consciência desperta.
Porém, quando estas emoções são utilizadas para silenciar dúvidas, desencorajar perguntas ou fazer acreditar que questionar uma autoridade é desrespeitar Deus, devemos parar para pensar.
A fé deve ajudar-nos a crescer, não a ter medo de pensar.
A questão não está em acreditar ou não acreditar. Está na forma como a fé é transmitida e vivida. Uma coisa é educar para a responsabilidade moral; outra é ensinar a obedecer por medo. Uma coisa é orientar consciências; outra é procurar dominá-las.
E que melhor lugar para refletir sobre estas questões do que o Escutismo?
Baden-Powell concebeu um movimento educativo destinado a contribuir para a formação do carácter, da autonomia, da responsabilidade e do espírito de serviço.
A Lei e a Promessa não foram pensadas como simples fórmulas para repetir em cerimónias, mas como referências para a vida quotidiana.
No CNE, a dimensão espiritual e a identidade católica constituem elementos importantes da proposta educativa.
Na FNA, o compromisso dos adultos com a fraternidade, a solidariedade e o serviço continua a dar sentido à vivência do ideal escutista.
Em ambos os contextos, os valores só ganham verdadeira expressão quando se transformam em atitudes.
De que serve ensinar a responsabilidade se não permitirmos que cada pessoa aprenda a pensar e a decidir?
De que serve falar de liberdade se confundirmos a dúvida honesta com falta de fé?
E de que serve proclamar valores cristãos e escutistas se não os traduzirmos na forma como tratamos aqueles que caminham ao nosso lado?
É neste contexto que importa reconhecer o lugar dos Assistentes nos Agrupamentos do CNE e nos Núcleos da FNA.
O Assistente deve ter uma missão que exige compromisso
A presença do Assistente não deve ser reduzida à celebração da Eucaristia, à oração em determinadas atividades ou à representação institucional da Igreja.
A sua missão pode assumir uma dimensão muito mais profunda: acompanhar espiritualmente a comunidade escutista, ajudar a interpretar os valores à luz da fé, promover a reflexão e testemunhar, pela própria vida, a coerência entre aquilo que se anuncia e aquilo que se pratica.
O Assistente não tem de ser uma pessoa sem fragilidades, dúvidas ou contradições.
É humano, como todos nós. Mas o lugar que aceita ocupar implica uma responsabilidade particular perante aqueles que nele reconhecem uma referência espiritual e moral.
Quando um Assistente celebra o seu compromisso de investidura, esse momento não deve ser encarado como uma mera formalidade cerimonial. Deve representar a consciência plena da missão que assume, da confiança que lhe é depositada e da responsabilidade inerente ao lugar que passa a ocupar.
Investir-se numa missão é aceitar servir.
É comprometer-se a acompanhar, escutar, aconselhar e estar presente. É compreender que a autoridade espiritual não deve ser utilizada para impor pelo medo, mas exercida através do exemplo, da proximidade, da humildade e do respeito pela dignidade de cada pessoa.
A investidura, por si só, não garante a coerência de ninguém.
É a prática quotidiana que demonstra o verdadeiro significado do compromisso assumido.
Por isso, tal como exigimos aos dirigentes escutistas responsabilidade, preparação e coerência, também devemos reconhecer que a função de Assistente merece ser vivida com consciência, disponibilidade e seriedade.
Não se trata de exigir perfeição, nem de colocar em causa a legitimidade da sua missão. Trata-se de reconhecer que nenhuma função de referência dispensa a responsabilidade pessoal, a reflexão sobre as próprias atitudes e a procura constante de coerência entre as palavras e os atos.
O Assistente deve ajudar a formar consciências, não a substituí-las. Deve saber corrigir sem humilhar, orientar sem manipular e transmitir a fé sem transformar a culpa numa prisão interior.
A sua presença será tanto mais significativa quanto mais contribuir para que cada jovem ou adulto encontre, na vivência espiritual, razões para ser mais justo, mais solidário e mais disponível para servir.
