02/04/2026
TERTÚLIAS PH | CULTURA É CAPITAL. A cidade vista e revista por quem lhe dá valor | 19 de março
A última sessão, deste primeiro trimestre do ano, teve como convidados Dóris Santos, diretora do Museu Nacional do Traje; Fernando Mora Ramos, diretor artístico, ator e encenador do Teatro da Rainha; e Mário Branquinho, diretor geral e de programação do CCC, tendo como moderadora Rita Sáez, membro da Direção do PH.
Dóris Santos, cujo percurso profissional tem profunda ligação à cidade das Caldas da Rainha, falou da sua relação com a mesma, destacando o fascínio que sentiu desde sempre pelo Parque e pelo Museu José Malhoa. Fascínio este determinante para o seu futuro ligado a vários museus nacionais. Analisou a expressão “cultura é capital”, título da tertúlia, pensando em “capital” como “central”, como “recurso” (financeiro e não só), ou ainda, enquanto adjetivo, algo que é “fundamental”. Destacou ainda, na sua intervenção, a conjuntura, que tão bem estudou, associada à elevação das Caldas da Rainha a cidade, em 1927, especialmente a ação de António Montês na construção da identidade desta como uma cidade de cultura. Chamou ainda a atenção para a necessidade de as associações e outros organismos e instituições caldenses, ligadas à cultura, desenvolverem uma programação articulada, alargando o “valor” da sua ação.
Fernando Mora Ramos, iniciou a sua intervenção com a ideia “arquitetura é cultura”. Articulou, em torno desta, a vivência dos espaços urbanos onde residiu: Lisboa, Lourenço Marques, Évora e Caldas da Rainha, comparando-os. Em relação a Lourenço Marques, destacou as arquiteturas exatas, algo que considerou importante para o seu trabalho de encenador, marcado pelo rigor. Analisou a cidade contrastante dos seus arredores. A escala das vizinhanças determinava noites animadas, mas também a vigência de costumes como os que levavam a que as senhoras não entrassem no Café Portugal. Em Évora, após o 25 de abril de 1974, colaborou para que o Teatro Garcia de Resende foi resgatado da situação de abandono. “Uma cidade faz-nos, no sentido em que não lhe escapamos”, foi uma das suas conclusões.
Já na discussão, destacou a necessidade de haver dois planos de intervenção cultural: o formativo e o de criação. No âmbito do primeiro, considera fundamental chegar às escolas, colocar as crianças num percurso imaginativo, com atividades de maturação lenta. Quanto à criação, comparou o caso nacional com o inglês, em que há um teatro nacional em cada terra. A palavra “capital” trouxe à sua reflexão as regiões do país que estão completamente abandonadas, a necessidade de criar uma verdadeira rede, em vez de cavalgar as ondas atuais, em que prevalece o teatro de “vaudeville”.
Mário Branquinho iniciou a sua intervenção com a seguinte ideia: “Uma cidade vale pelas pessoas que tem”, valorizando a mediação. Inseriu a estratégia do CCC na ligação com as instituições e associações da cidade, parcerias a partir das quais nascem novos públicos. Congratulou-se pelo apoio concedido ao CCC pela DGArtes. Destacou, entre outras iniciativas, o Fórum participativo de maio, os Laboratórios de participação artísticos, os “Dias do Jazz”, o Festival de Piano do Oeste, os concertos de Orquestras nacionais noutros espaços culturais da cidade e as sessões de cinema, tanto no próprio CCC, como ao ar livre. Neste âmbito, o CCC surge como uma estrutura de referência na região e no país, contribuindo para a projeção da cidade das Caldas da Rainha como marca. Mário Branquinho, em discussão, considerou que os espetáculos mais comerciais, de entretenimento, também têm (e devem ter) o seu lugar, diversificando os públicos e regiões de onde este provém.