05/02/2026
Uma política de verão e outra de inverno para o mesmo problema - Nuno Mamede Santos
“Um ecossistema funcional amortece os extremos climáticos. O que temos é o oposto: uma paisagem-palito. Quando o fogo chega, tem combustível contínuo. No inverno, não consegue absorver a chuva.
Portugal lê mal o território.
No verão, quando as chamas devoram aldeias e os noticiários repetem as mesmas imagens há décadas, prometemos plantar árvores. No inverno, quando a água arrasta carros e entra pelas portas das casas, prometemos limpar as ribeiras. Reagimos sempre à crise da estação anterior, como se incêndios e inundações fossem problemas diferentes, que exigem soluções diferentes, geridos por ministérios diferentes.
Não são. São o mesmo problema; visto de dois ângulos.
Em setembro de 2024, três dias de meteorologia extrema bastaram para transformar um ano
"exemplar" num dos piores da década. Até 31 de agosto, tinham ardido pouco mais de dez mil hectares; o valor mais baixo em dez anos. Em apenas 72 horas, entre 15 e 17 de setembro, arderam mais de 126 mil. O balanço final: 137 mil hectares destruídos, nove mortos, e um país a perguntar, mais uma vez, o que correu mal.
Agora, em janeiro de 2026, enfrentamos o risco das piores cheias em 25 anos. As albufeiras estão no limite. Os solos, saturados, perderam a capacidade de absorver mais água. A Agência Portuguesa do Ambiente alerta para "situação hidrológica potencialmente perigosa" nas bacias do Douro, Mondego, Vouga e Tejo. As depressões sucedem-se; Ingrid, Jana, Claudia; e a Proteção Civil contabiliza centenas de ocorrências: inundações, deslizamentos, quedas de estruturas.
E há uma frase nos comunicados oficiais que ninguém parece ler com atenção: os deslizamentos de terra são "potenciados pela remoção do coberto vegetal na sequência de incêndios rurais.
Eis a ligação que insistimos em não ver.
Uma paisagem saudável é uma esponja. Retém a água quando chove, liberta-a lentamente durante os meses secos. As raízes das árvores estabilizam os solos e criam canais de infiltração. A matéria orgânica acumulada no chão; a manta morta; absorve humidade e funciona como reservatório natural. As florestas diversificadas criam microclimas mais húmidos, reduzem a temperatura do ar, produzem aerossóis que favorecem a formação de nuvens. Um ecossistema funcional não elimina os extremos climáticos, mas amortece-os. (…)”
Continua em: https://www.publico.pt/2026/02/04/azul/opiniao/politica-verao-inverno-problema-2163415