A responsabilidade é de todos
Esta reflexão não se dirige apenas aos Assistentes. Interpela também dirigentes, responsáveis associativos e todos aqueles que assumem funções de liderança no Escutismo.
Na FNA, a maturidade adquirida ao longo da vida não nos dispensa de questionar as nossas práticas. A experiência não nos torna infalíveis, tal como o exercício de um cargo não nos confere superioridade moral sobre os outros.
Ser adulto no Escutismo significa continuar disponível para aprender, reconhecer erros e colocar o interesse coletivo acima das vaidades pessoais. Significa compreender que a autoridade se torna legítima e respeitada não apenas pelo cargo que ocupamos, mas pela forma como exercemos as responsabilidades que nos foram confiadas.
O mesmo princípio deve orientar a relação entre a fé e a educação escutista.
Respeitar a Igreja Católica não significa abdicar do pensamento crítico. Valorizar os Assistentes não significa dispensá-los da responsabilidade inerente à sua missão. E honrar a tradição do CNE não significa deixar de refletir sobre a melhor forma de transmitir os valores que sustentam o movimento.
A tradição merece ser preservada, mas também compreendida e vivida. A fé merece respeito, mas não deve servir de justificação para o silenciamento. E a autoridade deve ser exercida com a consciência de que aqueles que acompanhamos não são propriedade nossa: são pessoas em formação, com dignidade, inteligência e liberdade de consciência.
A verdadeira autoridade não precisa de alimentar o medo para conquistar respeito. Conquista-o pela coerência, pelo exemplo e pela capacidade de servir.
Talvez seja este um dos maiores desafios de quem educa e acompanha no Escutismo: transmitir valores sem impor consciências; orientar sem dominar; corrigir sem humilhar; e cultivar a espiritualidade sem fazer da vergonha um instrumento de submissão.
A fé pode inspirar-nos a fazer o bem, mas é no modo como tratamos os outros que a sua autenticidade se torna visível.
E porque o Escutismo não deve limitar-se a formar pessoas que saibam repetir a Lei e a Promessa, mas procurar formar homens e mulheres capazes de as viver, mesmo quando ninguém está a observar.
Um compromisso que se honra todos os dias
No final, a questão não é saber se devemos acreditar, sentir vergonha ou reconhecer os nossos erros. A questão é perceber se aquilo em que acreditamos nos torna mais livres, mais conscientes e mais capazes de servir.
Que a fé nos inspire, que a Lei e a Promessa nos orientem e que a consciência nos mantenha despertos.
Que os Assistentes compreendam a importância do lugar que ocupam e a responsabilidade do compromisso que assumem. Que os dirigentes reconheçam o valor da sua presença e que, juntos, saibam construir comunidades onde a espiritualidade se vive com autenticidade, a autoridade se exerce com humildade e a liberdade de consciência é respeitada.
Servir não é deixar de pensar. Acreditar não é deixar de questionar. E educar não é controlar: é ajudar cada pessoa a tornar-se capaz de escolher, por convicção, o caminho que considera certo.
É aqui que regresso a Baden-Powell, fundador do Escutismo, que escreveu em Aids to Scoutmastership uma frase que continua a interpelar todos os que assumem responsabilidades na formação espiritual:
«A religião só pode ser assimilada pelo exemplo, não ensinada apenas por palavras.»
Talvez seja esta a melhor mensagem para todos os Assistentes, dirigentes e adultos que assumem compromissos no Escutismo: a fé não se impõe, testemunha-se; os valores não se proclamam apenas, praticam-se; e a missão não se honra apenas no momento da investidura, mas em cada gesto, em cada atitude e em cada decisão.
Porque, no Escutismo, o verdadeiro compromisso não se mede apenas pelo que prometemos diante dos outros, mas sobretudo pelo que somos capazes de viver depois de a cerimónia terminar.
Assim fosse
Jorge Moreira Silva