02/10/2026
📍UM POLÍCIA VALORIZADO NÃO É UM ADVERSÁRIO
Tenho acompanhado, com alguma atenção, a discussão que se instalou entre os polícias relativamente ao suplemento atribuído à UNEF. E confesso que percebo algumas das críticas. Percebo o polícia que está na patrulha, que anda na rua todos os dias, que trabalha noites, fins de semana e feriados, que é chamado para todo o tipo de ocorrências, que enfrenta diariamente o risco e a imprevisibilidade da profissão e que olha para um suplemento de 160 euros atribuído a uma unidade específica e pergunta:
“E eu? O meu trabalho vale menos?”
É uma pergunta legítima e não deve ser desvalorizada. Mas penso que esta discussão merece ser feita com alguma serenidade e, sobretudo, com alguma memória. Porque, de repente, parece que o problema passou a ser o polícia da UNEF receber um suplemento e eu não acho que esse seja o problema.
O problema é outro. O problema é percebermos se todos os suplementos que existem na PSP correspondem efetivamente às funções, ao risco, à penosidade, à disponibilidade e aos ónus que cada polícia suporta.
O Governo propôs para a UNEF 160 euros em 2026, com retroativos a julho, e 230 euros em 2027. A proposta estabelece que este suplemento substitui outros suplementos que o profissional já receba, nomeadamente o suplemento de patrulha. Portanto, quando se diz simplesmente que “um polícia da UNEF vai ganhar mais 160 euros do que um polícia de patrulha”, a realidade não é exatamente essa. Mas compreendo perfeitamente que um polícia de patrulha olhe para estes valores e pense que também merece ser valorizado. E merece. Só que a resposta a isso não pode ser retirar ao polícia da UNEF. A resposta tem de ser valorizar o polícia de patrulha. É esta a diferença.
Eu não quero que o polícia da UNEF ganhe menos. Quero que o polícia da patrulha ganhe mais. Quero que o polícia que está na investigação seja valorizado. Quero que quem trabalha nas unidades especiais seja valorizado. Quero que quem assume funções de chefia seja valorizado. Quero que os polícias que estão sujeitos a condições particularmente exigentes sejam valorizados.
Não quero uma PSP onde, para um polícia ganhar mais, seja necessário outro ganhar menos.
É aqui que esta discussão me leva a outra questão que talvez seja incómoda para alguns.
A memória sindical não pode ser seletiva.
Quando discutimos o suplemento de missão, houve uma posição muito clara. A plataforma sindical colocou uma fasquia: 400 euros. Houve quem dissesse que abaixo desse valor não assinaria. O SIAP manteve essa posição e não assinou, porque entendíamos que aquilo que estava em cima da mesa não correspondia àquilo que considerávamos justo para os polícias.
Mas há uma coisa que talvez seja importante recordar.
O SIAP não ficou parado depois disso; Não ficou apenas pela crítica, pelo comunicado, pelo protesto.
O SIAP avançou para tribunal para defender a equiparação do suplemento de missão da PSP ao suplemento de missão da Polícia Judiciária.
E isto é importante dizer.
Porque o suplemento de missão da PJ foi criado para compensar, entre outras coisas, o risco, a penosidade, a insalubridade e os ónus especiais associados à função; nós entendemos que os polícias da PSP não podem ser tratados como profissionais de segunda quando falamos da valorização da sua missão.
Essa luta continua.
Portanto, não aceito que alguém possa dizer que o SIAP deixou de defender melhores suplementos porque assinou o acordo da UNEF: uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Aliás, se assinássemos tudo sem discutir, talvez essa acusação pudesse fazer algum sentido. Mas não é isso que fazemos.
No suplemento de missão, entendemos que não devíamos assinar e não assinámos. Fomos para tribunal. Na UNEF, negociámos e conseguimos um suplemento de 160 euros, com retroativos a julho, que sobe para 230 euros em 2027. Porém, assinar não significa concordar que é suficiente. Significa reconhecer que aquilo que conseguimos negociar é melhor do que aquilo que existia antes.
Vamos continuar a lutar pelo que ainda falta, porque parece que, no sindicalismo português, às vezes existe uma ideia curiosa: se um sindicato assina, cedeu, se não assina, lutou.
Não concordo. Há acordos que devem ser assinados e propostas que devem ser recusadas. Há momentos para negociar e momentos para protestar. Depois há momentos em que a única solução é ir para tribunal.
