08/12/2023
Meu comentário:
Mas porque não estão todas as terras a fazer isto, ou, se não têm cisternas, a cavá-las e fazê-las já, como tarefa urgente - a mais urgente, em verdade – como os romanos já sabiam e faziam? E não é para regar jardins, mas, dentro de pouco tempo, para uso humano e para regar as hortas- de onde sairá o essencial do que as populações comerão! Estão todos cegos?
O artigo do Público:
«Alterações climáticas impõem reactivação das históricas cisternas de Évora
A Câmara de Évora procura combater a escassez de água armazenando a que vem do céu no Inverno para a utilizar nos períodos de estiagem na rega de jardins e de outros espaços verdes.
Carlos Dias
8 de Dezembro de 2023
De entre as cidades mais antigas de Portugal, Évora é das que estão implantadas mais longe de um curso de água, detalhe que durante séculos forçou à abertura de centenas de poços e fontes,
originando um complexo sistema hidráulico de captação a partir dos lençóis freáticos, que prevaleceu até aos anos 30 do século XX. Os poços eram na sua maioria privados e estavam localizados nos pátios ou no interior das casas. Nas residências mais abastadas foram instaladas cisternas para guardar as águas pluviais. O abastecimento público era assegurado a partir de poços e pelos aguadeiros que distribuíam a água pela cidade.
Deste património que foi preenchendo o casco urbano do centro histórico de Évora, prevalecem inúmeros poços particulares no interior das casas, muitos deles tapados, e algumas cisternas. A autarquia pretende agora mapear e estudar duas dezenas deste tipo de estruturas hídricas. Até agora foram confirmadas seis em “relativo bom estado de conservação, das quais cinco foram consideradas de interesse relevante.”
Maria da Conceição Rodrigues, técnica municipal, referiu, durante a apresentação do projecto As Cisternas do Centro Histórico de Évora, decorrida recentemente no Palácio D. Manuel, que a origem da cidade “poderá estar associada à água”. Com efeito, parte do aglomerado urbano é atravessado pelo aquífero de Évora-Montemor-Cuba.
Mesmo assim, o lençol freático “não é muito espesso, o que significa que pode baixar de nível com uma seca prolongada ou a abertura de furos”, salientou António Chambel, investigador da Universidade de Évora, na sequência de vários trabalhos de campo realizados, sobretudo, a partir do ano 2002.
Assim se explica que a escassez de água prevaleça uma constante na história de Évora. Nas primeiras décadas do século XVI, o abastecimento público à cidade era manifestamente insuficiente, principalmente nos meses de Verão. Uma das consequências da falta de água reflectia-se no aparecimento de surtos de peste, como os que ocorreram com trágicas repercussões em 1495, 1509 e 1523.
O crescimento do aglomerado urbano incentivou a instalação de chafarizes, mas Évora precisava de um aqueduto para suprir as carências de água, uma vez que os recursos disponibilizados pelas reservas subterrâneas se haviam tornado insuficientes. O historiador Francisco Bilou, que escreveu o livro O Aqueduto da Água da Prata, em Évora. Para uma síntese histórico-arqueológica da obra e dos seus protagonistas (c.1490-1571), salienta que “foi o rei D. João II quem primeiro pensou e ordenou trazer a água da Fonte da Prata à cidade.”
Aqueduto recuperado
A construção foi iniciada, por ordem de D. João III, em 1532 e terminada em 1537. Foram feitos 18,5 quilómetros de aqueduto desde a Herdade do Divor, onde se encontra o ponto de fornecimento de água, que era deslocada para o centro de Évora, até onde está a actual fonte da Praça do Giraldo. As canalizações e arcadas de granito de estilo renascentista assentam, muito provavelmente, sobre o antigo aqueduto romano, admite Francisco Bilou, que faz referência a “uma estrutura hidráulica de cronologia romana.”
A água transportada pelo aqueduto Águas da Prata contribuiu para o abastecimento do centro histórico de Évora, completando a função de centenas de poços e nascentes. Nesta complexa obra de engenharia hidráulica renascentista, as cisternas urbanas passaram a integrar uma importante rede hídrica que incluía a recolha, a canalização e a distribuição da água no espaço público e privado.
Este sistema funcionou até aos anos 30 do século XX, quando o aglomerado urbano se estendeu para bairros periféricos. Com o aparecimento dos sistemas eléctricos utilizados na captação e transporte de água, a Câmara de Évora passou a dispor de melhores condições para utilizar as reservas de furos e barragens. A partir de então, a maioria das cisternas foi desactivada e votada ao abandono. O acesso à água deixou de ser um problema desde o momento que Évora passou a ser abastecida a partir da albufeira de Alqueva, mas as alterações climáticas vieram mudar este figurino.
“A chuva chega de forma mais intensa e mais concentrada, não se infiltra no solo e desperdiça-se muita água”, salientou Marta Azevedo, especialista em arquitectura paisagista, durante a apresentação do projecto de aproveitamento das cisternas existentes no centro histórico de Évora.
“Como vai ser o futuro num território cada vez mais árido”, quando aumentam os consumos, bem como as perdas de água por evapotranspiração, a partir das albufeiras, foi a questão colocada durante o debate.
As cisternas, além de constituírem uma reserva de água para usos que não estejam associados ao consumo humano, podem ainda aliviar os sistemas de drenagem pela sua capacidade de encaixe “nos primeiros minutos de uma chuvada forte”, representando, assim, um “importante contributo na amortização dos caudais”, assinala Marta Azevedo.
Também o aqueduto Águas da Prata já foi recuperado e está em condições de transportar água até um ponto onde o seu caudal, que circula por gravidade, possa ser reencaminhado sob pressão para os sistemas de rega de jardins e de outros espaços verdes.
A situação que se vive na região sul do país, mesmo com o Alqueva, “exige, mais do que nunca, soluções para poupança e reaproveitamento” das águas pluviais, conclui o município eborense. »
A Câmara de Évora procura combater a escassez de água armazenando a que vem do céu no Inverno para a utilizar nos períodos de estiagem na rega de jardins e de outros espaços verdes.