14/02/2026
XII Montaria ACPA - O Ano das Águas Furiosas
Quando pensámos que o vale já conhecera todos os seus rostos, o céu decidiu desmentir-nos.
Aparentemente dócil, نهر (Nahr) ergueu-se outra vez. Não como gigante adormecido, mas como força cega. As margens que guardavam memórias de passos antigos foram engolidas. As veredas, onde tantas vezes ecoou o latido distante e o som ritual das buzinas, tornaram-se linhas líquidas, rasgadas por enxurradas súbitas e violentas.
(Amm) أمّ , senhor do tempo e do relâmpago, já não disputava apenas o trono do vale. Desferia golpes sucessivos, sem aviso. Ventos que dobraram azinheiras centenárias. Chuvas que não pediram licença. O chão, saturado, cedeu. As encostas tremeram. E por instantes, até a fortaleza da Pedra da Moura pareceu recolher-se, em silêncio.
(Khinzir Bry) خنزير , o rei javali, conhecedor dos ciclos antigos, não fugiu. Recolheu-se nas zonas altas, onde a água não ousa ficar. Observou. Esperou. Porque sabe que a força bruta do céu é passageira, mas a memória do território é eterna.
Nós, filhos do Homo que se julga senhor de tudo, fomos obrigados a recuar. Não por medo - mas por respeito. O vale não é nosso. Nunca foi. Habitamo-lo por concessão. E este ano, a concessão foi suspensa. Houve pontes improvisadas, trilhos redesenhados, planos refeitos à luz da lama.
Houve dias em que a única decisão sensata foi não avançar. A natureza não se enfrenta quando fala nesta linguagem.
Mas também houve outra coisa: persistência.
Quando as águas baixaram, revelaram um território diferente. Mais cru. Mais exigente. Mais verdadeiro. As marcas das enxurradas são cicatrizes abertas - mas também fronteiras redesenhadas. O vale testou-nos. E nós aceitámos o teste.
Nahr regressará ao seu leito. Amm dissipar-se-á no horizonte. Khinzir Bry descerá novamente aos domínios que considera seus.
E nós?
Voltaremos.
Não por teimosia.
Não por bravata.
Voltaremos porque o embate faz parte do ritual. Porque o vale não é cenário - é personagem. Porque cada tempestade que rasga também purifica.
E porque, mesmo quando o céu decide medir forças, há promessas que não se dissolvem na água.
Jorge Pereira