O sindicalismo não se mede pelo número de vezes que dizemos não. Mede-se pelos resultados que conseguimos alcançar para os polícias.
E aqui chegamos à parte que considero mais curiosa desta história.
Há polícias indignados porque o suplemento da UNEF é, na opinião deles, demasiado elevado quando comparado com o suplemento de patrulha.
Ao mesmo tempo, há sindicatos que dizem que os 160 euros são insuficientes e que deveriam ser mais.
E eu pergunto: afinal, qual é o critério? Para uns, 160 euros é demasiado, para outros, é pouco. Provavelmente ambos têm argumentos legítimos.
Talvez esteja na altura de deixarmos de discutir quem merece mais dentro da PSP e começarmos a discutir porque é que a valorização dos polícias tem de ser feita colocando uns contra os outros. Porque esta é a verdadeira questão!
O polícia da UNEF não é culpado de o polícia de patrulha receber menos. Por outro lado, o polícia de patrulha não é culpado de existir uma valorização específica para a UNEF. Nenhum deles deve ser transformado em adversário do outro. O adversário deve ser uma política remuneratória que não consiga responder de forma coerente às diferentes exigências da profissão.
Precisamente por isso que o SIAP assinou. Porque nós não temos qualquer problema em dizer: Sim, o polícia da UNEF deve ser valorizado.
Mas também dizemos: Sim, o polícia da patrulha deve ser valorizado. Dizemos ainda: Sim, o suplemento de missão da PSP deve ser equiparado ao da PJ.
São todas coisas compatíveis. Não temos de escolher entre uma e outra.
Aliás, é precisamente essa a nossa posição. Não queremos tirar dinheiro a nenhum polícia. Queremos que o Estado encontre dinheiro para valorizar todos aqueles que diariamente asseguram a segurança pública.
E aqui volto ao princípio.
Quando alguns hoje criticam o SIAP por ter assinado a UNEF, eu aceito a crítica. É legítima. Mas também espero que aceitem que façamos algumas perguntas.
Onde estava a mesma indignação quando se negociou o suplemento de missão?
Porque é que aquilo que para alguns era uma linha vermelha numa negociação deixa de ser uma linha vermelha noutra?
Porque é que quando um sindicato não assina é considerado combativo e quando outro não assina é considerado responsável?
E, sobretudo: será que o objetivo do sindicalismo é conseguir melhores condições para os polícias ou simplesmente conseguir dizer que fomos nós que não assinámos?
Eu sei qual a minha resposta e qual a resposta do SIAP. Não estamos aqui para colecionar “nãos”. Estamos aqui para defender polícias. Às vezes isso significa não assinar, outras assinar. Às vezes significa negociar até ao último minuto, outras ir para tribunal.
Foi o que fizemos com o suplemento de missão, e é isso que continuaremos a fazer sempre que entendermos que os polícias estão a ser prejudicados.
Por isso, deixem-me ser muito claro:
Eu não quero que o polícia da UNEF ganhe menos, quero que o polícia da patrulha ganhe mais. Não quero que se retire ao polícia da investigação, mas que se valorize essa investigação.
Não quero que se corte nas unidades especiais, mas que se reconheça a especificidade dessas funções.
Não quero que se diga à PSP que tem de aceitar uma posição inferior à PJ, mas
exatamente o contrário.
Por isso estamos em tribunal, por isso negociamos, por isso reivindicamos.
Entendemos que existe uma oportunidade concreta de melhorar a vida de determinados polícias, não temos medo de assinar. Porque uma assinatura não é uma desistência. É um compromisso! E a nossa assinatura na UNEF não significa que a luta terminou. Significa apenas que, neste momento, conseguimos trazer uma conquista concreta para os polícias abrangidos.
Amanhã continuaremos a lutar pelos restantes.
Talvez seja esta a reflexão que a fazer: Não devemos perguntar porque é que aquele polícia recebe mais, mas sim porque é que todos os polícias não estão a ser suficientemente valorizados.
Essa é a discussão que interessa. E essa é uma discussão que o SIAP está disponível para fazer. Na mesa de negociação. Na rua, quando for necessário. E no tribunal, quando for preciso. Sem dois pesos e duas medidas. Sem memória seletiva e sem colocar polícias contra polícias.
Porque, no fim, a vida de um polícia não vale mais do que a de outro e o trabalho de um polícia não deve valer menos só porque outro conseguiu finalmente ser valorizado.