20/05/2026
Há profissões que vivem longe dos aplausos.
Profissões que muitas vezes são julgadas, incompreendidas ou até desvalorizadas pela própria sociedade. Pode ser um assistente social, um bombeiro, um psicólogo, um enfermeiro, um médico, um polícia, ou tantos outros profissionais que trabalham diariamente junto da dor humana. Pessoas que entram onde muitos desviam o olhar.
Tal como o Padre João Torres descreve em "Guardador de Fantasmas", também eu me revejo, tantas vezes, nesse papel.
Escuto sem julgamento.
Acolho histórias contadas por pessoas profundamente vulneráveis, muitas delas excluídas pela sociedade e, não raras vezes, até pela própria Igreja. Pessoas invisíveis aos olhos de quase todos. Pessoas que carregam dores tão pesadas que já deixaram de acreditar que alguém as queira ouvir.
Mas quando encontram alguém que lhes sustenta o olhar com humanidade e presença, algo muda. Desarmam-se.
Por vezes choram compulsivamente. Outras vezes ficam apenas em silêncio, como se aquele silêncio dissesse tudo o que as palavras já não conseguem explicar. É como se, ao finalmente darem voz à dor, conseguissem aliviar um pouco o peso que carregaram durante tanto tempo escondido. Como se certas memórias, deixadas durante anos num lugar escuro dentro delas, encontrassem finalmente uma pequena fresta de luz.
São relatos tão duros, tão reais, tão profundamente humanos, que acabam inevitavelmente por entrar no coração e na alma de quem os escuta. Histórias de vida que nunca imaginei ouvir. Realidades que, antes deste caminho, talvez nem acreditasse que existissem.
E é aí que percebo que fico também com esses fantasmas.
Mas, no meio de tudo, procuro lembrar-me de que aquelas pessoas talvez não estejam apenas a falar comigo. Muitas vezes, estão a tentar falar com Deus através de alguém disposto a acolhê-las, nem que seja apenas por breves instantes.
Quando termino o meu dia de trabalho e regresso a casa, tento convencer-me de que certas partilhas ficaram para trás. Tento seguir em frente como se aquelas dores não tivessem atravessado o meu dia. Mas a verdade é que aquilo que escutamos com o coração não desaparece simplesmente. Há experiências que continuam a viver dentro de nós, discretamente. Às vezes em silêncio. Outras vezes ocupando todos os pensamentos.
No caminho para casa, ou já deitada na cama, muitas dessas vivências regressam. E percebemos que, inevitavelmente, acabamos por carregar um pouco dos fantasmas dos outros. O difícil, no meio disto tudo, é não permitir que eles nos consumam. Mas somos humanos. E quando trabalhamos com empatia verdadeira, há sempre palavras, olhares, gestos ou imagens que permanecem connosco muito para além do momento em que aconteceram.
Existem histórias que regressam sem aviso.
Instalam-se dentro de nós. Mudam a forma como olhamos o mundo, como confiamos nos outros, como dormimos, como sentimos.
Talvez quem trabalha diariamente tão perto da dor humana compreenda isto: o cansaço invisível de carregar pedaços do sofrimento alheio dentro do próprio corpo. A forma silenciosa como a empatia também deixa marcas. Como o sofrimento dos outros, ouvido repetidamente, acaba por transformar partes da nossa própria alma.
Chamam-lhe trauma.
Mas nenhum conceito consegue realmente traduzir o peso de guardar os infernos dos outros sem saber, muitas vezes, onde pousar os nossos.
E, ainda assim, apesar de tudo isto, continuo sem me imaginar noutra profissão. Porque, no meio da dor, há também humanidade. Há encontros que salvam. Há vidas que mudam porque alguém decidiu escutar, acolher e permanecer.
E enquanto houver alguém a precisar apenas de um olhar humano, de presença, de dignidade e de escuta, continuarei a acreditar que vale a pena. Que talvez não consigamos mudar o mundo inteiro, mas podemos, sim, mudar o mundo de alguém.
Vera Ribeiro (Assistente Social na Equipa MICAELA)