24/04/2026
Testemunho de uma jovem– Vigília de oração pelas vocações- Confiança
Hoje estou cá por um motivo muito nobre. Não porque me vou basear nas minhas vivências para fundamentar porque confio a minha vida a Deus, mas porque Ele é a razão de estar cá hoje. É a razão do meu existir e porque é Ele quem me faz viver um novo dia em busca dos meus objetivos com Esperança.
O meu percurso de vida nem sempre foi linear e talvez por isso comecei a procurar em Deus um lugar seguro. Era uma criança com muitos medos, inseguranças e sempre vivi alarmada com o que ainda não aconteceu e com o que nunca chegou a acontecer. Foi a partir do 1.º ano que comecei a ter um contacto mais profundo com Deus, numa escola de irmãs de Apresentação de Maria. Tive uma professora, também catequista, que era irmã e acima do programa escolar, seguia um método de ensino baseado nos valores e na vida de Jesus. Lembro-me de ouvi-la a falar com tanta sabedoria e convicção que me sentia cativada e curiosa em saber mais Dele. Eu queria conhecê-lo, tê-lo por perto. Para mim, ir à capela era entusiasmante, sobretudo quando era feita a exposição do Santíssimo. Sabia que era a presença real de Jesus e sentia que estava a vê-lo e por isso, podia falar com Ele sobre qualquer coisa. Saber que há alguém para mim em todos os momentos, sempre me trouxe muito conforto.
Quando mudei de escola enfrentei alguns desafios e apesar de sempre ter muita gente à minha volta, sentia-me sozinha. O bullying e uma série de situações transversais à minha vida fizeram-se questionar se a minha vida tinha algum sentido, ou sequer valor. Os anos passaram-se e cada vez mais me sentia alheia ao meu redor, até que um sentimento de vazio e incompreensão se instalou em mim. Nada me motivava. Deixei de ver o mundo com cor e os meus dias pareciam todos iguais. Tinha 15 anos quando fui diagnosticada com Ansiedade Generalizada e Depressão. Foi inevitável entrar num tratamento farmacológico e ficar uns tempos de atestado médico porque já não estava funcional como antes. Como se não bastasse, sentia uma pressão interna tão grande que para atingir a excelência para poder entrar em medicina, desenvolvi umas alterações cardíacas que até hoje vivo com consequências. Mas a verdade é que foi neste lugar de dúvida sobre mim que comecei a confiar que Deus me via de uma forma que eu não me via. Entretanto, reencontrei-me em Psicologia, uma área que cada vez mais me apaixona e reconheço o valor; porque o bem-estar interno influencia tudo o resto. Às vezes, quando temos o coração apertado, anseamos ser escutados. Mas a realidade é que nem sempre é seguro. Pode acontecer que o nosso desespero em guardar mágoas nos leve a mostrar feridas a quem pode fazer delas o que lhes apetecer.
Eu aprendi a refugiar-me em Jesus. A partilhar as minhas inquietações com Ele. A pedir ajuda para ter mais clareza comigo mesma. E a minha maior resposta é a Palavra de Deus e é o conforto inexplicável que sinto quando recorro a Ele. Jesus pode preencher muito do vazio que sentimos. Jesus limpa as nossas lágrimas e não grita connosco quando desabafamos, erramos e nos mostramos frágeis. Ele não nos faz sentir incompetentes. Ele nos fortalece só por sabermos que fomos escolhidos por Ele.
Neste mês está a fazer precisamente 1 ano que deixei de tomar a medicação. Não tinha todas as respostas, mas senti que precisava confiar mais profundamente em Deus. Queria ver-me livre da medicação, mas tive medo. É como libertar dois passarinhos que viveram a vida toda numa gaiola. Senti-me livre apesar do medo, mas a presença Dele encaminhou-me e continua a encaminhar-me. É preciso muita confiança em Deus para se submeter ao desconhecido porque se não há esta confiança, podemos perder-nos. Não duramos muito sem orientação, tal como os passarinhos. Mas como sei que Ele está presente na minha vida, muito posso, porque não estou sozinha. Ele ama-me tanto que caminha comigo quando não estou bem e chama-me para ensinar a Palavra a um grupo de crianças da catequese. Se Ele me confiou esta missão, Ele ainda é mais digno da minha confiança. A confiança, no fundo, é acreditar que Ele guia a minha vida. Se eu permitir, Ele me levará até onde o meu coração ressoa porque caminhar com Ele, faz com que a autenticidade ascenda e assim, há mais congruência entre mim, Deus e a forma como quero viver.
Para mim não há amor maior do que uma pureza sem ambiguidades e incertezas; um que não nos deixa confusos e a pensar se realmente é ou não amor. Não estou convicta de que na Terra se encontre o amor incondicional, mas uma certeza que tenho é que ele existe e pode ser sentido em qualquer momento, apesar de não o ver com os meus próprios olhos, porque o mais belo não se vê. Sente-se.